O DESENVOLVIMENTO RURAL SUSTENTÁVEL E A AGRICULTURA SERGIPANA: A CONSTRUÇÃO SOCIAL DE UM PLANO DE AÇÃO

Manoel Moacir Costa Macêdo - Engenheiro Agrônomo Márcio Rogers Melo de Almeida - Economista

Manoel Moacir, 25 de Agosto, 2019

Não é simples a elaboração de um plano de desenvolvimento estadual. Ele exige premissas, teorias, diagnósticos precisos, estrutura e alinhamentos às demandas e movimentos da sociedade. Hoje, mais dinâmicos do que no passado. A bem dizer, uma coletividade se move em torno de uma ordem social com representações “líquidas”.

Um plano de desenvolvimento pode ser apresentado em três blocos. O primeiro, consiste num amplo diagnóstico e análise dos problemas a serem enfrentados. O segundo, na construção e hierarquização dos problemas, clareza de objetivos, prazos, metas, métrica de resultados e levantamentointerno das ações e limitações, afinal de contas uma premissa básica em qualquer plano de desenvolvimento é considerar a escassez de recursos. O terceiro, last but not least, no monitoramento e avaliação contínuas daoperacionalidade, com o intuito de minimizar os desvios da materialização das ações entre a concepção técnica e a realidade no campo da intervenção.

As prioridades da agricultura frequentementenão ocupam o centro das agendas governamentais no dia seguinte às eleições. Ações públicas nessesetor tropeçam no curso da gestão, sem vigor e força suficientes para mudar a realidade exposta “nua e crua” como a obra do teatrólogo e polemista nacional, Nelson Rodrigues. A primeira definição, o problema a ser enfrentado. Ele deve estar ancorado em termos factuais. O primeiro passo para a construção de um plano, é situar a agricultura sergipana face a fronteira tecnológica nacional e enxergar onde ela está posicionada. De nada vale o quanto crescemos, se a fronteira cresce a taxas muito maiores.

Os planos de desenvolvimento para a agricultura, portanto, não devem ser panfletos eleitorais, esquecidos após as eleições, como retóricas do jogo político. É necessário concentrarem arranjos técnicos, parcerias e competências. Asestatísticas exigem conteúdos e correlaçõesancoradas em relevantes e explicativas bases teóricas, ao contrário, pouco expressam e nada prospectam.

A profissionalização da agricultura baseada na geração contínua de inovações, expõe a competitividade brasileira nos principais mercados globais de commodities, colocando a ciência como elemento competitivo, distante do tradicional fator de produção identificado na terra. A agricultura, na sociedade do pós trabalho, não se limita ao que acontece no campo. O mundo interconectado entre fatores anteriores e posteriores às porteiras das unidades rurais definem o que acontece dentro e fora delas. Os complexos agroindustriais e as cadeias de valor global definem os movimentos do capital e a organização produtiva no âmbito particular do mundo agrícola. Diante dessa complexidade, as premissas para a elaboração deum plano estadual de desenvolvimento, exigemtomar para si o desafio de como as ações públicas podem fomentar vantagens comparativas, considerando como princípio o custo versusbenefício na tomada de decisão.

Decisões sobre o planejamento dos agentes públicos e o desenvolvimento futuro, são urgentes e necessários. Os conceitos de “desenvolvimento agrícola, desenvolvimento agropecuário e desenvolvimento rural”, serão agrupados como“desenvolvimento rural sustentável”. O lastro teóricoé a “sustentabilidade” da complexidade rural eintegralidade da rota dialética da produção, distribuição, comercialização e consumo. Para o estudioso dos processos sociais rurais ZanderNavarro, predominou até a contemporaneidade um desenvolvimento “meramente identificado como a absorção das novas tecnologias do padrão tecnológico então difundido, acarretando aumentos da produção e da produtividade”. 

O desenvolvimento rural sustentável, não está restrito às particularidades, ele abraça as diversas ‘agriculturas e pecuárias’, a história, a pluriatividade, o meio ambiente, a agroindústria, o comércio, a colheita, a pós-colheita, a dimensão humana, asrelações sociais, econômicas, políticas e a territorialidade, entre outros. O local e o global são únicos, um depende do outro. Não existe um, sem o outro. No mundo real, onde vivem e trabalham as pessoas, o concreto é a unidade, jamais a somailusória das partes. Longe de uma tarefa simples, um plano de desenvolvimento rural sustentável é um enorme desafio, em particular para o caso de Sergipe, o menor estado da Federação, com limitadas áreas agricultáveis, reduzido mercado consumidor, modesto setor produtivo, aparato estatal comprometido e comércio oligopolizado, afora os seus próprios condicionantes históricos.Urge uma estratégia ampliada na sustentabilidadepara desatar as amarras do esperado“desenvolvimento sustentável”.

Isso significa o alinhamento com o presente e o futuro, e deve ultrapassar os limites das cercas, das secas e do produtivismo reducionista dos pacotes tecnológicos das lavouras e criações. Não pode estar tipificado nas estatísticas dos cultivos, áreasplantadas, volumes de produção e número de matrizes. Não pode ser um amontoado de itens, às vezes “sem eira e nem beira” para satisfazer os seletivos interesses políticos, partidários e de grupos de interesses. Não pode estar distanciado dasdemandas complexas das unidades rurais. Não deve apartar dos sentimentos a jusante e a montante das cadeias de valor. Ele deve estar em linha com as evidências recentes do censo agropecuáriobrasileiro.

No imaginário da sociedade, predomina o crônico dilema entre o rural (atrasado) e o urbano (moderno). Embora, faz tempo, que a agricultura brasileira é moderna, financeirizada, produtiva, inovadora, globalizada, pluriativa e até digital. O setor agrícola é o mais inovador da economia e aproveita a passos de gigantes as suas vantagens comparativas. Desafios, provocações e reflexões estão lançadas. Quiçá seja o Estado de Sergipe, pioneiro no inédito desenvolvimento rural sustentável.

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