O ACOMPANHAMENTO

Jerônimo Nunes Peixoto, 20 de Março, 2020 - Atualizado em 20 de Março, 2020

O ACOMPANHAMENTO

A fé cristã católica insistiu em manter a Liturgia em Latim, por vários Séculos, sendo a Bíblia e a Missa privilégios de alguns intelectuais e do clero. O povo sempre teve enorme dificuldade de compreender as rezas santas dos padres, embora achasse tudo aquilo um espetáculo sem igual. Assim, com a ajuda de missionários, apareceram outras formas de culto,  que se desenvolveram entre as camadas mais populares. As imagens e pinturas de santos e santas foram se encarregando de alimentar a devoção popular, como forma de manter acesa a chama da fé cristã, sobretudo nos sertões mais distantes.

Dentre as práticas de piedade trazidas pelo colonizador para as terras brasileiras, mormente nordestinas, encontra-se a devoção aos santos, que se expressa de inúmeros modos: novenas, ladainhas, oferecimentos, correntes de oração, ofertas nos cofres, procissões e acompanhamentos.

Nos arredores da Serrana Bela, encontraram solo fértil muitas dessas expressões populares, fazendo com que o aspecto religioso se mantivesse vívido pelo uso de manifestações populares, já que os padres eram escassos e as desobrigas aconteciam esporadicamente, de quando em quando. Onde havia padre, fazia-se a procissão, com banda de música e tudo o mais. Onde só as comunidades leigas, começou-se a realizar o acompanhamento, que é uma pequena procissão com uma novena itinerante, com louvações, cânticos e, invés de banda de música, os zabumbeiros, que exigem menor investimento.

O acompanhamento era previamente marcado. O início se dava numa família, e o encerramento em outa casa, a uma certa distância, para dar tempo de se rezar a novena, tocar a gaita (pífano) e a zabumba, soltar fogos, cantar a ladainha e o “Senhor-Deus”, com vivas e louvações. Não raro, na casa onde se encerrava, havia comidas, uma pinguinha, ou mesmo um leilão, para alegrar o resto do dia. Quando não, um brinquedo de roda, um samba de coco ou um arrasta pé, para motivar o próximo evento.

Na Casa de Lourenço, às três horas da tarde, começaram os movimentos da piedade. Nininha de Jarda, Meira de “Arbaninho”, Isaura de Zé de “Sarafina”, “Fulozina” de Zequinha Machado e Cila de “Teadoro” chegaram para dar início às rezas. No terreiro, próximo ao mastro fincado no chão, quatro homens, dois com as gaitas, um com a caixa e outro com a zabumba, estavam à espera do sinal, para dar início ao espetáculo da louvação.

Antes de sair o cortejo, uma salva de foguetes anunciava que o rito teve início. Uma pessoa tirava a “esmola” do santo, nada mais do que um pedido de partilha para o “agrado” aos zabumbeiros.

Ao longo do caminho, muita fé e devoção. O trajeto é de meia légua, mas passa num instante, pois todos, homens, mulheres e crianças, estão imersos na piedade e na devoção. Sempre aparecem alguns engraçadinhos que colocam espantalhos nas encruzilhadas, cabaças, sob a forma de “careta”, com vela acesa, para amedrontar às crianças mais ingênuas, ou atiram pedras nas palhas de bananeiras, para que o barulho interrompa a reza. No mais, tudo muito tranquilo.

Por volta das quatro e meia da tarde, chega-se à casa de Cila de “Teadoro”, onde se canta o “Senhor-Deus”, espocam-se foguetes e, novamente, entoa-se a ladainha, para por fim, com oferecimento. Rufino do Fole veio da Serrinha, para animar o povo, com os oito baixos. Vai ter adjunto até escurecer, porque é casa de moça velha, e não se pode passar das sete da noite, para ninguém sair falando...

Com mais um mês, o ato devocional se repetia, desta feita, retornando, do local aonde chegou, para a família de onde saíra. Lá, o forró, após as rezas, se estendia até a meia-noite, pois não caberia falação.  A piedade popular, misturada ao divertimento, deu sustança à fé católica e é, ainda hoje, a principal característica da gente simples que não troca o Acompanhamento por ritual algum.

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