“MARIA, MARIA” por Manoel Moacir

Manoel Moacir, 15 de Março, 2019 - Atualizado em 15 de Março, 2019

Expressão da mulher, “Maria” traduz a força feminina, a maternidade e a religiosidade cristã.  Para uns a “Mãe de Jesus”, para outros a “Mãe da Humanidade”. Mulheres encarnadas como dos “Santos”, da “Silva”, de “Souza e de “Jesus”. Outrascomo “Maria de Itabaianinha e de Rio Real.Haverá sempre uma “Maria, mãe e mulher”, um ser humano único, a essência da vida.

O poeta Milton Nascimento cantou com sentimento e arte, em verso de rara belezaMaria, Maria,mistura a dor e a alegria”. Mulher das montanhas, da planície, do planalto, do morro, do asfalto, da favela, da rua, do palácio, do mocambo e do cortiço desse desigual país. Para Benito di Paula: “mulher brasileira em primeiro lugar”. O seu canto, acolhe as mulheres brancas, negras, morenas, amarelas, coloridas de amor angelical, que somente elas tem, pois são divinas. Presente ou ausente, sempre existe “uma mãe, uma mulher, uma Maria”.

Como um ser singelo, advindo do infinito amor de “Maria”, dotada da alteridade sideral e acordada pelo chamado celestial para a “admirável contribuição como portadora da vida, no empréstimo de seu ventre para o surgimento de vidas, ao natural ou como barriga de aluguel”, suporta tanto sofrimento, injustiça e dor. Holocausto dediscriminação e violência. Carência de igualdade dedireitos, oportunidades e respeito. Ponto de partida desigual. Preconceito de gênero e ódios subterrâneos. Apenas por ser mulher.

Inaceitável, que persistam ganhos salariais dos homens em média, vinte por cento superiores aosdas mulheres. A cada duas horas, uma mulher sofre alguma violência em solo pátrio, dentro e fora de casa. As nossas “Marias sofreram duzentos mil denúncias de violência nos dois últimos anos, estatística que se repete no corrente ano, onde mais de dezoito mil foram registradas, nos dois meses anteriores ao nove de março, o “Dia Internacional da Mulher”, melhor dito, um marco à igualdade de direitos. “Apenas por ser mulher”.

A margem do desconhecimento, a históriaregistra mulheres brasileiras que se destacaram emmovimentos sociais e ideais libertários: Anália Franco (1853-1919), Maria Lacerda de Moura (1887-1945) e Cora Coralina (1889 – 1985). A primeira profissionalizou mulheres, acolheu mães solteiras, párias sociais, e lutou pela educação igualitária entre os gêneros. A segunda, uma pacifista, contra o fascismo, e dedicou-se às crianças. A terceira, uma poetisa bissexta que dizia: “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”, para ficar no século que passou.

Numa sociedade predominantemente cristã em suas religiosidades, pautada pelo sinal da fé e da santa cruz, ácidos, estupros, marretadas, murros, chutes e torturas físicas e morais qualificam o universo macabro de sofrimento da mulher brasileira na chaga do feminicídio - assassinato cruel de mulheres por homens. Um machismo nojento e repugnante numa nação, que se propõe ser moderna e desenvolvida. Um país do futuro, que tarda chegar. Expressões de desigualdade na completa tradução, na renda, na raça, no poder e no gênero. Na poesia do cordelista rio-realense Washington do Cordel, mulher que “luta e consegue viver, não nasceu para sofrer”.

Ainda predomina sob a luz iluminista, discursos preconceituosos e machistas em sutis formas, que exige a força do “não é não”, ou a sátira do poetinha:“que me desculpe as feias, mas beleza é fundamental”. Artifícios do “país do jeitinho”. No dia após dia, do nascer ao pôr do sol, e do amanhecer ao anoitecer, as “mulheres, mães e Marias sãomuito mais de que “apenas mulheres”, sãofenomenais pelos mistérios que somente elas possuem.

 

Manoel Moacir Costa Macêdo

Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra

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