DA CORRIDA PELA SAÚDE À DISPUTA PELO TÚMULO

Jerônimo Nunes Peixoto, 29 de Abril, 2020

DA CORRIDA PELA SAÚDE À DISPUTA PELO TÚMULO

Desde o registro do primeiro caso da Covid-19, em são Paulo, fim de janeiro de 2020, o Brasil passou a admitir que o mal batia à porta e, para entrar, não necessitava de licença alguma. Faltou fechar a porta, única forma de o impedir, aplacando a rápida propagação do vírus. A ideia de isolamento físico, o real fechamento das portas ao vírus, não foi assumida unanimemente pelas autoridades competentes. Muitos desdenharam a situação. Investir no Carnaval é mais vantajoso para a economia!

Embora os esforços de muitos tivessem contribuído para amenizar as situações, faltou atitude de quem poderia, com maior responsabilidade, agir para minorar as investidas do vírus. As determinações em estados e municípios sobre o isolamento físico começaram a enfraquecer a economia. Enquanto se contabilizavam prejuízos, as famílias começaram a perder pessoas. A corrida para os postos de saúde, a hospitais equipados com respiradores mecânicos, paulatinamente, foi crescendo.

Em poucos dias, passou-se a fazer triagem, nos hospitais, com a terrível decisão de comparar uma vida de idoso ou de paciente crônico à vida de jovem saudável, apenas contaminado pelo Covid-19. Faltaram vagas em UTI, faltaram respiradores, faltaram leitos hospitalares, faltaram profissionais, faltaram ambulâncias e até faltou atitude solidária, não obstante o valoroso trabalho dos muitos destemidos e heróis profissionais socorristas, de segurança e, sobretudo da saúde. Faltou gente em casa, que antes ocupava lugar cativo à mesa, no quarto, na sala... faltou o sorriso, que dificilmente voltará ao rosto de tantas mães e de tantos irmãos. Faltou – e ainda está faltando – respeito ao povo.

O desespero por vagas em hospitais, por socorro aos submetidos a situações graves passou a ser verdadeiro tormento familiar. Diuturnamente, houve cenas de mães que sequer podiam encontrar seus filhos a caminho do Calvário. A sensação de impotência frente ao sofrimento é insana! Não é fácil assistir à morte de um ente querido que, se tivesse dinheiro ou a devida assistência do estado, poderia sobreviver e retornar ao seio da família! Pior: o fato de não se poder sepultar os entes queridos é terrivelmente avassalador e destrói a alma de quem fica.

Não é de agora que o Brasil vem-se descuidando da saúde pública. Há muitas décadas, desvios de interesses, que favoreceram à iniciativa privada, como os planos de saúde, e de recursos, que favoreceram outras iniciativas particulares, fizeram do SUS, que é um referencial de assistência em termos de saúde pública, um sistema falido, desprotegido, sem qualquer atenção dos governos que foram se sucedendo, um a um. Hoje, a situação – revelada pela pandemia – é assustadora, verdadeiro cenário de guerra.

A população, que passou a disputar vagas de UTI, fez concessões dramáticas ao capital desviado e desinteressado, e agora tenta, a duras penas, disputar uma vaga nos cemitérios, para depositar seus mortos, vítimas da Covid-19. Ao faltar atendimento de saúde, faltou espaço para sepultamento digno. Em Manaus, até empilhamento de corpos, em valas, foi recomendado pela Prefeitura, que desistiu da ação, frente às fortes reclamações populares.

Em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, que retratou a tristeza do sertanejo, sem ter onde morar ou onde trabalhar, encontra-se o triste consolo do pobre que, ao morrer, recebe seu pedaço de chão, nem grande, nem pequeno, na medida certa: “é a parte que te cabe deste latifúndio”. Constatação verídica e infeliz! A obra é década de 50. De lá para cá, apesar de avanços tecnológicos, a situação dos pobres só piorou. Chegou-se ao ponto de não mais haver a parte que cabia a cada brasileiro, neste imenso latifúndio que é o Brasil! Não há covas! Pobres, a vala comum é parte que lhes cabe, neste imenso país! Não há a quem recorrer.

Se hoje, o noticiário mostrasse a morte de cinco mil cabeças de gado, os economistas e integrantes da equipe governamental ficariam preocupados com os números, com as exportações... chamariam os ministérios para uma reunião, afim de não se mexer tanto na bolsa de valores, no PIB. Os criadores seriam subsidiados, além de se colocar à disposição tecnologias avançadas, na tentativa de conter as mortes, pois o rebanho sadio é sinônimo de economia gorda. Ao invés, estão mostrando cinco mil pessoas mortas, e pobres, em sua maioria... para que tanta preocupação?

E daí? Quer que eu faça o quê”? A esta indagação, permeada de indiferentismo, deboche e cinismo, cabe aos brasileiros responder ou continuarem à mercê, à procura de túmulos, de valas ou de tabuleiros, onde os abutres – como no passado em tempos de guerra – possam dar cabo. Enquanto não se sabe fazer milagres, o povo brasileiro necessita de atitudes, pois já fez concessões demais, até a ponto de permitir que a vida valha muito pouco ou quase nada, apenas uma vala!

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