BRUMADINHO: UM ANO DE LAMAS NUM VALE DE LÁGRIMAS

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Nunes Peixoto, 25 de Janeiro, 2020 - Atualizado em 25 de Janeiro, 2020

Brumadinho seguia seu curso, cedendo suas riquezas minerais ao capital, tendo sua geografia transtornada por vorazes máquinas que se estendiam, gulosas, sobre o seu solo, sugando-lhe tudo. Em troca, uma parca recompensa sob a forma de “royalties” (privilégio), um pequeno percentual pago ao município, pela exploração comercial de suas riquezas minerais.

Vinte e cinco de janeiro de 2019 seria mais um dia tranquilo, dentro da normalidade de uma lógica irreversível: eles levam as riquezas para o estrangeiro e, em troca, inauguram uma escola técnica para garantir mão de obra especializada a baixo custo. Na Assembleia, o “lobby” (atividade de pressão de um grupo de propaganda intensa e massificante sobre políticos e instituições para atingir seus fins) campeia grassando com propinas altíssimas, a fim de não se aprovarem medidas que garantam a dignidade da população.

O lobby é negócio de altíssimo valor, muito mais do que o necessário para alfabetizar a população inteira; mais caro do que construir sistemas de segurança para mitigar os malefícios das barragens que invadiram o Estado de Minas.

Os representantes do povo, com boas e raras exceções, fingem não enxergar o perigo. Aliás, ver perigo é “caçar sarna para se coçar”. Melhor mesmo é fingir que a extração de minérios, sem qualquer projeto de segurança e de recomposição da natureza, é o único meio de sobrevivência de uma gente pobre, caipira e sem esperanças. Esse povo só tem uma serventia: votar nos que se vendem às mineradoras que, famintas de capital, devoram tudo: vegetação, rios, córregos, pessoas, futuro.

É necessário parecer legal, para sair bem na fita, inclusive patrocinando a banda de música, casa de apoio ao menor e até casa de parto. Isso lá não é tão dispendioso, quanto explorar do jeito certo! E o lobby campeia! Talvez, até campanhas políticas gordas tenham sido irrigadas com verbas das grandes mineradoras, num afã de assegurar o direito de explorar, de “desenvolver, de trazer o progresso...”

Antes mesmo de remediar Mariana, chegou o fatídico 25 de janeiro de 2019, e Brumadinho também chorou. Sua terra virou lama; seus sonhos, brumas que se desfizeram ao vento forte de um capital que tudo desfaz e que refaz apenas aquilo que deseja. Seu rio virou podridão; seus sítios, com hortaliças admiráveis, se tornaram amontoados de lama, máquinas, corpos, lágrimas que a vale despejou, repentinamente, num imenso vale de dor e de desespero. Quem teve tempo de ver a morte de perto, não teve tempo de dela se livrar. As brumas de Brumadinho se desintegraram e o município quedou-se, num vale de lama, que a Vale fez jorrar impiedosamente sobre sua gente inocente, carente, esperançosa, futurista.

Há gente não encontrada, num desmantelo inigualável, numa agonia só suportada por quem não teve outro jeito. Há sonhos desfeitos, vidas interrompidas, famílias feridas, amores estraçalhados, progresso interrompido. O vale de dor que a Vale fez deu amostras de que o Rio não é Doce e de que a Riqueza não é de Brumadinho, mas do capital estrangeiro que dita as regras de como fazer o extrativismo, mesmo que custe vidas inocentes em números alarmantes. Aquele 25 de janeiro se tornou inesquecível e igualmente indesejável...

Há ainda perigo em Congonhas, Barão de Cocais... há também dores incuráveis. Sobram desrespeito ao ser humano, impunidade, escravidão, submissão. Mariana, Brumadinho e tantos outros municípios das Gerais gritam pedindo justiça, mas quase sempre, no dizer de Ovídio, o Poeta de Roma, “o tribunal está fechado para os pobres”. Até quando?

 

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