O GRANDE ENCONTRO [IV] ( por Manoel Moacir Costa Macêdo)

Na sabedoria budista, “três coisas não podem ser escondidas por muito tempo: o sol, a lua e a verdade”.

Manoel Moacir, 28 de Maio, 2020 - Atualizado em 28 de Maio, 2020

Encerrado o quarto semestre do curso de agronomia da Universidade Federal da Bahia - UFBA. Metade do curso concluída. A cada matricula semestral, a mesma tensão: “pegar as disciplinas dos pré-requisitos”. Ao chegar na letra “M” terão vagas”? Era o início da computação. Muita coisa era manual. Imagino que havia algum “jeitinho brasileiro”. Não estava ao meu alcance. Por restrições na matrícula, um colega permaneceu mais um semestre em Salvador. Cursou uma disciplina obrigatória e a eletiva “Canto”. Não foram os artistas.

A matrícula acontecia no Instituto de Biologia, campus da UFBA em Salvador. Dificuldades de deslocamento e hospedagem na Capital. A cada semestre, a repetida apreensão. Manter a sequência da grade curricular nos quatro anos do curso. Indispensável a aprovação nas disciplinas semestrais. Isolado no campus de Cruz das Almas, as relações sociais eram diferentes de Salvador. Não existiam mecanismos de integração e convivência. Era um “salve-se quem puder”. Os excluídos da sociabilidade, eram apartados das convergências coletivas. Os chamados “p. de bosta e merdão”. A “ética nas organizações” não era uma disciplina nos currículos universitários e nem um valor nas corporações. Valores éticos, zelam pela convivência social. Para a ética prosperar, torna-se imperativo o exercício pleno da liberdade. O filosófo Immanuel Kant escreveu: “tudo o que não puder contar como fez não faça”.

A vida era restrita ao latifúndio arenoso da Sapucaia nos limites da Escola de Agronomia. Não frequentava a “cantina”, nem o “bar de Antão”. Viagens somente nos estágios e para visitar os familiares. Mistura de compromissos e dificuldades financeiras. Num feriado da Semana Santa, Tite me convidou para visitar à Ilha de Bom Jesus dos Pobres, onde nasceu o brilhante e memorável professor Conceição. Uma aprazível viagem. Foi a primeira viagem pelo mar.

Vencidas as temidas disciplinas fitotecnia, entomologia e fisiologia, preparado para os próximos desafios. Tinha certeza, era a única oportunidade de mobilidade social. Não tinha endereço certo no dia seguinte à formatura. Iniciava a busca por estágios. Sentir a realidade rural. Atendia o “estágio informal” na Embrapa Mandioca e Fruticultura, orientado pelo emérito fitopatologista Hermes Peixoto. Idas e vindas de bicicleta. Desenvolvemos um experimento sobre os possíveis benefícios fitopatológicos da erva daninha Cyperus rotundus - a chamada “tiririca ou dandá”. Um teste da dialética: “para toda tese, existe uma antítese”. Na Escola eram precários os laboratórios, as casas de vegetação e as áreas experimentais. Intuía o desejo de ser pesquisador. A Embrapa me fascinava. Aos meus olhos, tudo era belo. Conheci o brilhante e admirável pesquisador da sócio economia, Cyro Mascarenhas. Passei a visitá-lo com frequência. Colega e amigo até hoje. Sonhava que aquele poderia ser o meu destino. Novo dilema: a fitopatologia ou as ciências sociais rurais? Não existe determinismo, mas livre-arbítrio.

Para praticar os conhecimentos teóricos, criamos o Núcleo Cultural de Estudos e Pesquisas - NUCEP. Reuniões realizadas nos intervalos das aulas e do almoço. Estatuto, membros e propostas definidos. Realizamos algumas viagens. Fomos a Jaguaquara e Itiruçu, promovidas por César Néri. Municípios produtores de hortaliças e fruteiras temperadas. Convidados por Domingo Haroldo, visitamos a “Fazenda Gavião” da Bahia Frutos em Entre Rios, cultivava maracujá e abacaxi. Nessa viagem, visitamos Rio Real, a minha terra natal. Visitamos à fazenda da família de Elias Oliveira em Tanquinho de Feira. Pecuária, caatinga, mandacaru e rochas à vista. De passagem visitamos a família de Jodemir em Feira de Santana.

No desejo de novas realizações, apresentamos ao Diretor da Escola, Professor Zinaldo Sena, propostas para utilizar uma área experimental nas proximidades do estábulo. Atendidos. Euforia na conquista. Ingenuidade no entusiasmo. O mais importante estava por vir. Instalamos nos intervalos das aulas e finais de semanas, entre outros um experimento de “adubação de milho no modelo experimental de quadrado latino”, aprendido na disciplina semestral “Experimentação Agrícola” do mestre Idenor Borges. Sementes de qualidade genética. Germinação excelente. Tratos culturais realizados com acuidade. Chuva no tempo certo. Na colheita, surpresa e decepção: inexpressivos os resultados. Décadas passadas, foram esclarecidos os reais resultados. Os produtos foram colhidos na calada da noite. Mascarados os experimentos e frustradas as esperanças de pretendentes pesquisadores.

Na sabedoria budista, “três coisas não podem ser escondidas por muito tempo: o sol, a lua e a verdade”.

Manoel Moacir Costa Macêdo                                                                                                                           Engenheiro Agrônomo

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