É POSSÍVEL OUTRA PESQUISA AGROPECUÁRIA BRASILEIRA?

Novos cânones irão direcionar os seus modelos para os problemas locais, sustentabilidade, saberes e relações sociais como unidades sociológicas fundamentais e históricas.

Manoel Moacir, 04 de Junho, 2020

Crises e pandemias são comuns no rastro da humanidade. Elas deixam registros na história, mas não saudades. A Covid-19 será uma “mudança de época, um novo paradigma, uma revolução tecnológica ou uma nova era”? O tempo dirá. Não faltam futurologias, utopias e até os sagrados. Transição planetária. Pós-materialidade. Ciclo capitalista. Alentos de novos sentidos. Nos ciclos, o capitalismo sempre rejuvenesceu ávido por lucro e acumulação sem repartição. Flagelos e agonias passadas, não enfraqueceram os pilares da sociedade capitalista, sabe-se, embora suscitam novos questionamentos. Ajustes, acordos e pactos advirão da parada planetária. Para o filósofo francês Luc Ferry, um “humanismo com amor”.

A geração do conhecimento agropecuário ainda se enxerga no espelho da Revolução Verde. Ganhos lineares de produtividade nas lavouras e criações, e oferta de comida barata ainda não generalizada, os indicadores de êxito. Adiciona-se à esses ganhos, a migração do excedente de mão-de-obra rural tecnologicamente desempregado e a urbanização acelerada e excludente. Desconsiderados as agressões ao meio ambiente, a contaminação dos alimentos, a adoção de fatores de produção aderentes às mudanças climáticas e ao aquecimento global. Também não estão debitados ao êxito a violência no campo, a exemplo da Amazônia, nem a dependência genética dos transgênicos nas pujantes safras agrícolas.

A ciência agropecuária abraçou o método científico, perpetuado com o paradigma positivista baseado nos sentidos, universalismo, ceticismo, individualismo, neutralidade, repetição e controle da hermética práxis científica. O Estado, as empresas e arranjos organizacionais são o locos dessa operabilidade, sempre orientados à agenda da maximização de lucro, a oferta e procura e ao poder. Pilares enfraquecidos pelo microscópico coranavírus, o vetor da pandemia Covid-19. A “ciência normal” não tem resposta. Crises e anomalias agora externalizadas. A pós-modernidade não resistiu as evidências oriundas do invisível e desconhecido vírus. Condicionantes como bem-estar, compaixão, felicidade, desenvolvimento, entre outros, não foram atendidos. As estruturas do status quo derreteram. Arrogância contida. Na lógica em uso, o fundamental é a eficiência e o encurtamento do tempo para produzir, consumir e promover anomia e alienação social. Não é o fim da história, mas nunca a “modernidade líquida” se faz tão visível.

Os modos de produzir e viver foram atingidos. Crise na linear lógica em uso. Dilemas em curso. De-globalização em pauta. Movimentações na supra e infraestrutura. Conceitos plurais florescendo. Modos operativos holísticos também. O planeta ferido, rogou pausa. O poeta contou: “parou por que? porque parou?” Os acadêmicos perguntam: “é possível outro modo de gerar o conhecimento agropecuário com ganhos de produção, produtividade, estabilidade e inclusão”? Uma lógica reconstruída, substituirá àquela em uso.

Novos cânones irão direcionar os seus modelos para os problemas locais, sustentabilidade, saberes e relações sociais como unidades sociológicas fundamentais e históricas. Os valores comunitários e coletivos precedem os individuais. Na lógica ressignificada realça a totalidade dos fatores, inclusive os problemas humanos onde as pessoas vivem, trabalham e reproduzem as suas relações de produção. Não existe global sem o local. Vincular o protagonismo dos consumidores e as relações de trabalho. Subordinar o indivíduo à natureza e não o contrário. Acolher a autonomia social, a equidade, a segurança e sanidade alimentar e as cadeias locais de suprimentos. A totalidade histórica influencia a geração do conhecimento da agropecuária, pois as “únicas explicações viáveis para sucessos científicos são as explicações históricas” e evidências factuais positivistas na teoria do conhecimento. Para o cientista social e humanista Milton Santos, “a força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos que apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une”.

No plano institucional, esgotou a modelagem organizacional na lógica em uso. Outra é inevitável. A operabilidade da geração do conhecimento, acontece numa arena onde digladiam os proveitos de classe da base ao topo da estrutura social. O vácuo social é um reducionismo. O Estado e suas organizações são resultantes dessa combinação de forças. Imperativo, redimensionar o ambiente da geração da pesquisa agropecuária, na perspectiva sócio-técnica e nos limites entre o público e o privado. Capilaridade entre os componentes e circuitos abertos. Prioridade aos problemas de pesquisa da localidade. Temas e demandas estratégicas, serão inseridas nas estruturas do sistema de ciência, tecnologia e inovação com parcerias e interesses acordados. Imperativo definir a essência, o conceito, o sentido e o foco da investigação agropecuária.

O tempo é chegado. Resistências articuladas de agentes da pesquisa, grupos de pressão e corporações. Os condicionantes individuais e internos não conseguem modelar a rota de saída do reducionismo à totalidade inclusiva. Súplicas com apelos nostálgicos e corporativos à hegemonia em curso. Evidências postas. Restrições identificadas. Decisões a tomar. É possível sim, outro modo de gerar conhecimento para a agropecuária brasileira. A realidade inexoravelmente encaminhará as deterministas transformações no arrastão da Covid-19. Uma delas, talvez seja colocar a pesquisa agropecuária pública onde ela nunca esteve.

Manoel Moacir Costa e Manoel Malheiros Tourinho                                                                                                      São engenheiros agrônomos e respectivamente PhD pela University of Sussex, Inglaterra e University of Wisconsin, Estados Unidos.

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