DR. PEDRO GARCIA MORENO, PELO QUE OUVI DIZER

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Nunes Peixoto, 22 de Julho, 2020 - Atualizado em 22 de Julho, 2020

DR. PEDRO GARCIA MORENO, PELO QUE OUVI DIZER

Desde a mais tenra idade, ouvia com muita frequência as pessoas, lá no Cajueiro, pronunciarem o nome do médico da cidade, como se fosse uma ladainha: “Doutor Pedro, me receitou-me; Dr. Pedro me deu amostra de grátis; Dr. Pedro me dixe pra mode fazê Ixame de chapa; Dr. Pedro disse que meu causo é de operação, no Serigy; só se vendê a cabra e as burregas..." na minha casa, era comum ouvir isso, pois minha mãe sempre atuou, na região inteira, como assistente social que trazia os doentes para o Dr. Pedro, para o SESP, para as farmácias de Binta, de Oliveirinha ou de Tenysson. Nos casos mais específico, diretamente para Aracaju, para internação e/ou cirurgias.

A minha avó materna vinha, frequentemente, consultar o Dr. Pedro, pois sofria de doença do ar (Epilepsia), e ele lhe passava umas “pilas especiais”, que era tiro e queda! Ficava “sã pissica”! Eu era muito menino, na roça, com boa saúde, e nunca tive o privilégio de visitar o consultório do médico que, muito mais do que seu comprovado saber medicinal, tinha uma força incomensurável que influenciava a brava gente agresteira, pois ele era um “doutor dos nossos”, que falava a língua do povo brejeiro, sem pestanejar: “tá mijando certinho? Cagando normal? E tem dorna barriga? Arreie as calças aí e fique que nem nasceu. Aguenta trabalhar, sem tremer as pernas? Vai ver outra lua, não se incomode”!

Quando vinha à feira com minha mãe ou com meu pai, por vezes, passávamos em frente à Casa/consultório do bonachão e havia um amontoado de gente. Eu era muito pequeno e perguntei a meu pai: é enterro, é? Ao que ele respondeu: - ainda não. Mas se brincar, muitos aí nem escapam! Se Dr. Pedro não der jeito, Nego Veio vai ter trabaio por desgraça, nesses dias! Eu só via quantidade de gente assim, na feira, nos leilões de gente mais ou menos, na procissão de Santo Antônio ou os enterros que rumavam ao Cemitério do Rumo.

Com a instalação do embrião do Nunes Peixoto, na esquina da Ivo de Carvalho, com Quintino Lacerda, eu vinha trazer um bilhete, a mando de minha mãe, para Josias ir falar com Dr. Pedro a fim dar nova receita para as “pilas” de minha avó. Eu o via, algumas vezes, de longe, mas nunca tive a satisfação de cumprimentá-lo pessoalmente. Ele falava bem alto e, quando sorria, abalava os telhados da região. Certa feita, o galo da torre da Matriz se assustou e levantou voo, quando ele esboçou um sorriso! Só voltou depois de dois invernos! Quando Josias falava com ele, ele de imediato gritava: Tabaréu amarelo! De novo aqui?

Era uma pessoa médica, e não apenas um Médico, formal, durão, frio, insensível, como alguns. Sua humanidade se antecipava e, antes de as pessoas se sentirem num consultório, eram acolhidas por um anjo bom, em forma de gente. A palavra humanismo, ou humanidade, encontrou ninho nas atitudes de um homem que soube exercer, com garboso zelo, sua profissão sem qualquer pompa. Era acessível, desprovido de qualquer vaidade que o afastasse das pessoas, humano, na mais estrita acepção do termo. Dr. Pedro é lembrado por quem conviveu, por quem foi seu paciente e por todas as gerações que se sucederam, pois ele deixou um rastro de luz muito grande. Sua fama de generosidade, de caridade, de disponibilidade ilumina a vida desta cidade que teve a feliz ventura de o acolher e de o tornar filho.

As ações de Dr. Pedro, enquanto profissional de saúde, se tornaram patrimônio imaterial dos ceboleiros, não por decreto oficial, mas pela ternura com que as pessoas, ainda hoje, demonstram, quando ouvem seu nome. São lições de vida, de simplicidade, de caridade fraterna, que fazem a diferença. Mais do que nome de praça, de casas de saúde, Dr. Pedro tem o nome impresso nas veias do povo desta Serrana Bela. Povo a quem ele se doou intensamente, a ponto de se esvair servindo, cuidando, sendo presença edificante.

Fico a imaginar se, nestes tempos difíceis de pandemia, se ele estivesse atuando entre nós, como seria... não dormiria, sem se alimentaria, enquanto não houvesse se doado a todos, independentemente de partido, de religião, de condição social, pois era um autêntico servidor do povo, sob a forma e a função de médico. Quantas lições, quantas maravilhas espalhadas no ar, como um vírus bom que deve contagiar todos os itabaianenses! Onde houver alguém espalhando o bem, o espírito de Dr. Pedro se faz presente.

Ao ensejo de seu centenário, fica um convite especial: vamos tentar ser mais humanos, mais prestativos, mais generosos, para, assim agindo, imitá-lo, nem que seja em proporção mínima, o que já seria de grande valia para o bem de todos nós. Quanto mais humanos, mais divinos nos tornamos. Essa é a imagem que recebi, pelo que ouvi dizer, deste grande sacerdote da medicina, Dr. PEDRO GARCIA MORENO.

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