O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM OS BRASILEIROS?

Por Manoel Moacir Costa Macêdo e Manoel Malheiros Tourinho

Manoel Moacir, 19 de Junho, 2020 - Atualizado em 19 de Junho, 2020

Não é simples entender o comportamento da sociedade brasileira na atual conjuntura social. Desconhecer a sua complexidade levará à simplificação. Não são recentes e nem inéditas as contribuições sobre a sociabilidade brasileira. As ciências sociais debitam às relações humanas fatos decorrentes das transformações sociais. A história registra os fatos sociais, com os vieses de vencidos ou vencedores. Argumentos são amparados nos paradigmas vigentes da comportada “ciência normal”. Outros serão chamados à complexidade, a exemplo do paradigma por vir da pós-materialidade, uma “espiritualidade laica” no dizer do filósofo francês Luc Ferry.

Para o positivismo, as sociedades foram construídas em etapas por disputas e conquistas. Os êxitos eram contabilizados por ampliação de fronteiras, bens, serviços, honrarias, linhagens familiares, predestinações e exploração de semelhantes. A supremacia se valia da acumulação de riqueza e poder. Registros na cultura, na arte, na ciência e no humanismo foram prendas de ímpares civilizações. As eras, épocas e idades são relatos da humanidade em múltiplas dimensões. O Homos sapiens, tradução de “homem sábio”, espécie superior da existência, não evoluiu por consensos e harmonias, mas por genocídios do Homos, a exemplo do Homo ergaster, o “homem trabalhador”. Não evoluímos do pensar, acolher e proteger, mas do guerrear, abater e destruir. Evidências incutidas na atualidade como seres assimétricos e desagregadores.

Adiante, vencida a pré-história, os impérios foram construídos seguindo as predações sucessivas da supremacia do Homo sapiens. O Confucionismo oferecia uma teoria moral paternalista para unir povos guiados pela unicidade do Imperador. Guerras sanguinárias e cruéis duelos impuseram a superioridade de impérios na antiguidade, seguindo as rupturas nos estados-nação, até à contemporaneidade. A identidade pátria, agregou as heranças da espécie e agruras imperiais às perturbações atuais. Transferidos o ódio, a desigualdade, a insensatez, o materialismo, o racismo, a intolerância e a indiferença aos “humanos-brasileiros”, nascidos simples e ignorantes, acessíveis a educação e valores civilizatórios, mas negados à maioria, como apartados da humanidade civilizada. Reações tem acontecido, ineficazes em alterar a essência do status quo. Louvores à rebeldia da “Primavera Árabe”, sufocada, aprisionada e silenciada. A inusitada Occupy, ofuscada pelas luzes de Wall street. Os corajosos “Indignados” esquecidos no surrealismo de Gualdi. As manifestações brasileiras, “as ruas em disputa”, gestadas como armadilhas extemporâneas e determinantes do presente obscurantismo governamental.

Crises econômicas, políticas, sociais, sanitárias e morais. Sobrepostas e incapazes de arrombar os muros humanitários do bem-viver. A religiosidade cristã, tal Cristo no seu tempo, não subverteu a ordem, não freou os arroubos violentos, nem as bênçãos pentecostais. Controles estão postos à submissão hierárquica, obediência e parcimônia. O “jeitinho brasileiro”, corrupção e privilégios consentidos, escamoteia a legalidade e santifica o “dando que se recebe”, que não voltou, pois nunca saiu. Cientistas sociais em “ensaios da identidade social, nacionalidade e cultura”, em “Brasil, Brasileiros. Por que somos assim?”, não contaminaram com força a explosão de uma “primavera tropical”. “A elite do atraso” descreveu a desigualdade e acumulação criminosa. “Os linchamentos” de vulneráveis mostram a face cruel da justiça com as próprias mãos. A “escravidão estrutural”, holocausto da nossa história, mistificada na utópica “democracia racial”. O “Cavaleiro da Esperança” profetizou o sonho revolucionário. Persistem em formas renovadas a desigualdade, a violência e a hipocrisia. O “contrato social” em ruinas.

Ameaças às liberdades civis, apologia ao armamento civil, desprezo à coesão social, nojo a democracia e estímulo ao ódio não são futurologias, estratégias e planejamentos de curto prazo. Como explicar o seu acolhimento por brasileiros, ditos pacíficos, cristãos e tolerantes à diversidade? Não cabe uma resposta conclusiva, para não simplificar o complexo. Uma pista, pode estar na assertiva do cientista social Zander Navarro: “decorrência da nossa histórica complacência ou, de fato, muito mais a covardia de um povo que não sabe rebelar-se”. No sentir do sociólogo José de Souza Martins, “as nossas transformações sociais e políticas não foram o resultado de grandes revoluções, mas de reformas que não comprometeram a tradição, ao contrário, garantiram a convivência entre o moderno e os modos de vida tradicionais”. O tempo ou “quem sabe faz a hora não espera acontecer”, dirá se virão as rupturas de fora para dentro, continuará a acomodação interna, despertará as consciências cívicas ou reproduzirá a história do Homo sapiens em espécies transgênicas, como respostas aos atuais pesadelos.

Manoel Moacir Costa Macêdo e Manoel Malheiros Tourinho

São pesquisadores e PhD respectivamente pela University of Sussex, Inglaterra e University of Wisconsin, Estados Unidos.

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