A AGRICULTURA SERGIPANA NO CENSO E NO SÉCULO

Por Manoel Moacir e Márcio Rogers Melo de Almeida

Manoel Moacir, 10 de Agosto, 2019

Na agricultura sergipana, cinco culturas são destacadas em área plantada e volume de produção nos recentes anos do Século XXI: milho, laranja, coco-da-baía, mandioca e cana-de-açúcar, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Nenhuma movimentação relevante aconteceu na estrutura agrária e nas políticas públicas estruturantes. Em face dos sistemas produtivosdessas culturas serem intensivos no uso da terra, as tecnologias foram mais poupadoras de terra, do que de mão-de- obra.

O Censo Agropecuário de 2017 repetido pelo IBGE desde 1940, em sua síntese, trouxe informações relevantes ao planejamento e formulação de políticas públicas. Somente 7,4% das propriedades rurais nordestinas recebem “assistência técnica” e 43% não usam nem o “preparo do solo”, prática elementar no modo de produção agrícola. Enquanto na região Sul, 48,6% das unidades rurais são “assistidas tecnicamente” e66,5% “preparam o solo”, afora as abismais distâncias de acesso às informações virtuais e capacidade de absorção e processamento numa economia globalizada. Em Sergipe, quase um quarto da população rural é analfabeta, o que coloca àfrente do espelho uma imagem futura de restrições e dificuldades.

O Brasil agrícola está dividido entre o “moderno” e o “atrasado” ainda como um carregamento histórico de uma formação econômica calcada na heterogeneidade estrutural, termo caro à escola “cepalina” da economia e encontrado nas formulações de Celso Furtado. De um lado a agricultura de baixa capacidade tecnológica, de outro um pujante setor agrícola lastreado na ciência tipo 4.0, conectada pelo empreendedorismo de agricultores integrados ao novo mundo da produção. Quase 70% do crescimento do produto da agropecuária brasileira deve-se à tecnologia. A terra perde a centralidade na forma de apropriação do excedente e riqueza gerados no campo.

Em Sergipe, o cultivo do milho é um caso à margem da sua posição relativa, quando vista comomais próxima do lado atrasado que do moderno na régua de medição tecnológica agrícola. A cultura do milho se mostrou dinâmica com aumento deprodutividade, onde a média nordestina está abaixo da encontrada em Sergipe, com tendência crescente de eficiência produtiva. Um cluster específico de empreendedores rurais, apartado do planejamento estadual. Uma experiência endógena e exclusiva do setor produtivo. Com uma área plantada de 170 mil hectares, esse grão de importância econômica nascadeias produtivas alimentares humana e animal, com forte efeito multiplicador na geração de renda dos produtores rurais, capilaridade espacial no território nacional e dinâmicas regionais diferenciadas. Um polo de sucesso alavancado pela demanda externa no ciclo internacional das commodities, intensificada pelo crescimento do mercado interno e integração regional entre as cadeias de produção animal e vegetal.

O caso do milho, não se reproduziu nas demais culturas destacadas e nem nas suas respectivas cadeias. A área cultivada com o coqueiro em Sergipe alcança os modestos 37 mil hectares, 10% do plantio nacional, em sua maioria na forma extrativista com o improdutivo “coqueiro gigante”, exclusivo para a produção de “coco seco”, distinto do “coqueiro anão”, produtivo, precoce e próprio para a produção de “água”. No primeiro, somos derrotadas pela importação competitiva do “coco ralado” de países asiáticos. A mandioca, permanece com limitada produtividade e uma área plantada estagnada em menos de 20 mil hectares. Cultivo de subsistência e mercado consumidor essencialmente in natura, ou de produtos processados com baixo valor agregado consumidos internamente.

O monocultivo da cana-de-açúcar abrange uma área plantada de 46 mil hectares, abaixo apenas do monocultivo do milho. Mercado dominado por usinas de açúcar e álcool. No vizinho estado de Alagoas, relevante produtor nacional de açúcar, predomina a conveniente substituição da área plantada de cana por soja, seguindo as estratégias de planejamento do “SEALBA – Sergipe, Alagoas e Bahia”, territóriodelineado pela Embrapa Tabuleiros Costeiros e acolhido pelo setor produtivo alagoano. A laranja, outro monocultivo e único produto agrícola que gera pauta de exportação do Estado de Sergipe como “suco de laranja”, numa área plantada de 42 milhectares, com baixo rendimento dos cultivos, carentes de tecnologia e inovação, apesar do crescimento da área plantada. Diferente da produção citrícola em São Paulo, onde a redução da área plantada, tem sido compensada pelo aumento da produtividade.

Destaque no Censo Agropecuário para a produção estadual de leite. Outro caso deempreendedorismo da bacia leiteira sergipana na região semiárida, com realce para o povoado de Santa Rosa do Ermírio. Uma “ilha no continente” da agropecuária sergipana, estagnada em relação ao estado-da-arte da agropecuária brasileira, órfã deplanejamento e políticas sistemáticas de incentivo e fomento. As evidências desses casos singulares, não foram ao acaso, exigiram no século passado, grande esforço de pesquisa, validação e difusão de tecnologia, por parte do setor público que assumiu a totalidade do risco da inovação. Não se nega no lapso temporal, nem o estoque de tecnologia, nem a infraestrutura estatal.

No Século XXI, a realidade impõe muito mais do que elevar a produtividade total dos fatores, mas respeitar as exigências dos mercados, que requerem alimentos funcionais e matérias-primas sustentáveis, respeito ao meio ambiente, sistemas produtivos ecologicamente eficientes e a adoção de relações de produção amigáveis e justas. Novas estratégias de planejamento agropecuário, são requeridas com urgência pelos agentes estatais, desatando as amarras que travam o empreendedorismo do setor produtivo sergipano.

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