MORTES IMPORTAM SIM

Por: Manoel Moacir Costa Macêdo e Manoel Malheiros Tourinho

Manoel Moacir, 17 de Julho, 2020 - Atualizado em 17 de Julho, 2020

As doenças infecciosas estão presentes na história da humanidade. Registros revelam os genocídios causados por moléstias transmitidas entre os humanos. No caso brasileiro, aparentam esquecidas as padecidas mortes dos indígenas, pelas enfermidades trazidas pelos europeus. De dez milhões de indígenas autóctones em terras brasileiras na chegada dos colonizadores, sobrevivem menos de um milhão. Ainda hoje os “construtores do desenvolvimento amazônico” impregnam populações indígenas com doenças de branco, inclusive sexualmente transmissível. Similar tragédia, foram os desencarnes dos escravos por quase quatrocentos anos. Dos mais de quatro milhões de escravos aqui desembarcados, trezentos mil morreram na travessia marítima, muitos assassinados, jogados ao mar porquê a redução de carga e falta de alimentos assim exigiam. Trinta por cento deles morriam durante o mês à espera do embarque e nos três primeiros meses de cativeiro no Novo Mundo.

Os impérios europeus, sobretudo a Grã-Bretanha na sua fúria por territorios e posses além-mar, além das inovações tecnológicas, a exemplo do barco a vapor e armas como a “balista” - mortífero e sanguinário equipamento de guerra para matar humanos -, desenvolveram os medicamentos para a malária, um mal comum nos trópicos, pensando antes de tudo na salvação da vida do branco colonizador. Assim, “os europeus penetraram em territórios de forma mais fácil, barata e segura, especialmente na África. Uma das mercadorias caçadas por seu valor comercial eram os escravos negros. Humanos precificados como mercadoria pela cor da pele, idade, gênero e métrica corporal. “Portugueses e brasileiros foram os maiores traficantes de escravos ao longo de quase quatro séculos”. Historiadores relatam que “as elites europeias confiavam na superioridade de sua civilização e em sua capacidade de dominar o mundo colonial atrasado”. O negro não era humano. Era uma cor horrível e ambulante; sem olhos azuis.

A humanidade da “modernidade líquida”, embora vivendo sob desigualdades, intolerâncias e tragédias, não tolera como normal as mortes de humanos, acima ou abaixo do Hemisfério Norte. Renascimento e Iluminismo trouxeram o apreço a liberdade e a vida em suas múltiplas dimensões. A contemporaneidade acolheu a ética dos “direitos humanos e garantias individuais”. Os impérios foram vencidos pelos estados-nações e com esses brotou uma ideologia moral para proteger a “Vida na Ecologia Integral”, no dizer do Papa Francisco I. Repúdio as discriminações, negacionismos e perversidades. As contradições afloram impulsionadas pela indignação, misericórdia e compaixão, que assumidas pela sociedade, vão se incorporando aos novos ideários do processo civilizatório atualizado.

Não se tolera a morte em situações de minguados cuidados sanitários da pandemia. Seja uma, dez, cem, mil ou um milhão de mortes, todas merecem o protesto no plano do direito natural, como um direito substantivo à vida e nos códigos humanitários em acudir indistintamente todo ser humano em penúria e sofrimento. Não é aceitável a “contaminação por manada” como terapia da doença. Nem o “lavar as mãos” com duplo significado, ou esconder a salvação dos mais fortes num “darwinismo doloso”. Contestável a qualificação animal aplicada aos humanos: o “comportamento de manada”. Terminologia do mercado financeiro, “quando uma grande parcela de agentes financeiros não tem informações suficientes para a tomada de decisão”, ou do vernáculo ambientalista governamental, quando se sabe ser a Covid-19 uma pandemia de fortes conexões ambientais. Em outros termos, primeiro o capital depois a vida. O que destrói a economia é a morte das pessoas. A história se repete. Os mais atingidos pela moléstia são os negros, índios e pobres das periferias - os desiguais de sempre. Ímpar tragédia em tempos modernos.

O ser humano não é uma mercadoria posta no balcão do mercado de capitais, para quem der mais. Não é um ativo de ganhos financeiros na acumulação da “mais-valia-absoluta” em chamas. Também não é um título de eleitor sem identidade cidadã. Ele merece cuidado e proteção da sociedade. Cabe ao Estado o dever moral de proteger e cuidar de todos. Para os materialistas, pode ser uma massa de carne e osso. Aos crentes um corpo e espírito. Ambos merecedores de devoção e respeito, onde o cristianismo é majoritariamente professado na máxima de “amar ao próximo como a si mesmo”. Alguém, num dia qualquer e em algum lugar haverá de ser responsável por essa tragédia visível a “quem tem olhos para ver o ouvidos para escutar”. Ninguém escapa ao julgamento da história.

Manoel Moacir Costa Macêdo e Manoel Malheiros Tourinho                                                                                     São engenheiros agrônomos e PhD respectivamente pela University of Sussex, Inglaterra e University of Wisconsin, Estados Unidos.

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