HOLOCAUSTO BRASILEIRO (X)

Por Manoel Moacir

Manoel Moacir, 17 de Agosto, 2019

Outro relevante “holocausto brasileiro” é o modo de ser do brasileiro. Ele se exterioriza na violência, no racismo, no linchamento, na pobreza, na ignorância, na corrupção e na desigualdade, entre outros velados, cúmplices e discretos “holocaustos”.  A hipocrisia, a complacência e a sutileza no controle de rupturassociais e levantes coletivos, tipificam o que “é ser brasileiro”. Isso significa a reprodução de falsos dilemas incutidos no imaginário popular como a “democracia racial”, o “jeitinho”, a “tolerância”, a “alegria”, a “mestiçagem” e a “cumplicidade com as mazelas sociais, políticas e econômicas”. Mitos reproduzidos pelos mecanismos de controle social sob a ideologia do equilíbrio e da ética cristã, como uma sociedade multirracial e pacífica, fermentada nas diferenças e por isso, tolerante e acolhedora.

Na obra “Brasil, Brasileiros. Por Que SomosAssim?”, organizada por atores da política e da ciência, tecnologia e inovação, em dezesseis capítulos,professores, pesquisadores, políticos e formuladores de políticas públicas, propõem analisar “o Brasil e o modo-de-ser dos brasileiros, sobretudo, pelo sentimento coletivo de profunda inquietação nessa quadra histórica”. Sobra rigor técnico, coerência de argumentos erelevantes conteúdos sociais, políticos, históricos e econômicas. Exploram de forma profunda, mas com narrativa generosa temas complexos que propõem explicar as faces do comportamento do brasileiro. Cidadania, história, gênero, identidade, pobreza, desigualdade, entre outros, são abordados com requinte teórico e empírico para responder a singular pergunta: “Por que somos assim?”.

Destaques para os capítulos “Como Somos”, onde relata como o Brasil foi construído sobre “a terra fértil, as mãos escravas e os cérebros atrevidos; e nosso fracasso decorre desse casamento. Eles são a base da mente e do comportamento de como nós somos”. Somos “deseducados, desiguais, divididos, corruptos, improdutivos, nepotistas, violentos, pobres, racistas, acomodados, ineficientes, coorporativos, conservadores, elitistas e alegres. Fica difícil explicar o porquê de sermos alegres, mas a realidade é que se não conseguirmos ser um país feliz, somos de fato alegres no carnaval, no futebol e na música”. “Holocaustos” registrados na nossa história dos horrores da escravidão, até a assombrosa e persistente desigualdade.

Como “cidadãos imperfeitos, os brasileiros viram o capitalismo avançar, mas não se beneficiaram da repartição desse progresso. A maior parte da população permaneceu à margem. O cenário da desigualdade de renda, de oportunidades, de educação, pouco se alterou”. O mais grave desse silencioso “holocausto”, é a nossa cumplicidade na forma do “silêncio obsequioso dos bons”. “Somos assim porque somos todos complacentes, em relação a nós mesmo, também aos demais e, igualmente, no tocante à configuração da sociedade. A vida social brasileira, em consequência, se tornou frouxa, porosa e desfigurada, permitindo a aceitação envergonhada da impunidade generalizada, em praticamente todos os escaninhos da sociedade [...]. A complacência concretiza práticas sociais que foram sendo culturalmente enraizadas ao longo dos tempos, um padrão, sobretudo, derivado da subordinação social e política”.

As elites brasileiras, não se livraram dos resquíciosimperialista e escravocrata, nem “do clientelismo, da corrupção e da desigualdade, e atuam no espaço público como se este fosse privado, e pouco contribuem para o desenvolvimento do país. Não é uma elite empreendedora, pelo contrário, elas conspiram contra os avanços demandados pelo país”. Somos uma “Bruzundanga”, marca da imaginária república de Lima Barreto um século atrás, onde predominava a “brutal hegemonia de quem controlava o poder. Não haviamcontroles e os previstos nas Constituições permaneciamletra morta. O familismo e o patrimonialismo erodiam o Estado de direito”. Assombrações atualizadas e transportadas para o presente nas “práticas arraigadas da velha ordem”. Por tudo isso somos assim, e sendoassim, concluo o decálogo dos concretos “holocaustos brasileiros”. [BUARQUE, Cristovam; ALMEIDA, Francisco; NAVARRO, Zander. Brasil. Brasileiros. Por que Somos Assim? Brasília: Fundação Astrogildo Pereira e Verbena Editora, 2017, 338p.].

 

Manoel Moacir Costa Macêdo

Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra 

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