A FEIRA E AS SUAS EXRESSÕES

Por Manoel Moacir Costa Macêdo

Manoel Moacir, 06 de Dezembro, 2019

As feiras brasileiras, em particular as “feiras nordestinas”, são constelações luminosas de valores, identidades e tradições. Elas são as nossas carasespelhadas na atualidade. A feira é uma síntesepurificada no tempo, em arranjos de diferenças,contradições e ilusões. Elas são organizações humanas, com um amontoado de apetrechos. Uma “desorganização consentida”. Porções “mal-ajambradas de macaxeira, batata-doce e inhame disputam espaços com emaranhados de tripas, cabeças, orelhas e mocotós de porco, línguas e corações de boi, buchos e fígados de bode, embrulhados às pressas em páginas de jornais[desbotados]”.

 

Existem as “feiras comportadas”, como as da Lagoa da Conceição em Florianópolis, dos Jardins em São Paulo e de Copacabana no Rio de Janeiro. Elas não são as mesmas “feiras organizadas” de Caruaru em Pernambuco, de Itabaiana em Sergipe e de Rio Real na Bahia. As primeiras são versões globalizadas do Velho Mundo, com feições frias, rígidas e seletivas dos seus povos. As últimas são feiras com conteúdo histórico,hábitos locais, alegria, acolhimento e calor. Elas carregam as identidades tropicais, tipificadas na arte, na culinária, na fala, na cor, na dor, na seca, na cerca, no jeito e nos sonhos de uma gente trabalhadora.

 

A feira, parece simples, mas não é, ela escondecomplexidades. Ela é rural e urbana ao mesmo tempo. Ela une e agrega num ambiente de trocas capitalistas e barganha dos agricultores familiares na oferta de “um quarto” do alimento consumido pela população brasileira.Ela exige uma estratégica logística antes, durante e após a sua vigência, às vezes de um dia, normalmente aos sábados. A feira tem usura e pechincha, abundância e desperdício. Tem gente conhecida e desconhecida, generosa e sovina. Um palco de exposição de jovens e velhos. Ela é “quase um mercado perfeito”. Uma competição entre iguais, sem tramas, algemas e traições. A feira tem solidariedade, prosa e “xepa”. Elasexpressam o sagrado e o profano. “Deus criou o sábado e a feira para que os viventes conversassem entre si e exercessem a astúcia, o logro, a barganha. No início erao Verbo descarnado. Coube à feira dar-lhe seiva e vida”.

 

A depender dos olhares e escutas, a feira pode dizer muito da história, da antropologia, da sociologia, da economia, da alimentação, da política, da saúde, do vestir, da arte, do ser e do ter, enfim das expressõeshumanas da sociedade. Ela acolhe sonhos e pesadelos. As feiras, são territórios democráticos de encontros e desencontros, às vezes, o único espaço de socialização do nascer, envelhecer, sofrer e morrer. A feira não é parte, é o todo. Ela não é escura, é colorida. Ela não ésomente humana, é também animal, vegetal e mineral. Ela não é apenas artesanal, é industrial e comercial. A feira é uma invenção inteligente da humanidade. A grandiosidade da feira, está nas feições e modo das coisas e dos seres. Ela não é cópia das bodegas do passado, nem dos armazéns de “secos e molhados” e nem das cadeias globais de supermercados. A feira é um “teatro amador” encenado por atores do povo em atos de verdades e ilusões, nem sempre aplaudidos como merecem.

 

Na feira, não têm limite de oferta e procura. Ela acolhe todo o reino: os humanos, os vegetais e os animais. São abraçados os ateus, agnósticos, espíritas e religiosos; naturais e processados; loucos e normais; iguais e desiguais; poderosos e desvalidos; e doentes esadios. A feira é uma expressão utópica de igualdade e liberdade. Ela acolhe tudo e todos, não descrimina, protege, orienta e guia. Na feira, compra-se, vende-se e troca-se à vista, a prazo e a fiado. Ela fideliza os fregueses, conquista os últimos e renova o “medieval escambo”. A feira tem um modo próprio de arrumar, desarrumar, ir e vir. Ela sobrevive na sombra, no sol, na chuva, no interior e na capital. Na feira, não faltam frutas, verduras, linguiças, charques, carnes, milho, feijão, arroz, fava, farinha, açúcar, café, fumo, cachaça, arroz-doce, quebra-queixo e galinha caipira. Na feira tem moda, barbeiro, “doutor-raiz”, namoros, brigas,entretenimento, polícia, política, circo e religiosidade. Elaé ampla tal qual a dimensão da vida. Ela tem de tudo para alimentar o corpo e o espírito.

 

A feira expõe de forma “nua e crua” o cotidiano, os festejos, os haveres e os deveres. Ela expressatragédias, aflições e fofocas. Traz esperança e consolo. As feiras, não são expressões dos “tabaréus da roça”, apartados dos urbanos e consumistas da “sociedade líquida”. Elas traduzem a sustentabilidade para os cultos e idealistas, e são nichos de alimentos naturais e saudáveis. Elas escondem os intermediários e os grandes do agronegócio, na perspectiva da utopia do “comércio justo”.

 

A feira tem início e fim. As regras são acordadas nas tradições e costumes. Ela inicia no amanhecer e raramente ultrapassam com vigor o meio-dia. “No pico da feira, sol a pino, [o refresco para o corpo suado] são os picolés de coco, goiaba, e tangerina, para [molhar] as ávidas e [secas] bocas”. Ela abraça os cediços, os tardios, os desabafos, e as bebedeiras do “fim-de-feira”. Como escreveu o poeta: “havia a hora crepuscular, aquela em que a feira, desesperadamente, começava a morrer. Ocorreria, num paradoxo, ao meio-dia, quando o sol atingia o brilho máximo, a camisa e pele já não se distinguiam, misturadas num suor que as fundia. Um calor e uma moleza algo letárgica invadiam nervos, músculos, ossos, juízo. Frutas, verduras, carnes, legumes, tudo se reduzia a cacos e dissolução. Agitações feneciam; convertia-se o bulício em silêncio. Restava um único imperativo categórico: voltar para casa”.

 

As “feiras nordestinas”, as genuinamentebrasileiras, são ao mesmo tempo magias e realidades, práxis e futuro, a exemplo da quente “Feira de Santana”. Elas são “patrimônios imateriais” dos seus locais. Reconhecimento valoroso de sentidos visíveis e invisíveis, e do merecido cuidado para a sua perenidade. Parodiando o laureado escritor português José Saramago: “o adulto que sou, advém da criança que fui”, amadurecido pelas lições da feira, em suas expressõesantropológicas, históricas, sociológicas e políticas.

 

Manoel Moacir Costa Macêdo

Engenheiro Agrônomo, PhD pela University of Sussex, Brigthon, Inglaterra

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