SALVE A AGRICULTURA

Manoel Moacir Costa Macêdo

Manoel Moacir, 14 de Setembro, 2019

A agricultura brasileira é um caso exemplar de sucesso na nossa história. Uma aventura sem similar no contexto nacional. Realidade ímpar de êxito, que no curto tempo, alcançou expressivosresultados e atendeu os variados interesses da sociedade. As suas contribuições ultrapassam o setor agropecuário “per se”, para alojar-se no comércio, nos serviços, e na indústria. Ainda predomina na atualidade, o falso dilema do ambiente rural como atrasado, em oposição ao urbano, como moderno. A verdade no entanto, é a dialética entre eles, onde “tudo interfere em tudo da produção ao consumo”.

Nos anos sessenta, dominava na sociedade brasileira os condicionantes e traços marcantes da ruralidade tradicional. A população estava concentrada no campo, o analfabetismo erageneralizado, e predominava um sistema de produção essencialmente agrário, substantivado na quantidade de terra e na desqualificada mão-de-obra nos chamados latifúndios. Os improdutivos, sobreviviam pela força das cercas, do medo, e da opressão dos coronéis, sendo a terra uma reservade valor econômico e político, matéria-prima do atraso, e das lutas pela reforma agrária. Fatores seculares da pobreza, conflitos, desigualdade, miséria, e travas da mudança social.

A partir da década de setenta, a produção agropecuária brasileira cresceu de forma extraordinária. Em 1975, a colheita de grãos foi de 45 milhões de toneladas, expandiu para 58 milhões em 1990, e seguindo repetidos recordes, aestimativa da safra para o corrente ano será de mais de 230 milhões de toneladas de grãos. Uma conquista da inteligência nacional, advinda detecnologias e inovações tropicais geradas pela Embrapa, universidades, empresas e institutos estaduais de pesquisa, e organizações sociais, num ambiente de fomento, assistência técnica, e empreendedorismo dos produtores rurais, vinculados ao novo modo de produzir. Dilemas existem, contradições também, mas salve a agricultura e a segurança alimentar.

Os latifúndios improdutivos, no tempo de meio século, ou aderiram à adoção de tecnologia e o empreendedorismo dos seus proprietários, para cumprir a função social da propriedade, um direito expresso na Constituição Federal, ou sofrerem as pressões dos movimentos sociais de desapropriação para fins de reforma agrária. Os que continuamcercados artificialmente, estão ameaçados pelo progresso iluminista de um mundo globalizado. Na atualidade, eles não representam o poder econômico, político e militar, como no tempo do coronelismo. O desempenho da agricultura no tempo de meio século, mostrou que a produção e a produtividade fincaram os seus alicerces no modode produzir com sustentabilidade e ciência. Ao Estado cabe as regulações, freios, e controles doprodutivíssimo ávido de acumulação em escala, em determinadas circunstâncias, sem feições humanistas.

Importante afirmar, que nesse lapso temporal, o Brasil passou de importador para exportador de comida. Os preços relativos dos alimentos reduziram. A cesta básica em quatro décadas diminuiu o seu custo em 50%. A empregabilidade foi estimulada nos setores além da agricultura. As políticas públicas de transferência de renda não teriam o sucesso vigente, nem o impacto sobre o consumo de bens industriais, se os alimentos não tivessem reduzidos os seus preços, possibilitando um maior poder de compra.

Uma agricultura pujante como a brasileira, não acolhe a insegurança alimentar. A convivência com a a fome, não é um sinal de uma sociedade segura e boa para viver. A sua presença, não comprometeapenas o presente, mais o seu futuro. A fome, não encontra uma racional justificativa, num País continental, guardião de água, energia, terras agricultáveis e livre de graves intempéries da natureza. No dizer de uns, um “País tropical [e] bonito por natureza” e de outros o “coração do mundo”, não pode conviver com naturalidade com a persistente desigualdade. Isso não é um castigo divino, mas uma injustiça humana, oriunda de uma desigualdade sem igual, com a riqueza concentrada em poucas mãos, que proíbe os pobres comprar o “pão de cada dia”, para viver e sonhar com os frutos civilizatórios de um sonhado paradigma de “bem-viver”.

Manoel Moacir Costa Macêdo, Engenheiro Agrônomo e PhD pela University of Sussex,Brighton, Inglaterra.

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