A COVID 19 E OS RISCOS À PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA BRASILEIRA

Por Manoel Moacir Costa Macêdo e Pedro Abel Vieira Júnior

Manoel Moacir, 15 de Maio, 2020 - Atualizado em 15 de Maio, 2020

Em tempo de pandemia, globalização sob ataque, conflitos entre potências e incertezas futuras, os agentes produtivos atuam em condições de riscos. A atual crise sanitária irá impor transformações inevitáveis à economia. A produção agropecuária, está no foco dessa realidade. Ela opera sob riscos intermitentes, pois nunca para. Uma atividade sucede outra, em acordo com o ciclo da natureza.

O Brasil colherá a maior safra de sua história: 251,8 milhões de toneladas de grãos. Analistas internacionais projetam que o mundo passará por sua pior recessão desde a “Grande Depressão de 1929” por causa da Covid 19. A previsão é um encolhimento de 3% na economia mundial esse ano. No caso brasileiro, uma retração de 5,3%. As incertezas e riscos, dificultam previsões de safras agropecuárias alvissareiras nos anos vindouros.

O Brasil tem clima, sol e terra para uma produção agropecuária tropical lastreada em ciência. Aqui se produz mais de uma safra durante um mesmo ano. Vantagens comparativas significativas. Apesar do potencial para irrigação, a produção agropecuária continua dependente de chuvas no tempo certo. Outro desafio é a sanidade nos sistemas de produção da agropecuária. O protagonismo dos consumidores impõe demandas relevantes à saúde das pessoas e cuidados sanitários na cadeia de produção. Atenção ao manejo dos produtos perecíveis e a pós-colheita.

No curto prazo não há sinais de retenção na produção e no abastecimento alimentar. Os mercados estão sendo supridos com regularidade e os produtores em ação. Os cenários não sinalizam para descontinuidades no processo produtivo. No entanto, existem dificuldades nos ambientes interno e externo. Internamente, tensões podem proporcionar oportunismos no lado da oferta. Agentes estão pressionados por custos elevados de insumos, redução na demanda e restrições na logística. Essas inquietações, se manifestam em diferentes intensidades nos elos das cadeias e pode gerar riscos às redes de suprimentos. Riscos estão identificados na logística e serviços, com impactos no fluxo produtivo e na mão de obra. As ações para enfrentar a Covid 19, podem oportunizar a degradação ambiental e o aquecimento global, com consequências na importação das commodities agrícolas brasileiras.

No plano externo, uma nova guerra fria está sendo esboçada entre os Estados Unidos e os rivais China, Rússia, Irã e Coreia do Norte. A agricultura brasileira está na inserida na economia global e dependente das exportações dos seus produtos, com destaque para a China. O Brasil é um parceiro essencial do mercado chinês como fornecedor de alimentos e matéria-prima. Os investimentos chineses são fundamentais para recuperar a economia brasileira, principalmente a infraestrutura.

A concentração de insumos produzidos exclusivamente pela China, também pode se constituir um relevante risco. A cadeia de defensivos merece atenção por conta das medidas de contenção da pandemia na Índia. Às próximas safras da agropecuária, requerem garantia do crédito e mitigação de riscos. Imperativo à diversificação dos mercados. Riscos e oportunidades devem ser tratados como estratégias e proveitos futuros. A Covid 19, mostrou oportunidades para incrementar a participação da produção agrícola brasileira no mercado internacional.

Os setores mais vulneráveis da produção agropecuária, como os produtores de frutas e hortaliças, sobretudo os perecíveis, lácteos, biocombustíveis e agroindústrias direcionadas ao abastecimento interno, merecem atenção e incentivos. Independente do setor, os pequenos e médios estabelecimentos rurais sentirão com maior intensidade os efeitos da pandemia, portanto, carecem de similar proteção. Essas previsões não incluem as consequências negativas do oportunismo, típico das crises, que podem ser mitigadas e combatidas com informação e transparência dos agentes públicos. Adotar medidas e comunicar à sociedade as incertezas presentes e implicações futuras, abrirão oportunidades para a agricultura brasileira. Seguro rural, biossegurança, meio ambiente, segurança alimentar e defesa sanitária estarão na pauta da produção agropecuária brasileira. Haverá sempre demanda por comida verde e saudável, durante a após às crises.

Manoel Moacir Costa Macêdo e Pedro Abel Vieira Júnior são engenheiros agrônomos

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