O GRANDE ENCONTRO [VI]

“A teoria sem a prática de nada vale, a prática sem a teoria é cega”.

Manoel Moacir, 24 de Julho, 2020

Penúltimo semestre do curso de agronomia da Universidade Federal da Bahia - UFBA. O quarto e último ano. Cumprida a linearidade da grade curricular. Aprovado nas disciplinas. Calouros chegavam a cada novo ano. Alguns ficaram próximos. Os encontros eram raros, não existiam integrações. Cultuo a amizade de Emanuel Franco Filho, calouro desse tempo. Professor da Universidade Federal de Sergipe – UFS e filho do engenheiro agrônomo do mesmo nome, o descobridor do “anel vermelho do coqueiro”. Reencontrei outro calouro, Gismário Nobre, o “Chevette dos Tupamaros” como Diretor da Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe - EMDAGRO. Estava concentrado na conclusão do curso e trabalho no ano vindouro. Era “apenas, um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”.

Nessa altura do curso, o dilema intrigante era a “teoria versus a prática”. O conhecimento era transmitido em maior monta por aulas expositivas. Laboratórios limitados, equipamentos restritos e escassos contatos com a realidade rural. Na “Fitotecnia” tínhamos aulas no campo pela sabedoria do mestre Geraldão. Na “Zootecnia” apreciávamos a vaca de gesso, na inteligência do mestre Afonso. Na “Entomologia” admirávamos a coleção de borboletas e odiávamos os desenhos minúsculos dos insetos, do apressado professor Jonas. As práticas pouco atrativas da “Química Analítica” do professor Minos. Os valorosos mestres, nas contingências da época, esforçavam para estreitar a teoria com a prática. Recentemente, assistir uma reportagem sobre o Grupo de Experimentação Agrícola – GEA, dos estudantes de agronomia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz - ESALQ da Universidade de São Paulo – USP. Iniciativa para aproximar a teoria com a realidade rural. Lembrança do similar Núcleo Cultural de Estudos e Pesquisa - NUCEP mais de quatro décadas passadas. “A teoria sem a prática de nada vale, a prática sem a teoria é cega”.

Uma marca desse semestre, foi o trabalho da disciplina “Grandes Culturas da Bahia” da jovem professora Eny Marinho. Apresentei com muito esforço a “Cultura do Coqueiro”. Valeu a nota máxima. Em 2018, passadas mais de quatro décadas, quando encerrei a labuta profissional na Embrapa Tabuleiros Costeiros em Aracaju, unidade de pesquisa da Embrapa que coordena o programa nacional de pesquisa com o coqueiro, referenciei algumas vezes esse trabalho.

Ansiedade recorrente: como será o dia seguinte à conclusão do curso? quais conhecimentos levarei para o agricultor? Algumas respostas encontrava nos estágios. Mantinha contatos por cartas datilografadas com organizações de pesquisa e assistência técnica. Raras respostas. Carecia de qualificados relacionamentos. Por um acaso, li no mural do Departamento de Química Agrícola um amarelado ofício do Instituto de Tecnologia de Alimentos - ITAL, Campinas, São Paulo, que oferecia uma vaga no “Estágio Coletivo” para estudantes de agronomia. Oportunidade de conhecer a pesquisa agrícola fora da Bahia e do Nordeste. Procurei o Chefe do Departamento, o Professor Alino, e solicitei a indicação. Aceita, não existiam interessados. Viagem de ônibus de Cruz das Almas para Salvador, daí para São Paulo e ao final para Campinas. Cansativa jornada de quase quarenta horas. Desembarquei numa madrugada fria na rodoviária da maior cidade do País. Como documentos, a carteira de identidade e de estudante. Após o amanhecer, outro ônibus para Campinas. Ao final da aventura, o alívio na “república de um conterrâneo”. Passados mais de quinze dias, uma carta dessa experiência chegou a Rio Real. Tempo depois, minha mãe relatou que emagreceu preocupada pela ausência de notícias.

No dia seguinte, a chegada ao ITAL. Entreguei a carta do professor Alino ao coordenador do estágio. Surpresa. A carta não tinha chegado e o estágio iniciado. Após expor as dificuldades, fui aceito por compaixão. Acolhido na “Sessão de Fisiologia da Pós-colheita”. Laboratórios modernos, pesquisadores experientes e pós-graduados. Pesquisas em amadurecimento, conservação, embalagem e transporte de frutas e hortaliças. Temas emergentes que ultrapassavam a porteira da propriedade rural. Continua a estatística de 30% de desperdício dos produtos agrícolas prontos para o consumo. Após a conclusão, o orientador do estágio, me indicou para estagiar no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento - CEPED em Salvador, realizado nas férias do meio de ano. Como estava em São Paulo, a matrícula no primeiro semestre do quarto e último ano do curso, foi efetuada por procuração pelo colega e amigo Paulo Reis. No cantar do tropicalista baiano: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

Manoel Moacir Costa Macêdo                                                                                                                                Engenheiro Agrônomo

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