A FARINHADA

Jerônimo Nunes Peixoto, 20 de Fevereiro, 2020 - Atualizado em 20 de Fevereiro, 2020

A FARINHADA

O sono era abruptamente interrompido, às três da madrugada, quando todos  –desde os adultos às crianças de cinco anos – tinham o doloroso dever de se levantar, para darem início à lida da farinhada. Os mais fortes iam à malhada arrancar a mandioca. Os demais iam para destroçá-la e acomodá-la nos cestos e nos carrinhos de mão. Estes vieram bem depois.

Com uma rodilha de pano de saco, por debaixo do chapéu de palha, o cesto era posto à cabeça, a fim de as mandiocas chegarem à casa de farinha. O trajeto era de um quilômetro ou menos, mas parecia infindável. Um peso enorme empurrava a cabeça para dentro do tórax, num desafio adoidado de quem não encontrava outra saída, a não ser a de apressar o passo, a fim de aliviar o peso, até a Casa de Farinha. Nela já estavam as mulheres – da casa e as da vizinhança – prontas para raspar mandioca, durante todo o dia. No vai e vem dos meninos, dos homens e das mulheres, a mandioca toda chegou e está sendo limpa, para se transformar em farinha.

No Rodete, Angelina de Pedro Corisco, nossa inesquecível “Nega”, empurrava a raiz com uma força descomunal, que quase fazia a bola parar. Na grande roda, movida a força humana, quase desumanamente, Veríssimo, Messias, Daniel e Josias se alternavam para darem conta de transformar a mandioca em massa. Era o serviço mais insano da farinhada. Com o tempo chegou o motor a gasolina, que fazia esse penoso trabalho de mover a bola do rodete para ralar a mandioca. Nas mãos de Angelina, até o motor sentia a força com que a mandioca topava a bola e dava aceleradas angustiantes.

Pai sentava-se para consertar os velhos paneiros de pindoba, com os quais mantinha presa a massa à prensa, a fim de lhe extrair a manipueira, o líquido venenoso da mandioca, a fim de a massa poder ser triturada e assada ao forno. Fazer paneiros era um ofício de artesão e nem todos sabiam.

Colocar a massa na prensa, com os paneiros, era outra obra de arte, que requeria muito tato e muita astúcia, para não encher demais, nem desperdiçar pindoba. Era um serviço pesado, reservado aos homens ou às mulheres mais fortes como Angelina. Apertar a prensa a ponto de a massa ficar sequinha era outro desfio aos músculos. A farinhada parecia um campo de guerra em que cada um com sua estratégia ia revelando habilidades e força para alcançar o produto final.

Depois de novamente ralada, para se tornar um pó, a massa era jogada ao forno, aos poucos, e o mexedor de farinha se encarregava de assá-la, cuidadosamente. Primeiro, vinha a fase em que se chamava murchar a farinha, eliminando toda a possibilidade de embolar e de queimar. A segunda fase era a de secar a farinha até o ponto de se fazer crocante, uniforme e de cor agradável.

Os meninos, à essa altura, já se encarregaram de tirar a tapioca, em bacias de zinco, em tachos de cobre, em caldeirões. Era preciso bom esforço para esfregar a massa molhada, torcer o pano, retorcê-lo, a fim de aproveitar ao máximo. Quanto mais tapioca, maior o número de dias comendo beijus com jabá ou com coco, uma iguaria assaz desejada.

Ao término de cada jornada, após a última fornada de farinha, Angelina subia à parede do forno, para assar os beijus. De quando em quando, faziam-se pés de moleque e a molecada ia ao delírio. Se a farinhada era pesada, os beijus e pés de moleque eram o melhor prêmio que ela reservava à criançada.

À essa hora, os garotos já haviam peneirado a farinha, retirando-lhe a crueira, as impurezas, e já haviam medido, armazenando-a em sacas de 60 kg, equivalentes a oito metades, bem fartas. Meu pai ainda colocava uma cuia a mais em cada saco, para garantir o peso, na hora de vender o produto, no mercado, nas madrugadas de sábado.

Quando se estava peneirando, a poeira branca invadia o ar e todos ficavam como albinos, com os cabelos brancos. O suor prendia o pó fino à pele e aquilo se repetia diariamente. O pó da farinha suspenso no ar era a nossa nevasca itabaianense, cujo espetáculo se repetia diariamente, sem que turistas viessem apreciar. De segunda a sexta-feira, a farinhada era o fardo diário, para ao cabo de um ano, poder se comprar um metro de chita ou de casimira. Foi assim a minha infância.

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