UM OLHAR SOBRE A AGRICULTURA BRASILEIRA

Manoel Moacir Costa Macêdo e Pedro Abel Vieira

Manoel Moacir, 21 de Fevereiro, 2020 - Atualizado em 21 de Fevereiro, 2020

Numa perspectiva setorial, isto é, numa visão da “parte”, apartada das contradições do “todo”, a exemplo da persistente desigualdade e dos sofríveis indicadores sociais; a produção agropecuária brasileira, é um caso isolado de sucesso. Nas três últimas décadas, ela cresceu mais do que a média mundial e projetou o Brasil como uma potência agropecuária.

 

Para um País marcado pela escravidão, e situado na economia internacional do trabalho, comofornecedor de commodities primárias, desigual e perdulário com os valores civilizatórios, a exemplo da fome, os resultados da agropecuária brasileira, são destaques na economia mundial. Para alguns um “orgulho nacional”, tal qual o futebol e o samba. Para outros, a reprodução em novas bases, dohistórico modo colonial de produção. Na macroeconomia, o setor agropecuário tem sidosuperavitário na balança comercial brasileira. Eleoferta alimentos suficientes para a segurança alimentar da população brasileira, e capta osrecursos para sustentar os relevantes programas sociais. A causa da fome no Brasil, não é a carênciada oferta de alimentos, mas a incapacidade dospobres em comprar comida.

 

Chama atenção da relevância setorial da agropecuária, os ganhos crescentes de produtividade, associados mais às inovações tecnológicas, e menos à incorporação de novas áreas de produção. Um privilégio de poucas Nações,pela imensidão territorial, e ímpares arranjos organizacionais de ciência, tecnologia, e inovação, referenciados em ações de pesquisa, ensino, assistência técnica, fomento, e extensão rural. Destaque para o empreendedorismo dos produtores rurais e incentivos estatais, para competir na arenaglobal protecionista. O Brasil alberga estruturas públicas, privadas, e do terceiro setor, em apoio à cadeia de valor da agropecuária. Não é de hoje, que a pobreza, e o descuido com o meio ambiente, não encontram guarida, como argumentos para o desmatamento, incorporação de novas áreas, e adoção de tecnologias apropriadas aos diversos sistemas de produção.

Entre 1997 a 2015 a Produtividade Total dos Fatores (terra, capital e mão de obra) da agricultura brasileira cresceu 4,28 % a.a. (ao ano), mais do queo dobro da verificada nos Estados Unidos. Esseexpressiva produtividade, seguindo a teoria da “inovação induzida”, poupou terra e trabalho. Não estão descartadas as externalidades negativas, a exemplo do desemprego, mobilidade rural-urbana,denúncias de trabalho-escravo, e restrições ambientais, todas intrínsecas ao modo de produzir, na perspectiva do lucro e acumulação de capital no curto prazo. Os recentes achados, distintos do passado, demonstram uma relação mitigada entre a produção agropecuária e o meio ambiente. Na atualidade, o protagonismo de consumidores por alimentos saudáveis, e a atenção dos importadoresao modo ético de produzir, impõem um novo desafio para a agropecuária brasileira. Estão postas as tendências de uma agricultura verde, de baixo carbono, biológica, e comercio justo.

 

O modelo da produção agropecuária tropical desenvolvido no Brasil, baseado no uso de insumos, máquinas, e equipamentos agropecuários, explica o crescimento da produtividade do capital e da mão de obra. Porém, não tem similar elevação naprodutividade da terra -, a base do sistemaprodutivo. A produtividade da terra, cresceu cerca de 4% ao ano entre 1975 a 2005, a seguir,praticamente estagnou. Recentemente, apresentousinais de redução, mesmo com uma safra recordeprevista para 2020, de mais de 250 milhões de toneladas de grãos. Fatores de produção como irrigação, cultivares de ciclos e condições genéticas adaptadas às intempéries, resistência às pragas, doenças, e restrições ambientais, são esperadas nos sistemas de produção. Uma pista de um “novoparadigma tecnológico”, na direção do aumento da produtividade da terra, advindo das crises e anomalias dos tradicionais fatores de produção em uso, na agropecuária brasileira.

Manoel Moacir Costa Macêdo e Pedro Abel Vieira são engenheiros agrônomos

 

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