DOENTE OU DOENÇA?

Manoel Moacir Costa Macêdo

Manoel Moacir, 03 de Abril, 2020 - Atualizado em 03 de Abril, 2020

“O dia em que a Terra parou”. Cantou o poeta. Ninguém ouviu. Delírios do roqueiro lunático. Parceiro internado como louco. Manifesto perdido ao vento. Apocalipse, fim de mundo e regeneração. Cidades vazias. Mercados em crise. Capitalismo ruiu. Ir e vir proibidos. Gente em quarentena. Prisioneiros do medo. Aviões, navios, ônibus, iates, automóveis e carroças estacionados. Fronteiras trancadas. A cidade da luz, escureceu. A capital do mundo, encolheu. Arrogantes, calaram. Poderosos acuados por desvalidos em arrastão. Provas e expiações. Todos iguais na base e na dor.

O planeta parou. “Parou porquê, por que parou?  Porque não ouviram os tsunamis, as queimadas, o aquecimento global, a fome, o consumismo, o materialismo, a violência, o egoísmo, a miséria e a desigualdade. Não faltaram vozes, gritos, choros e ranger de dentes. Falou muito. Não foi escutado. Todos com dois ouvidos. Mensagens no Whatsapp, Instragram, Face book, e E-mail, não foram lidas. Discursos em summits e fóruns, meras retóricas. Papers em conferências e periódicos, não foram lidos. Alertas da pós-materialidade, desprezadas. Continuou febril. Suplicou ao Além. Adoeceu.

Diagnóstico consensual: o mundo está doente. Sintoma simples. Gripe. Aquela que mascara a primavera com o perfume das flores e a dança das abelhas produzindo mel e polinizando as espécies. Gripe do invisível e desconhecido “coronavírus” de uma grande família. Gripe que pautou o planeta doente. Imprensa, só um assunto. Agenda mundial, só um item. Governos, única ação. Poder apequenou-se. Dinheiro sumiu. Mercado colapsou. Ciência, pediu um tempo. Humanos do Norte e do Sul prisioneiros em seus cárceres. Estatísticas letais numa “roleta russa” da vida. “A praça não é do povo, nem o céu é do avião”

Contraprova: o planeta está muito doente. O materialismo ajoelhado frente um adversário minúsculo. Ogivas atômicas murcharam perante o microscópico e invisível vírus. Resta acudir o doente na perspectiva da transdisciplinaridade, incluindo a pós-materialidade. Acolher o doente na unidade biológica, física, psicológica e espiritual. Um vetor com alvo humano. Não interessa os animais, plantas, rios e mares e natureza. Protege crianças, seleciona jovens e ataca idosos e fragilizados. Não surgiu na terra do Ebola e da Aids. Veio do morcego, que não adoece, não morre, mas transmite. Parido na soberba, luxúria, riqueza, acumulação, poder e orgulho. “Em tempo de humanidade desumanizada, nada deve parecer impossível de mudar”.

Tempo de renascer. Soluções retardadas. A ciência levantou hipóteses, as generalizações por vir. O humanismo também. O professor Manoel Tourinho expõe a “corrosão dos valores morais, da corrupção, da banalização do mal, da precarização do trabalho, da depredação do meio ambiente, da urbanização assassina, dos altos índices de depressão, do suicídio e da violência, onde os fins justificam os meios”. O pesquisador José de Souza, em defesa do “bem viver”, “argui que o “coronavírus” é um recado da natureza, visto sermos a única espécie que destrói o seu próprio entorno e as condições essenciais para a vida”. O filósofoVladimir Safatele, em dura síntese, escreveu que a “morte é aplicada a toda população. Aos que causam comoção e aos qualificados como coisas”.

O destino no seu livre-arbítrio humilha o “poderoso maior” -, os Estados Unidos da América. Editorial em relevante periódico destaca: “a derrota do coronavírus na América necessita dos imigrantes”. Aqueles que cotidianamente, são enxotados e renegados desse território. Os crédulos, acolhem como mereceres evolutivos. Washington, cordelista rio-realense, na simplicidade dos seus versos, diz que “muita gente tem sofrido com essa realidade, agora o povo estar vendo o valor da felicidade”. Transição planetária em movimento na dimensão transdisciplinar.

Diagnóstico efetuado. Sintomas identificados. Terapias transdisciplinares e pós materiais postas. Salvar o planeta doente. O “coronavírus” não é causa, é efeito e consequência. A doença prospera em doentes, frágeis, desnutridos e vulneráveis.Antídotos requeridos em similar direção e proporcionalidade. No dizer apostolar, “o homem do mundo é mais frágil do que perverso”. Cuidemos do planeta e do “bem viver” com harmonia, igualdade e justiça. Lição passada. Exemplos dados. Dever de casa por fazer.

Manoel Moacir Costa Macêdo

Engenheiro Agrônomo e Advogado

 

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