DAVOS MORENO: O MEIO AMBIENTE PEDE PASSAGEM

Por Manoel Moacir

Manoel Moacir, 31 de Janeiro, 2020 - Atualizado em 31 de Janeiro, 2020

No mês de janeiro, as atenções do mundovoltam para o “Fórum Econômico Mundial”. Esse ano, foi o de número cinquenta. Encontro mundialdos ricos, que acontece em Davos, na gelada Suíça. Um lugarejo com onze mil habitantes, para veraneio de milionários, espremido entre montanhas cobertas de neve. No inverno, além do frio, o sol dorme cedo,e acorda tarde.  Surpresa para os pobres dos “tristes trópicos”. Um sofisticado evento de engravatados,poderosos e ricos, protegidos por seguranças,enclausurados num moderno centro de convenções,e recepcionados por anfitriões com rigor nas etiquetas. Os protestos são contidos à distância, por especiais forças policiais, escondidos dos olhos do mundo. Nos meses seguintes, um resort paraseletivos turistas, na busca das confortáveisaventuras no gelo.

 
A agenda por meio século, ocupa os temas da economia capitalista. Em menor realce, a saúde e omeio ambiente. O foco, concentra na acumulação, protecionismo, competitividade, empreendedorismo,inovação e movimentação do capital. Os países ricos, monopolizam o seu conteúdo, e impõem assuas demandas, disfarçadas em sofisticados seminários de alvos, influentes, e endinheirados. Chefes de estado, de governo, ministros, burocratas, representantes de organizações financeiras, e do sistema dominante, discutem as atualidades docapitalismo mundial.  Não se trata de um evento público e acessível aos comuns. Um encontro marcado por convites, aos líderes empresariais,políticos, reis, príncipes, intelectuais e jornalistas.Não cabe os plebeus, nem “os barrados do baile”.

 

Na contradição ao frio e distinguido “FórumEconômico Mundial”, criou-se o noviço “Fórum Social Mundial”, quente, negro, aberto e pobre, sem glamour e visibilidade internacional. Um amontoado de jovens, críticos e retóricos, carentes de força para enfrentar a crescente desigualdade na arena global. A denúncia e indignação fraquejam frente o poder do capitalismo dominante e globalizado, para pautar uma agenda onde “um outro mundo é possível”.

 

A surpresa no cinquentenário “Fórum Econômico Mundial” em Davos, foram às questões ambientais. Elas ocuparam a agenda da elite financeira mundial. Os riscos ambientais, estão entre os dez maiores na economia global. Longe de ocupar uma agenda ideológica, eles compõem a matriz financeira capitalista. Estão no topo dos impactos geopolíticos do capitalismo global. Investidores demandam compromissos ambientaisdos governos, na alocação dos seus investimentos, em face de pressões e protagonismos da sociedadepor um modo de viver saudável, responsável, e cuidadoso com o meio ambiente. Um valor que ultrapassa os lucros e ambições das atuais gerações.

Biodiversidade, emissão de gases de efeitoestufa, mudanças climáticas, e aquecimento global, não são falácias ou utopias, eles estão nas decisões das lideranças políticas, financeiras e econômicas mundiais. Inundações, queimadas, enchentes, tornados, tsunamis, e desastres ambientais, não são alertas, mas realidades, repetidas com dores e sofreres no cotidiano dos ricos e pobres. A problemática ambiental é transversal aos diversos setores da economia. Ela interfere na agricultura, infraestrutura, educação, economia, e saúde, entre outros. Quem não estiver inserido nessa agenda, corre o risco de isolamento e afastamento dos investimentos globalizados e valores iluministas da civilização. Capitais migram de setores tradicionais para uma economia de baixo carbono. O meio ambiente não é um obstáculo, mas uma oportunidade para o desenvolvimento.

No “Davos Moreno”, de um lado, autoridades tentaram recuperar a ultrapassada tese, de que “as pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”. Tese derrotada nos anos noventa, que relacionava a “pobreza com a destruição do meio ambiente”. Do outro, qualificadas liderançascontestaram com a vitoriosa e atual argumentação de que “as pessoas não precisam desmatar para comer, [em face do aumento da produtividade das lavouras e crianças pelo avanço da ciência]”. Evidências que derrotaram a catastrófica tese “Malthusiana”. A fome não resulta das restrições de oferta de comida, mas da incapacidade de compraralimentos, pelos pobres e desiguais. Como também,o desmatamento da floresta tropical, empobrece o solo, destrói a biodiversidade e interfere no clima.

O Brasil, não pode estar fora desse movimento geopolítico mundial. Essa pátria abençoada por múltiplos biomas e livre de intempéries naturais de grandes proporções, possui uma destacada bacia hidrográfica de água doce. Acolhe a relevante floresta tropical e sua ampla biodiversidade. Detémestratégicas reservas minerais, variados ecossistemas, e uma expressiva produção agropecuária. Tudo isso, em dimensão mundial. Nos cuidados ambientais, não existem derrotados, todos são vencedores. O presente e o futuro, não toleram o atraso, nem o estreitamento político-partidário pela causa do meio ambiente, mas a liderança nodesenvolvimento sustentável, além de minoriastemperadas, frias e alvas; para alcançar as carentesmaiorias tropicais, quentes, negras e morenas.

Manoel Moacir Costa Macêdo

Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra 

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