PANDEMIA, INDÍCIOS DE UMA NOVA HUMANIDADE

Jerônimo Nunes Peixoto, 24 de Abril, 2020 - Atualizado em 24 de Abril, 2020

PANDEMIA, INDÍCIOS DE UMA NOVA HUMANIDADE

Em tempos tão difíceis, em que o mundo está cabisbaixo, sem prever futuro promissor a curto prazo, e sem saber quando será o fim da pandemia do Covid-19, urge refletir sobre a nossa pobre condição humana na terra, no sentido de reparar nossos erros, abandonar certas posturas, para dar início a um novo modo de viver, sem agressões, sem tanta maldade e sem empáfias.

Para isso, talvez, seja necessária uma postura de busca de equilíbrio entre o ser e o ter; ente o ser e o fazer; entre o fazer e o distribuir. A economia de mercado impulsionou o mundo até aqui, ditando-lhe as regras de comportamento, por vezes, assaz agressivo. Tudo o que se aprendeu, tudo o que se construiu e tudo o que se fez foi com vistas aos interesses mercadológicos.

O mercado dominou sobremaneira o mundo que passou a dizer quem serve e quem não serve, quem pode e quem não pode, quem deve e quem não deve existir. Paulatinamente, foi excluindo, marginalizando povos e nações, para fazer imperar o lucro, concentrado nas mãos de poucos. Como consequência, surgem as vexatórias e alarmantes desigualdades sociais. O mundo passou a ser de poucos e muitos passaram a ser donos de nada. Grandes concentrações geraram bolsões de misérias em todos os Continentes.

A situação imposta pelo mercado chegou ao ponto de, nas fazendas produtivas, os cuidados com os animais serem bem maiores do que com o ser humano: há pré-natal, parto, pós-parto, registro de nascimento e acompanhamento médico-veterinário, a fim de que, num curto espaço de tempo, apareçam os lucros. Bem vizinho às fazendas existem favelas, povoados rurais, cidadezinhas e vilas em que sequer existe uma casa de parto! Não é para se retirar a técnica das fazendas. Mas é importante que ela chegue aos cidadãos e às cidadãs que estão à margem, imersos na sub-vida da periferia.

Aqui, não vai qualquer crítica aos criadores que abastecem o mercado, mas vai uma provocação sobre a condição humana na terra. A produção deve ser, cada vez mais, eficiente, a fim de erradicar a fome, e não apenas de gerar lucros; a pesquisa científica deve estar a serviço da vida, e não do mercado; a ciência deve se aperfeiçoar mais e mais para o engrandecimento da vida humana, no planeta, e não apenas para atender às manipulações impostas sobre determinados povos e raças, por conta dos interesses econômicos. A vida vale mais do que qualquer lucro ou vantagem.

O ser humano, racional, social, político, religioso, trabalhador, inteligente, criativo, inventor, pesquisador, deve-se colocar a serviço de si mesmo, e não se curvar ao fascinante progresso de uns privilegiados em detrimento da maioria. Não é uma segregação inteligente a que põe inimizades entre classes, entre nações e entre famílias, por causa das vantagens. O ser é superior ao ter; o ser é mais do que fazer e o repartir é o fim último (principal objetivo) do ter e do fazer, porque satisfaz o ser.

O mercado está apresentando sua fragilidade, neste instante tão crucial: não há fazedores, porque estão em isolamento; diminuiu o consumo, e o capital especulativo, por si só, nada produz. É preciso que os trabalhadores estejam em seus postos de trabalho, para que o capital continue gerando mais lucros. A economia de mercado está suscetível, assustada, porque sentiu que, para além de seu horizonte, existem luzes. Descobriu que não é o lucro o mantenedor da vida, mas é o ser humano, com seu trabalho, quem gera e sustém a vida na sociedade. A humanidade é chamada à solidariedade muito mais do que à vivência do lucro!

Se essa descoberta influenciar o mundo, a humanidade sairá desta crise muito melhor do que quando nela entrou. Será capaz de enxergar todos, de forma digna, sem invisibilidade social, sem muros e sem cercas que, invisivelmente, vão nos dividindo, pondo à margem, retirando muitos de circulação. Na crise, poderemos nos reinventar para os valores que nos fazem verdadeiramente humanos: o respeito, a solidariedade, o compromisso com o próximo, com a vida de todos, com o meio ambiente e com o planeta. A única vantagem a ser perseguida deverá ser o bem de todos, sem exceção. Será o início de uma nova humanidade?

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