O GRANDE ENCONTRO [V] (por Manoel Moacir Costa Macêdo )

Revistar a história é entender a si mesmo e com ela as identidades.

Manoel Moacir, 26 de Junho, 2020

Concluído o terceiro ano do curso de agronomia da Universidade Federal da Bahia - UFBA em 1975. Envolvido por inteiro nas atividades acadêmicas. Nunca fiz nada pela metade. Dedicação, disciplina e esforço integrais. Não possuía facilidades, nem dotes de inteligência, como outros brilhantes colegas. Estudava muito. Como escreveu o vitorioso Bernardinho: “transformar transpiração em ouro”. Tive como companheiro de quarto, o colega Domingo Haroldo, o primeiro da turma e distante dos seguintes. Exemplar estudante e desprendido colega. Jamais competir, reconhecia as diferenças das nossas competências e não eram poucas. Incentivo às limitações, para acompanhar nas discussões, trabalhos e avaliações. Nunca duvidei, ser a única chance de mobilidade social. O sergipano Bival, o outro colega de quarto. Deixou lições de espiritualidade, humildade e camaradagem. Maduro, deixou o desejado emprego na Petrobrás, para entrar na universidade. Humilde, modesto e generoso nos gestos. Soube que está viúvo e recluso. O passado nunca termina.

Não tinha habilidades para o esporte, nem mesmo para o futebol como Lapão e Rizério. O esporte integrava e aliviava as emoções. Não tinha recursos para farras e passeios. Não dispunha de familiares e amigos nas proximidades. Nando, como outros colegas, nunca passou um final de semana em Cruz das Almas. Também, não era um galã para as conquistas como Renato e Paulo Reis. Recluso no campus, restavam às idas à cidade no ônibus de Chico Banha e alguns sábados à noite na “Lanchonete de Samuca”. Celso Ogassawara, colega querido, oriental na origem, mas ocidental nas práticas, na minha terra “um sonso”, ofereceu gratuitamente um curso de judô. Oportunidade de praticar um esporte. O custo era apenas o do kimono. Nos primeiros treinos, apesar da eficiência do mestre, sofri uma luxação no pé. Encerrada a aventura de esportista. Carregado na garupa da bicicleta para a ‘Santa Casa de Misericórdia’. A mesma onde Gutemberg numa homérica farra foi salvo pela glicose. Limitada assistência médica e odontológica, mas não adoecia e nem tinha dor de dentes.

Nessa fase do curso, continuava prospectando estágios, quase uma obsessão curricular. Escrevia para um amplo espectro de destinatários da agropecuária. Conseguir um estágio na “Sessão de Fitopatologia do Instituto Biológico da Bahia - IBB” em Salvador. Dificuldades de hospedagem. Superada pela pensão que morei, após deixar a “república de estudantes de Rio Real”. Aprendizado com os jovens pesquisadores, mestres e engenheiros agrônomos da Faculdade de Agronomia do Médio São Francisco – FAMESF, caso não seja traído pela memória, eram João Maria e Kleber. Estava aos poucos decidindo ser pesquisador. As oportunidades de emprego eram maiores na extensão rural, crédito e assistência técnica. Lembro de Juarez chegando na Escola, dirigindo uma camionete da “Bahema Agropecuária”. Sonhava em dirigir um carro com a marca da empresa. Carteira de motorista era indispensável. Ainda não tinha tirado a minha. A história resulta de ações humanas.

Dois fatos marcaram esse ano. Primeiro, a “monitoria”. O Departamento de Fitotecnia realizou uma seleção para monitores. Uma oportunidade para o exercício da prática e também a bolsa de um salário mínimo mensal. Fortuna para quem vivia com uma modesta mesada paterna. Entre as disciplinas, a temida “Fisiologia Vegetal”. O professor era Haroldo Pinto, terror nas reprovações. Na sala de aula, sentava na primeira fila e obediente ao horário. Hábito que não estranhei quando estudei na Inglaterra. Pensei, poucos irão concorrer. Assim aconteceu. Arguido pelos Professores Leandro e Haroldo, fui selecionado. Mantivemos um relacionamento amistoso. Respeitar as diferenças nos faz peculiar e fundamenta a inteligência humana.

O outro fato relevante, foi o “crédito educativo” do governo federal. Origem do atual Financiamento Estudantil - FIES. Como carente, exceto para a “Secretária Angelina”, fui selecionado. Mais um salário mínimo. Com o da monitoria, uma fortuna de dois salários mínimos mensais. Dispensei a sacrificada mesada paterna e comprei roupas melhores que as de Rio Real. As exigências de quitação desse crédito eram simples. Confiança entre as partes. Carência de um ano após a conclusão do curso. Com a inflação galopante, era módico o passivo. Saldei no prazo acordado. A cada mês que ia ao Banco do Nordeste, quitar o débito, era submetido a uma entrevista do gerente na tentativa de “delatar” os sumidos devedores. Alguns conhecidos. Jamais delatei. Revistar a história, é entender a si mesmo e com ela as identidades.

Manoel Moacir Costa Macêdo                                                                                                  Engenheiro Agrônomo

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