COVID-19, ESTADO E PONTO FINAL [II] por Pedro Abel Vieira Júnior e Manoel Moacir Costa Macêdo

Manoel Moacir, 11 de Setembro, 2020 - Atualizado em 11 de Setembro, 2020

As pandemias são comuns na história da humanidade. Todos os humanos em teoria são susceptíveis aos seus danos - a chamada “contaminação de manada”. Elas trazem mortes, sofrimentos e consequências devastadoras na economia. No século passado, foi a “gripe espanhola”. No presente, a Covid-19, causada pelo invisível e microscópico “coronavirus”. Ela matou e travou o planeta. A velha economia foi exposta. Um modelo insustentável que não respeita a dignidade humana. A globalização econômica em cadeias globais intensivas em capital desprezou as externalidades ambientais, a saúde pública, a justiça social e a distribuição de riqueza. No Brasil, ela escancarou a desigualdade. Uma multidão de invisíveis emergiu aos olhos adormecidos da elite. O tempo dirá o sentido do “novo normal”.

O crescimento econômico global trouxe consequências negativas sobre os recursos naturais e as mudanças climáticas. Temas postos na agenda geopolítica. A comunicação em redes sociais, mudou as relações de consumo com o protagonismo dos consumidores. Prosperaram as barreiras não- tarifarias no comercio internacional. Segurança dos alimentos, meio ambiente, responsabilidade social e sanidade são os novos protecionismos no comercio de alimentos. Na política, ascensões populistas e nacionalistas exacerbadas foram expostas, em grande medida influenciadas pelos Estados Unidos.  A democracia tem prosperado e resiste o espírito democrático.

​A dinâmica global seletiva seguia uma trajetória previsível. Com o advento da Covid-19 o mundo parou.  As relações comerciais sofreram restrições. As consequências advindas da pandemia, ainda são imprevisíveis na geopolítica mundial. A constatação mais provável é que a globalização sofreu um revés. A dinâmica do progresso global oscila entre americanos e chineses, e a coparticipação de russos e europeus. Movimento que abriu espaços para outras nações reverem as suas alianças. As políticas keynesianas adotadas por vários países durante a pandemia sugerem para uns uma depressão, para outros uma recessão, que, segundo o Banco Mundial, reduzirá o Produto Interno Bruto - PIB mundial em cerca de 8% no ano de 2020, com aumento da inflação e o advento de políticas fiscais austeras em futuro próximo. O centro da pandemia na China e o monopólio dos indispensáveis respiradores como terapia da moléstia, trouxe à luz as cadeias globais de valor e a emergência da China como um centro manufatureiro mundial. Um antigo império ambicioso e renovado por conquistas e territórios. 

A pandemia evidenciou a importância da segurança alimentar e os cuidados com a saúde. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura - FAO, a crise causada pela Covid-19 colocará mais de 140 milhões de pessoas em situação de extrema pobreza. O mundo irá retroceder em vinte anos no enfrentamento à fome. A América Latina em 2014 estava fora do “mapa mundial da fome”. Atualmente alguns países estão ameaçados pela fome. A segurança alimentar ultrapassa às necessidades fisiológicas, ela reflete os desejos das pessoas, em seus aspectos socioculturais e econômicos. As mudanças nos hábitos de consumo por alimentos saudáveis estão associadas à degradação ambiental, ao aquecimento global e ao consumo de água. No mundo pós- pandemia, as questões relacionadas ao meio ambiente e a segurança dos alimentos crescem em importância além de barreiras não-tarifarias. Elas assentam no ambiente do mercado, a exemplo dos investimentos socialmente responsáveis, identificados na sigla em inglês como ESG - Ambiental, Social e Governança.

Cerca de 90% das terras com potencialidade para a expansão agrícola estão na América Latina e África Subsaariana, sendo que metade dela concentrada em sete países: Brasil, Congo, Angola, Sudão, Argentina, Colômbia e Bolívia. O aumento da produtividade das lavouras e criações por inovações tecnológicas, dispensa à incorporação de novas áreas, para atender a demanda mundial por alimentos. Nesse cenário, realça a importância do Brasil na produção agropecuária e na transferência de tecnologia para regiões carentes de inovação, na perspectiva de reduzir a fome, a miséria e as migrações. Na perspectiva da de-globalização qualquer que seja o “novo normal”, impõe que o Estado seja o garantidor social de última instância e ponto final.

 

Pedro Abel Vieira Junior e Manoel Moacir Costa Macêdo são engenheiros agrônomos.

 

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