A COZINHA DE MINHA MÃE (Por Jerônimo Peixoto)

Jerônimo Nunes Peixoto, 27 de Fevereiro, 2020 - Atualizado em 27 de Fevereiro, 2020

A COZINHA DE MINHA MÃE

Bem ao fundo da casa, o último cômodo, escuro e esfumaçado, servia de apoio ao preparo diário dos alimentos. As paredes eram encardidas de fumaça, com ares que que, num passado remoto, fora caiada, ao menos com duas demãos, quiçá nos idos de cinquenta, quando se dera o enlace matrimonial. Dali para a frente apenas a névoa do vapor de fervuras e a fumaça se encarregaram de tingir as paredes sem prumo da casa de taipa.

No canto, um pilão de cepo de braúna, com dois orifícios, o primeiro para pilar café torrado e o outro, para fazer fubá de milho, de amendoim, de araruta ou de castanha. Estavam inversamente coloridos: um totalmente preto; o outro, sempre muito branquinho. Ao lado do velho pilão, subia a prateleira de guardar as panelas de barro, cada uma com seu natural destino: carne, feijão, macaxeira, batata ou inhame. A frigideira e a chaleira mais acima tinham uso diário. Arroz, só se chegasse visita. Nela se mantinham duas latas: açúcar e café.

No lado oposto ao fogão, ficavam a cantareira, para um pote grande, e o lavatório, que era constituído de um alguidar de barro, posteriormente substituído por uma bacia de alumínio. Da Cantareira, um canal fazia a água escorrer para o quintal, quando a louça era lavada.

O fogão, em alvenaria, possuía três bocas e um forno, para assar jabá e, nos tempos de festa, os manauês de milho e de macaxeira. Na mesinha do fogão, espaço para guardar as panelas saídas da chapa, ficava um prato com que se aparava a gordura dos espetos. Acima da prateleira das panelas duas varas surgiam para segurar as postas salgadas de toucinho, de carne moqueada ou de peixes salgados, quando aos domingos, a pescaria era promissora, e tripas, depois de passarem pelo sol para secarem o suficiente. Ao lado da Cantareira, a lata de gordura (banha de porco) para as frituras. Na parede, tornos, para soerguer os canecos de estanho esmaltados, e os furos apropriados aos tamanhos de muitas colheres de pau. Ao lado, saídas do frechal, duas tábuas de ralo, uma para coco e a outra para milho. Sobre o fogão, duas varas eram obrigadas, durante a noite, a suster as fardas de caqui que alguns filhos usavam para as aulas. Três urupembas eram o suficiente para peneirar o necessário. Era a mobília total da quase histórica cozinha, onde tudo ganhava sabor especial.

As louças e terrinas ou tigelas, além dos talheres, ficavam dentro da cristaleira que, por ironia do destino, jamais custodiou qualquer cristal. Isso era para os bons da gaita! A cristaleira, embora de nome suntuoso, satisfez-se em guardar artigos populares. As únicas louças finas que ela acolheu foi um conjunto de xícara em porcelana de doze peças com que Glorinha de Jeová presenteou a sobrinha, à época do casamento; uma dúzia de pratos, pintados à mão por Rosa Faria, presente da velha Vicência, avó materna de minha mãe. Afora isso, os objetos mais caros que ela guardou foram caixas de remédios que ocasionalmente encontravam guarida no velho armário de vidro e de madeira envernizada.

Na cozinha tudo se transformava em novidade. A criatividade, aguçada pela necessidade, fazia tudo se transformar e nada se perder. Esse foi, deveras, o maior segredo que iluminou e aqueceu a cozinha de minha mãe, embora ela se mantivesse visivelmente escura, dada a penumbra que a lenha de jurema ou de candeia, misturada com caatinga de porco, fazia emergir o dia inteiro. Minha mãe nada estudou sobre Lavoisier, mas testemunhava sua lei. Ela não deixava nada se perder, pois além dos inúmeros filhos, encarregava-se de matar a fome de muitas famílias pobres da região.

A Cozinha de minha genitora era feia de se ver, por não ter móveis notáveis, nem tecnologia da atualidade. Não tinha cores da moda, nem era assoberbada de víveres. Era um santuário da multiplicação diária de pães, toucinho e peixes, para alimentar uma multidão. Era sempre cheirosa, pois um pedacinho de jabá permanecia sobre um prato dentro do “forninho” à espreita de, logo mais, ser misturada à batata doce, ao inhame, à macaxeira ou ao beiju, quando não à farinha quentinha.

Não posso esquecer, nem menosprezar a cozinha de minha querida e saudosa mãe. Nela, a fome de dissipava e a esperança se reacendia, a cada instante. Naquele cantinho, a chama da fé e da partilha fraterna e solidária nunca se apagou, mesmo nas noites mais frias do inverno. Nela ficou um cheiro bom de minha mãe, que fazia a melhor comida, cujo tempero era apenas a abundância de um amor maternal que nunca se esvai. Lá aprendi as maiores lições que me alimentaram o corpo e o espírito.

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