PASSEIO NA FEIRA DE ITABAIANA

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Nunes Peixoto, 23 de Janeiro, 2020 - Atualizado em 23 de Janeiro, 2020

9PASSEIO NA FEIRA DE ITABAIANA

 Logo cedo, antes do raiar do sol, carroças se agitam em direção à pedra da feira, o maior shopping a céu aberto de Sergipe. As barracas sobem suas lonas, os produtos são diametralmente expostos, dando vida e cores aos Largos Santo Antônio e José do Prado Franco. É o começo de um sábado comum na Serrana Bela.

Caminhões apinhados de gente e de produtos agrícolas cerceiam o ambiente. Homens fortes, embora famintos, com seus carrinhos desfilam pressurosos, a fim de dar conta de todas as entregas. Os marchantes fazem os primeiros cortes de encomendas requintadas das velhas freguesas. As fateiras expõem as tripas, passarinhas, fussuras e outras partes das vísceras dos animais abatidos.

Verdadeiras lojas de confecções surgem debaixo dos botecos; mulheres estendem ao chão peças inteiras de bramantes estampados, casimiras, pano de saco e bulgariana. Há vestidos vistosos, bem trabalhados para as ocasiões de adjuntos importantes... até paletós com cortes de primeira monta.

O “frege mosca” já faturou a noite inteira e agora se formam filas para o desjejum de quem passou a noite inteira a vaguear na pedra da feira, arrumando o espaço para os feirantes ou expondo os produtos para a negociata.

Trocadores de cavalos, de bois, de borregas, de carros, de motos, de sítios e de utensílios, mesmo usando outros espaços, dão uma passadinha para enxergar possibilidades de negócios. Há os cambistas do bicho, das loterias de moto, de touros, de relógio, de tudo o que se possa imaginar. Gileno de Zezé de Cândido Nunes chega cedinho, com sua novilha de rifa. Os bilhetes são numerações de anotação em seu caderno. Hoje vai ter sorteio!

No coração da feira, uma banca de doces de Rosa de Titi, ladeada por quatro bancos, onde se sentam os clientes para uma refeição diferente: arroz doce com canela; mugunzá, mingau de milho e de puba, bolachinha de goma, manauês de arroz, de puba, de macaxeira e de milho; doces de caju, de leite, de goiaba, de mamão verde, de pão, de batata-doce; pé de moleque de puba e de macaxeira... é sabor para todos os gostos e bolsos... Oscar do quebra-queixo se instalou na esquina da feira, com dois tabuleiros apetitosos. A meninada já o viu!

Caminhões, vãs e ônibus despejam pessoas numa voracidade de quem tem na feira a maior novidade do universo. Em poucos instantes, o frenesi será espantoso. Os consumidores acordam cedo, e antes de esquentar o tempo, já fizeram um passeio completo. Os que vêm do Norte passam pelas bancas de legumes de Pedro e Fausto de Lia, de Mané Corró, de Zé de Janjão; entram no mercado e experimenta a farinha de Tonho e de Zé de Branquinha, de Zé de Ulisses; provam do Requeijão de Belizário, do charque de Capitulino, de Jóia e Manué de Tonho de Anjinho; compram uns pavios de candeeiro a Rosinha do ralo e deixam encomendas de candeeiros e buiões; encomendam a carne do sol a João de Dominguinho.

No mercado do talho, Tonho de Zezé de Romão, Filinto e Bernedete, Zé de Pedro com os Tavares todos, além dos marchantes da Várzea do Gama, juntamente com Tonho de Sartilo, vedem o que há de melhor em carne bovina. Santo de Ioiô, Zé Barreiro, Francisquinho de Joãozinho e Zeinha cortam porcos. Mais à frente, as bancas de Mané do bode e de outros que vendem também carneiro. “Vai um marrãozinho, comadre”?

Lá, próximo à bomba de querosene, Tide se esbalda a gritar na banca de verduras, a fim de atender à clientela. As mulheres debulhadoras de fava e feijão verdes não perdem tempo. Santo Cardoso e Zé da Rede já marcaram presença desde cedo. As bancas de arreios de couro estão a todo o vapor. Latos, chocalhos, canzis, cangalhas, selas, rabicholas, tudo feito da melhor sola do Nordeste. Capas contra a chuva, perneira, gibão, cias, estribos, barrigueiras, chapéu de couro, cinto, alpercata, rolos e mantas para os animais.

Os ferreiros das Flechas aportaram ainda de madrugada, com foices, facas, facões, formões, machados, enxós, pés de cabra, trempes e brides para animais, tudo para os fregueses novos, além das conhecidas encomendas. Bem ao lado, balaios, rodos para mexer farinha, tamboretes, camas e estrados, moringueiras, baús, bancos, janelas e portas, mobília de rodete. Esteiras, cordas de caruá, cabrestos.

Rosa de Novo, cercada de uma meia dúzia de concorrentes, oferece alguns cigarros de fumo de Arapiraca. As baforadas se assemelham à partida de uma maria fumaça. Bem ao lado, Zé de Cipriano e seu irmão, Silvestre e mais uns dez estão fornecendo um engasga gato. Há de tudo: imburana, pau-ferro, gengibre, jurubeba, rabo de galo, cobra coral, braúna, angelim, folha de pinhão, assa-peixe... tudo misturado à branquinha.

O tempo esquenta e Patolinha está bem na esquina dos dois mercados, vendendo gelada e gasosa, para amenizar o calor. Os picolés do Mocambo já chegaram também; garotos vendem flaus. Zeca e Manué dos peixes, com duas longas barracas, dominam o cenário. Ah! As sacolas já estão cheias... Sem problemas, pois há vendedores ambulantes de bocapius de nylon e de palhas.

Uma banca de remédios do mato, com raízes, cascas, chás, defumadores, garrafadas, emplastros, pomadas e xaropes, destaca-se pelo cheiro bom que exala. À frente, já próximo à feira das panelas, uns caçuás repletos de caranguejos se mostram ao lado dos camarões barbudos e dos siris e aratus.

Ao meio dia, o beco dos cocos apresenta os primeiros bebuns, com suas dançarinas, que lhes dão alegria passageira. O passeio está completo e não foi cansativo. Houve encontros, desencontros, inícios e fins, idas e vindas, mas no sábado que vem, tem mais...  A feira é a única certeza de continuidade nas aragens de Itabaiana.

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