O MURILO BRAGA

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Nunes Peixoto, 27 de Novembro, 2019 - Atualizado em 28 de Novembro, 2019


O MURILO BRAGA

Eu contava poucos anos, quando vinha acompanhando minha irmã Inês, e outros dois ou três, para que ela desfilasse no Sete de Setembro Pelo Murilo Braga. Sendo apenas uma criança, da roça, morando em casa pequena, assustei-me com o tamanho do prédio escolar.

Fiquei contando as janelas, ao longe, bem próximo ao bar de Meliano, desejoso de, ao chegar à casa de meus pais, contar da alegria de ter visto o maior prédio de minha vida. Tinha janelas para mais de mil! Eram incontáveis! Procurei imaginar como seriam as salas, os bancos escolares, o quadro negro... e como os alunos aprendiam onde ficava a sala de cada um... Na Escola onde estudei as primeiras letras, havia uma sala única, com uma professora, sentada à mesa, sobre a qual ficava a pedra que servia de ingresso para o “banheiro”.

O sonho de um dia entrar naquela escola terrivelmente grande nutria-me a vontade de “passar de ano”. Minha mãe dizia que futuro só tinha quem estudasse. Era preciso entrar no Murilo Braga, apelidado de “ginaso”, local em que ela só entrou para as comemorações de formatura dos filhos ou para exercer a cidadania do voto, por ocasião das eleições.

Um dia, no mês de março de 1980, entrei, no grande prédio para estudar a quinta série. Tabaréu, com o sapato Vulcabrás, já usado por meus irmãos, com a calça, que também já fora usada, e com a camisa nova, com escudo no bolso, ao lado esquerdo do peito. Era um orgulho só! Imaginem eu falando para os meninos do meu Cajueiro, colegas de bola e de “manja” com quem aos domingos eu me divertia: “Rapaz, agora tô Murilo Braga, um colégio grande que cabe o mundo todo. É como daqui para Candeias”!

Não sabia, em meus arroubos pueris, que a grandeza daquela Casa era incomensuravelmente maior do que a extensão física de seu prédio: Grandes vultos da Educação Itabaianense por lá se encontravam: as Irmãs Pereira (Lourdes, Pureza e Maria), Nadi, Jesonita,  Edelzuita, Teresinha Correia, Maria José Noronha, Lourdes de Mozart, Marlene, Telma, Selma, Maria de Zizi, Gabriel, Rivas, Eliana, Nelma, Anaílda, Formiguinha, Bosco, Eugênio, Edivalci, Ednalva, D. Clara, Maria de Jesus, Lourdinha de Gentil, Teresa Cristina, Edson, Pedro Queixinho, Pedro Caraibeiro, Edmilson, Jaime, Solange, Moisés, João Patola, Agnaldo de Zé Gordinho e sua irmã Agnalda, dentre tantos que não caberiam nesta página.

Maior ainda, pela capacidade de gerar saberes e de conduzir a juventude da Serrana Bela aos primeiros lugares no Vestibular da UFS, aos postos mais altos da Medicina, do mundo Jurídico, ao campo da Economia, da Imprensa e da própria Educação. Mais do que uma casa grande, um projeto enorme, que se encarregou de cuidar da juventude, despertando-lhe o gosto pelo saber, pela Música, pela Literatura, pela Poesia, pela Política, pelas lutas sociais, sem falar no empreendedorismo, marca registrada da gente ceboleira.

Gigante, no esporte, com diversas modalidades figurando nos jogos escolares, como favorito. Notável na música, com a banda do Murilo Braga, sempre abrilhantando festas, comemorações, dando a tantos jovens a oportunidade de um saber erudito, de uma profissão certa. Eram os tempos áureos de um colégio secundarista que disputava, par e passo, com o famoso Atheneu Sergipense, no quesito aprovação na Federal de Sergipe. Tempos em que a Educação Pública ainda possuía qualidade. Tempos em que professoras e professores não precisavam disputar espaço com a internet, com outras atrações dos tempos atuais.

Em 1986, despedi-me daquela casa maravilhosa, onde fiz grandes amizades, presenciei cenas de genuíno romantismo, de peripécias infanto-juvenis, de encontros acalorados, de beijos roubados, de olhares cruzados e correspondidos, de desilusões, de rivalidades, de tudo o que se pode imaginar que acontecia num ambiente escolar que acolhia milhares de estudantes de todo o Agreste sergipano.

Quantos sonhos embalados, quantas confidências, desabafos, declarações de amor, desejos frívolos, paixões ardentes e quantos reencontros aqueles vastos corredores, aqueles jardins, os canteiros com seus cedros, os enormes eucaliptos não presenciaram... Não se trata de nostalgia lúgubre, mas de uma recordação efusivamente festiva e agradecida. Tempos bons!

Aquela instituição escolar, objeto de cobiça de tantos meninos pobres e de tanta gente sofrida, mantém-se intrépida, cumprindo sua missão de instruir a juventude, embora sem os recursos que tivera em tempos outros, quando a Educação ainda gozava de certo prestígio.

o Murilo Braga fora um sonho, concretizado, experimentado, amado, testemunhado. Num passado não muito remoto, era a referência da educação, um porto seguro para quem desejava vencer, singrar novos mares, enxergar o mundo para além da Serra. Era o centro da cultura, da cidadania, da arte, da poesia, do saber. Por seu gigante portão, entravam adolescentes rudes, muitos do mato, e saíam sábios, destemidos e preparados para enfrentar os desafios que a humana existência lhes reservaria, mas os enfrentariam e os venceriam, unicamente com o saber haurido na velha e grande edificação, agora setenária.

Ao ensejo dos setenta anos, o Murilo Braga é bem maior. Não somente pelo brio de seus Mestres, pela pujança de seu alunado, mas sobretudo pelo papel desempenhado na história de Itabaiana e de todo o Agreste sergipano. Parabenizar o Murilo Braga é muito mais do que festejar uma escola. É, na mais estreita acepção, festejar a educação Itabaianense. Parabéns, Murilo Braga! E na grandiosidade de tua existência, na vastidão de tua missão, as felicitações a todos os que por ti passaram, em ti sonharam e conquistaram aquilo que foi objeto dos voos altaneiros.

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