FEIRA VAZIA (por Jerônimo Peixoto)

Jerônimo Nunes Peixoto, 26 de Março, 2020 - Atualizado em 26 de Março, 2020

IFEIRA VAZIA

Sempre foste motivo de nosso bairrismo, razão de nosso orgulho de ser ceboleiros, pois atrais pessoas dos quatro ventos da humanidade, à procura de cores, de odores e de sabores; também de amores, posto que encantas e fazes um bem imenso aos solitários e às solitárias que, diante de ti, apercebem-se de que estão enlevados por um novo amor.

Uniste tantos corações distantes e desconhecidos, como se teu maior favor aos humanos fosse o de propiciar encontros. Negociantes fornecedores encontram-se com os negociantes compradores, a fim de transacionarem infinitos negócios, ganha-pão de cada parte. Caminhoneiros chegam a ti, trazendo os mais belos produtos que a mãe terra sabe caprichosamente produzir, para em ti os exporem e os venderem, encontrando-se com tantos povos diversos de lugares mil.

Movimentas nosso jeito de ser, nosso sotaque, nosso afã de acordar cedo para produzir, para girar a economia, para alcançar dias melhores... está no âmago de nossas atenções e nos inspiras novos horizontes, novos oceanos a serem singrados. Quantos de nós, por ti, vão e vêm, num maluco frenesi de quem não encontra sossego e amparo, senão no café da manhã, nas bancas de doces, nos “restaurantes” a céu aberto que tu expões da terça para a quarta e da sexta para o sábado!

A doçura do picolé que o ambulante vende; as gasosas de outrora e os flaus; as cocadas pretas e brancas emolduradas pelas mudinhas cujos tacos de coco ainda de desmantelam por entre os dentes... a bolacha de goma, o milho assado, o beiju molhado, o queijo fresco, o trago de casca de pau... alegrias incontestes da gente que nasceu presenciando o esplendor que irradias para todos os cantos, para todos os ventos.

Mas, ao te ver esvaziada, como se te retiraste por caprichosos ciúmes de quem se esbalda nas lojas grã-finas, deu-me uma dolorosa sensação de que estava em outro planeta. Tentava te ver exuberante, intrépida, e, ao invés, vi-te com feições doentias, com um olhar lúgubre, ictérica e desejosa de me dizeres algo, sussurrando ao ouvido, pois não tinhas mais altivez, nem sangue, nem cor, nem sorriso, nem braços e mãos para me abraçares. Chorei copiosamente...

Não! Não é sonho! É uma tormenta, que passa como as horas, como os pombos que te aparecem ávidos por comer as migalhas que os feirantes deixam cair, e que se vão sem destino, sabedores de que amanhã retornarão...

É realidade acachapante! Estás vazia, sem toalhas, sem brilhantina, sem bramantes enfestados, sem casimira, nem pó, nem bacia, nem pinga, nem doces... cheguei a imaginar que não serias tu, a intrépida e esplendorosa de sempre!

Eras tu... Sem brio, silente, reflexiva, compadecida com os teus que debulham fava e vendem maturi, que sentam sobre tua pedra e passam o dia a pilheriar, sem alvoroços e com tempo de sobra... e os meninos carregadores, com suas carrocinhas de frete? E os ambulantes com as tranças de alhos, com as bandejas de noz-moscada? E a velhinha que traz cominho e pimenta moídos, em saquinhos carinhosamente vedados? Como ganharão o pão de cada dia?

Até quando te vais calar? Não te importas com a vida dessa gente? Terias perdido a sensatez? Tornaste-te insensível ao choro da criança faminta, filha de pai carroceiro? Põe-te de pé! Reanima-te e traz-nos de volta a alegria de podermos vociferar: a feira é nossa! A feira somos nós! Volta ao teu esplendor e cuida de a todos abrigar. Tu és a comida, o sangue, a alegria, a gargalhada, o desabafo, o sabor e o odor da gente serrana.

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