QUE PENA E SAUDADE

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Nunes Peixoto, 08 de Agosto, 2020 - Atualizado em 08 de Agosto, 2020

QUE PENA E SAUDADE

 

Quintino não tinha ciência do que estava acontecendo no mundo. Vivia no seu comércio, recebendo fornecedores e clientes, comprando e vendendo, dando boas gargalhadas com alguns mais achegados, com quem, vez por outra, partilhava um dedo da branquinha. “Deu no rádio que tem uma doença nova, na outra banda do mundo, você escutou”? Perguntou-lhe um meio tonto, não pela pinga, mas pela falta de assuntar as ideias desde novinho. Rufino, quando ainda no ventre materno, teve a infelicidade de tomar uma pancada feia, quando sua santa mãezinha desequilibrou-se no lombo de amarelinha, uma égua boa de passada, e se estabacou no chão duro. A cabecinha do meio tonto deve ter dado de cara com o lugar mais firme.

“Que nada! Isto é invenção de quem não tem o que fazer, de quem está de miolo mole. Inventam doença pra mode venderem remédio. Eu é que vou me dar bem, pois ainda não tem botica para essas bandas. Quem vende pila pra dor de cabeça, espinhela caída, picada de cobra, mau olhado e diarreia sou eu mesmo. Tomara que ela venha com força, para eu dobrar minhas vendas. Tá! Vou comprar uma casinha nova, na cidade, se for do querer de Jesus! Doença ruim é exigente, faz o povo comprar muito remédio. Só não dá mais porque Zefa do anzol faz garrafada. Mas, se for das brabas mesmo, ela não acerta e quem se dá bem sou euzinho aqui”.

A freguesia começou a abilolar o juízo do quitandeiro, que só escutava o povo falando sobre doença. Estava já se sentindo doente de tanto falarem. Não seria melhor desligar o rádio, esquecer este diabo de doença, cantando cantiga de roda, samba de coco, maxixe, arrasta pé, mazurca, bolero ou outra coisa qualquer? Já não dá mais para suportar esse “chove e não molha”. Se for para vir, que venha! Caso contrário, que se exploda nos infernos a dentro, pois aqui, no Povoado, todo mundo está com saúde, “são psico”. Mas essa falação não dá em nada; só faz raiva e espalha medo nos bestas, pois!

Os dois filhos de Quintino viviam na capital; eram bem-sucedidos, donos de negócios de fazenda, vendiam terno de brim, linho e até do estrangeiro. Cada qual tinha sua casa de negócio, em bairros afastados, para não concorrerem. Foi ideia do pai. De quinze em quinze, mandavam notícias, pelo motorista das entregas. Eram atenciosos com o pai, a alegria do velho viúvo, que se devotou aos filhos e aos negócios e nunca mais caçou cordão de saia. Alguns até falavam que Maricota, que lavava os trapos do quitandeiro já andou se bandeando por lá, mas pode ser invenção. Durvalina, costureira solteira da falecida Zizi, mostrou-se interessada, mas ele nem está aí. Será eu deu para procopão (solteirão não dado ao casamento), depois de velho? Mas sempre foi namorador, quando era rapazote. O que sucedeu a ele?

Na quinzena das entregas, o recado dos filhos não veio... trocaram o motorista, um novato desconhecido dos meninos... só pode ter sido. Com mais uns dias, e eles riscam por aqui ou mandam uma nova. Às vezes, essas firmas de armazém mudam de chofer com certa frequência. É normal. Na outra semana, foi o caminhão que não veio. Deve ter quebrado na estrada. Se demorar, Quintino tem de ir à cidade, cuidar de abastecer seu negócio, que já está minguado.

Três dias depois da data em que deveriam chegar os produtos da capital, sem caminhão e sem notícias, Quintino pega a carroça e se bota para a cidade, na tranquilidade de sempre. As ruas estão meio sem graça, sem aquele frenesi de sempre. Será que morreu alguma autoridade? Ou decretaram feriado à toa? No primeiro armazém, uns rapazes, com um pano na cara, não o deixam entrar. Só pela grade de fora, ele compra o necessário para abastecer o comércio. “Meu filho, cadê Abílio, que não está aqui hoje”? O garoto lhe responde: “Tá adoentado, na capital. É dessa bicha nova, que tá pegando muita gente por aqui”. Quintino deseja saúde ao velho fornecedor e retorna ao povoado onde tem seu comércio. A carroça está entupida de mercadorias. Ele já fez as contas de quanto vai ter de subir no preço, porque comprar na cidade sai mais caro do que na capital.

À saída da cidade, lembra-se de passar na agência, para ver se tem cartas ou duplicatas. Ninguém se bandeou para lá, nesses dias. Havia um envelope, sem remetente, mas o nome do destinatário era o dele mesmo: Quintino Ayres de Brito. Deixou para ler em casa. Poderia ser oferta de alguns bancos, pois esse povo logo dá conta de quem tem uma melhora econômica, e quer guardar o dinheiro. Chegado, que fora, pediu que tirassem tudo da carroça. Entrou, almoçou, fez sesta, na cadeira de balanço, como sempre fez, e se dirigiu ao balcão, onde assentaria os novos preços, para não perder o lucro costumeiro. O tempo passou. Só no dia seguinte, lembrou-se de abrir o envelope, sem remetente. Sentou-se e começou a soletrar o escrito. Letra boa, mas a vista não ajudava. Óculos são caros, uma fortuna. Para que gastar tanto, se ele não vivia de leituras?

Não deu conta de ler tudo... caiu em soluços, deu para tremer e se esverdeou por completo. A língua deu um nó e nada que balbuciava era compreensível. Deu a carta para o irmão de Rufino ler, que era rapaz de boa cabeça. Notícia triste: os dois filhos de Quintino faleceram, da peste, foram enterrados por lá e não houve como a notícia chegar a tempo. Uma pretendente do mais novo lhe mandou as linhas. Mas, aconselhou-lhe a não viajar naqueles dias, pois a doença estava matando todos.

Ao refazer-se do susto, pegou o retrato dos meninos na parede, onde fica o oratório, e o beijou, demoradamente. Ajoelhou-se e disse a reza da Salve Rainha, encerrando com as palavras: “que pena e saudade, minha santa Mãe de Deus! Como vai ser de agora em diante?

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