A PANDEMIA E UMA NOVA MÍSTICA

Jerônimo Nunes Peixoto, 14 de Maio, 2020 - Atualizado em 14 de Maio, 2020

A PANDEMIA E UMA NOVA MÍSTICA

As epidemias quase sempre são frutos das más intervenções humanas na natureza. A ordem divina de que o ser humano deveria crescer, encher e submeter a terra, dominar os peixes do mar, as aves do céu e os animais da terra (Gn 1,28) foi compreendida pela humanidade como uma outorga da qual pudesse redundar uma exploração desmedida e insana, de sorte que os resultados estão sendo catastróficos para todo o orbe. Segundo a mensagem bíblica, Deus pretendeu que o ser humano se tornasse guardião da terra, vigilante sobre ela, de modo que houvesse uma comunhão profunda entre terra – aqui compreendida como toda a natureza criada – e o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 27). Eis a ideia de Deus!

Desde que o mundo é mundo, o ser humano assumiu uma postura de explorador da terra, das riquezas que a mãe natureza lhe oferece. Levaram-se muitos anos, para que se pudessem perceber as consequências da ação devastadora do ser humano sobre a terra. Enchentes, estiagens, aquecimento global, degelo, desertificação, tsunamis, só para dizer algumas.

Com o advento do capitalismo, quando tudo começa a tomar feições de mercadoria, os efeitos das intervenções na natureza se aceleram e os cuidados com ela diminuem, em nome dos negócios lucrativos. Com o mercado em ascensão, o ser humano transforma a terra e os frutos dela, os animais, a água, o ar em mercadoria. Com isso, impõem-se limites ao acesso de todos aos bens da criação. Desenvolvem-se técnicas agrícolas, de extração de minérios, exploração do ar, do espaço, do subsolo, da fauna e da flora, que também se transformam em artigo de luxo, a altos preços. Ao invés de ser uma aliada, a natureza se tornou um objeto de exploração apto a alargar as esferas do mundo do lucro.

Chegando a uma fase de estagnação, de colapso, a natureza começa a dar o troco, não em forma de vingança, mas por reclamar melhores tratos. Ela está simplesmente avisando: é hora de mudar de rumo. Não dá mais para se continuar dessa maneira. Rios e lagos, mares e oceanos, fontes e nascentes estão todos poluídos. O meio ambiente está doente, por conta das más investidas do ser humano. Rios cristalinos se transformaram em canais fétidos e inóspitos aos seres vivos que tinham nele seu habitat... o que fazer, então?

Em primeiro, uma reflexão sobre nossa condição na terra. Que lugar é o nosso, onde nos situamos e onde deveríamos estar? Mudar o sentido, o rumo das coisas. É preciso garantir a sobrevivência do ser humano e de toda a natureza. É preciso nos tornarmos cocriadores, isto é, colaboradores de Deus no trato com a criação, com a natureza. É preciso ter a mística do Santo de Assis para aprender a reinventar nossa relação com o meio ambiente.

Mística significa viver o Mistério Trinitário, portanto em comunhão profunda, na relação com a natureza. Francisco de Assis dizia: "Minha irmã terra"! Compreender que, numa relação de estrita comunhão e respeito, em que a natureza deve ser vista como pessoa, e não como objeto, pode-se obter de volta o equilíbrio desejado por Deus. Assim, passaremos a nos relacionar com um sujeito de direitos e de deveres, e não apenas com alguma coisa. Aqui está o diferencial: o trato com a natureza deve ser o mesmo que dirigimos a um parente próximo, a alguém a quem somos chamados espontaneamente a amar, respeitar e desejar o melhor.

Por isso, o Papa Francisco nos pede para rezarmos em tempos de pandemia. Não significa que, pela oração vamos simplesmente abrandar a ira divina, mas – com maior força – vamos educando-nos, domando nossos impulsos, para nos tornarmos melhores e mais respeitosos no trato com o meio ambiente. O equilíbrio natural tende a restabelecer seu lugar, minimizando os impactos da ação humana. 

A oração não é um caminho para driblar a vingança divina. Esta nunca existiu! Deus é bom! A oração e para o nosso próprio crescimento e amadurecimento, um modo excelente de nos tornarmos mais semelhantes a Deus!

Ainda, pela oração, ou por uma mística profunda – que é o exercício humano para mergulhar no Mistério divino – obteremos maior capacidade de nos suportar a nós mesmos, frente a tantos sofrimentos dispersos no mundo inteiro. Em tempos de pandemia, a mística do trato com o meio ambiente, inspirada por uma intensa oração, fará muito bem a todos. Rezemos para o nosso consolo e para a nossa inspiração por dias melhores, frutos de nossa conversão ecológica.

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