A COVID-19 NÃO É DEMOCRÁTICA (por Manoel Moacir Macêdo)

Manoel Moacir, 14 de Agosto, 2020

As pandemias não são novidades na humanidade. Elas surgem, causam sofrimentos e desaparecem. As aflições não são repartidas igualmente entre os humanos. No passado as pandemias seguiam a ancestral “contaminação por manada”. O princípio era contaminar todos. Infectavam, inutilizavam e matavam. Os resistentes sobreviviam. Inexistia o acudimento coletivo. Nem Estado, nem sociedade, apenas nobres e subalternos. Ao final, sobreviviam os mais fortes e imperiais, numa brutal letalidade.

Evidências históricas mostram a seletividade das pandemias. Elas estão à nossa vista, a exemplo do genocídio dos indígenas e escravos negros contaminados e mortos pelas enfermidades transmitidas pela elite branca europeia. Varíola, disenteria e febre amarela eram moléstias daquele tempo. Algumas sobrevivem até hoje. Tragédias aceitas pelos dominadores como predestinação, apocalipse, castigo e inferioridade de humanos como se animais fossem. A vida não tinha valor moral, espiritual ou humanitário. Uma mercadoria precificada no mercado. A atualidade esconde essa passagem. Nem comoção. Nem luto. Registros como um escrito qualquer nos burocráticos cartórios e cemitérios em covas rasas.

Tempos passaram, pandemias chegaram e partiram. Nesse Século, a Covid-19 apareceu, após avisar que chegaria, gostou e continua alojada há seis meses. Do hemisfério Norte disseminou para o Sul. Das ricas e poderosas elites para os pobres e invisíveis. A história rima dor com dor e morte com morte. O “coronavírus” não chegou em igualdade para todos os brasileiros. Ele afeta com maior virulência as populações menos favorecidas. Desafia o estado-da-arte da ciência, a arrogância do capital, a volúpia das inovações, a globalização seletiva, as conquistas redentoras e os ensaios dos futurologistas e estrategistas. Todos derrotados por um vírus microscópio e invisível. A Covid-19 não se abate nem por tiro, nem por emboscada. A vacina ainda em expectativa. A terapia pode estar em outro campo de batalha. Quiçá no novo paradigma do bem-viver e da pós-materialidade hibernados em ombros alternativos e utópicos.

O “coronavírus” não é democrático, ao contrário é seletivo e discriminador. Aparecido no país longínquo de crescimento econômico majoritário no planeta. Disseminado pelos bacanas viajantes ao Velho Mundo, aos pobres do lado de baixo. Ataca sem dó e sem piedade os pobres e desiguais. Ele segue a trilha da desigualdade social. A sua letalidade é duas vezes superior nos negros e povos indígenas que nos brancos e ricos. Tendências mostram uma relação entre renda, isolamento social, recuperação e óbitos. Nos bairros periféricos, o isolamento é baixo e as mortes altas. O inverso nos bairros dos endinheirados. No iluminismo dos direitos humanos e garantias individuais, a moléstia recua perante os bem-nascidos e protegidos pelos recursos acessíveis da saúde. O princípio civilizatório impõe o respeito à vida, como o bem supremo da existência. Jamais abandonar, selecionar ou negar à vida a quem quer que seja. Não se normaliza a “contaminação por manada e a morte em série” dos fragilizados pela escancarada desigualdade. O Estado não cumpre o dever moral de acudir todos os humanos indistintamente.

As evidências derrubam as retóricas do igualitarismo da contaminação do “coronavírus”. No caso brasileiro, 43% das mortes pela Covid-19 estão no Nordeste, região mais pobre e com 28% da população nacional. “Pacientes internados em hospitais privados tem taxa de cura maior do que em instituições públicas. Em média, 51% dos doentes em unidades privadas sobrevivem, contra 34% na rede pública. Os índices de cura nas unidades estatais são menores na regiões Norte e Nordeste. A média é de 45% em Pernambuco e 53% no Pará, ante 60% em São Paulo e 79% no Rio Grande do Sul”. No Rio de Janeiro, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA, mostrou que “79% das vítimas da Covid-19 viviam nas áreas mais pobres da cidade”. “A taxa de letalidade do novo coronavírus em Aracaju é duas vezes maior em bairros com Indicie de Condição de Vida - IVC baixo em comparação a localidades com IVC alto”. “Um fator importante são as doenças crônicas, quesito em que as desigualdades sociais mais pesam na saúde da população”. A Covid-19 no Brasil, não são segue a trilha do acaso, mas a bússola da desigualdade.

Manoel Moacir Costa Macêdo é engenheiro agrônomo e advogado

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