CARNAVAL OU JUSTIÇA SOCIAL? Por Manoel Moacir

Manoel Moacir, 02 de Março, 2019 - Atualizado em 02 de Março, 2019

Carnaval ou justiça social? Os dois. Estruturasda história e identidade pátria. No dizer popular, nesse país, o ano inicia após o carnaval. Alegoria ao carnaval como espécie do gênero da cultura e da arte do povo brasileiro. Representação de alegria, ritmos, cores e faces do samba, maracatu, frevo, axée da “fubica elétrica de Dodô e Osmar”. Carnaval de três dias, das marchinhas comportadas de dúbios sentidos, das matinês, serpentinas, confetes, afoxése igualdade antropológica e libertária na rua. Não é ocarnaval de sete dias, da privatização dos espaços públicos, dos cercados por robustas cordas, dos lucros exorbitantes, dos trios elétricos estridentes, luxuosos e profissionalizados, da violência, dos exageros sexuais e drogas consentidas ou não, enfim de uma suposta anestesia social do panis et circenses (pão e circo).

O dia vinte de fevereiro, espremido no menor mês do ano, definido pela Organização das Nações Unidas – ONU, como o “Dia Mundial da Justiça Social”. Carnaval com mais gente, menos fantasia emais realidade, mais tropical e menos temperado,festa sem cordas onde cabe todos, inclusive os “barrados do baile”. O objetivo não é estardentro ou fora dos blocos, atrás ou ao lado do trio elétrico”, na Sapucaí ou fora dela, mas chamar a atenção domundo, dividido de um lado, pelos que lutam pela vida abaixo da linha do equador - os desiguais. Do outro, os do hemisfério superior, as minorias da modernidade e avanços civilizatórios. Uma divisãoentre humanos de primeira e terceira categorias, ricos e pobres, desenvolvidos e subdesenvolvidos, emergentes e emergidos, ou ainda, os postulantes ao “país do futuro”, que nunca chega neles. Uma peleja noutro campo entre Brasil versus Alemanha.

A ONU propõe que o mundo nesse dia, concentre as suas mentes e alegrias sãs, na promoção do emprego, do trabalho digno, da igualdade de gênero, da erradicação da pobreza, do acesso ao bem-estar e a justiça social. Dignidadeconquistada por minoritárias sociedades, algumas movidas pela exploração histórica do homem pelo próprio homem, a exemplo do “holocausto da escravidão negra”.

O Brasil no passado, foi visto por visionários camaradas como o “País do Carnaval”. No tempo de cinco séculos, essa jovem nação no calendáriomilenar da humanidade, permanece envelhecida emmazelas inaceitáveis no Século XXI. As marcas da colonização escravocrata, marcam o “carnaval de desesperados em ruídos de exclusões, a maior delas, a desigualdade, afronta aos fundamentos de uma nação cristã. É inaceitável o desprezo aos filhosparidos num mesmo solo e ungidos pelo sinal damesma fé, transformados em mercadorias de menor valor e excluídos do viver humano. Carecem domínimo e indispensável à sobrevivência do corpo e da alma. Não tem justificativa, a aceitação embriagada das abismais diferenças entre brasileiros encarnados na Terra de Santa Cruz.  

Evidências anestesiadas nocarnaval dainjustiça social”, incapazes de quebrar os rígidos privilégios, as perpétuas diferenças e promover asrupturas. No menor estado brasileiro, o “bloco da injustiça social” acolhe em seu “cercado” duzentos e quarenta e um mil sergipanos em miséria absoluta, mais que dez por cento da população estadual. Quase um quarto da população rural é analfabeta. O país do carnaval e da injustiça social, alberga em seus “cordões, afoxés e blocos”, trinta milhões de analfabetos em suas diversas definições, doze milhões de desempregados, assassina violentamente trezentos e cinquenta mulheres e ao menos um LGBT todos os dias. Isso ascende aos estandartes da banalidade do mal”. Rogamos ao “Deus brasileiro” que patrocine ocarnaval da justiça social”, os blocos da fraternidade e os bailes dos incluídos. Quão bom e suave é viver unidos como irmãos na marchinha da paz, condenados a fatalidade do bem e da harmonia.

 

Manoel Moacir Costa Macêdo, engenheiro agrônomo, advogado e PhD pela Sussex University, Brighton, Inglaterra

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