A redenção pelos livros (por Carlos Pinna Junior)

por Carlos Pinna Junior

Carlos Pinna, 14 de Setembro, 2020

Cerca de 6% do PIB brasileiro é destinado à Educação – índice maior que a média dos países desenvolvidos – e a maior parte desse percentual é assegurada ao ensino superior, o que muitos alegam ser uma distorção do sistema em prejuízo do ensino básico. Apesar desse aparente privilégio financeiro, as universidades brasileiras permanecem com as deficiências históricas, comprometendo sucessivas gerações.

Enquanto isso, o mundo avança. Recentemente, o respeitado Times Higher Education (THE), ranking internacional de universidades, divulgou a lista das melhores instituições de ensino superior do mundo. Das 200 principais, nenhuma brasileira. A Universidade de São Paulo (USP) é a mais bem colocada, inserida na faixa entre as 201 e 250 melhores. Muito pouco para um país que pretende alcançar o grau de desenvolvimento pleno e que deveria, portanto, reconhecer na educação o instrumento principal para esse objetivo.

No topo do prestigiado ranking mundial, nenhuma novidade: as renomadas Oxford, Stanford e Harvard. Como destaque da lista, o progresso educacional da China, firmando pela primeira vez uma universidade entre as 20 melhores do mundo: a Universidade de Tsinghua, reconhecida sobretudo pela formação de novos líderes. Bem próxima, na 23ª posição do ranking mundial, surge a Universidade de Pequim, instituição também fundamental no processo de modernização chinesa. E para confirmar a pujança educacional asiática, a Índia desponta com um número recorde de universidades no ranking: 63.

Devemos seguir os bons exemplos, sejam eles britânicos, americanos, chineses ou de qualquer outra nacionalidade. Sem perdermos de vista a nossa identidade e as nossas peculiaridades internas, miremos no que há de comum entre estes modelos exitosos mundo afora: a manutenção e valorização de políticas educacionais de Estado, que devem ser permanentes e prioritárias; além disso, a eficiência na gestão dos recursos financeiros disponibilizados, ou seja, gastar melhor; e, fundamentalmente, a valorização do corpo docente: nos países desenvolvidos, as verdadeiras autoridades são os professores.

O fato é que a educação requer espírito de estadista daqueles de quem ela depende. E para além das questões orçamentárias, financeiras, ideológicas e estruturais, necessário colocarmos em pauta o enfoque conceitual: qual a real educação que queremos? Que tipo de profissionais precisamos formar? Como superar a deficiência estrutural e a desvalorização do corpo docente das universidades públicas? Como evitar a mercantilização do ensino superior privado?

Uma premissa parece ser essencial: é preciso estimular, desde o ensino de base, que a escolha da profissão seja definida pela vocação do aluno e não por aspectos meramente utilitaristas como remuneração, status ou comodidade pessoal. Sobre esta circunstância, a inspiradora observação do consagrado escritor e educador Rubem Alves: “Entregar-se a uma profissão é igual a entrar para uma ordem religiosa. Os religiosos, por amor a Deus, fazem votos de castidade, pobreza e obediência. Pois no momento em que você escrever a palavra fatídica no espaço em branco, você estará fazendo também os seus votos de dedicação total à sua ordem. Cada profissão é uma ordem religiosa, com seus papas, bispos, catecismos, pecados e inquisições.”

Tome-se como exemplo os cursos jurídicos: algumas faculdades de Direito tendem a automatizar o ensino, sem qualquer propensão metodológica a demonstrar as vantagens e desvantagens de cada uma das inúmeras carreiras jurídicas à disposição do aluno a fim de que ele possa compatibilizá-las ao seu perfil. Desta forma, banaliza-se o ato de escolha da futura atividade, momento essencial para o estudante e, por conseguinte, para a própria sociedade, destinatária do serviço a ser desempenhado.

Nesse contexto, entre tantos erros e acertos do sistema educacional brasileiro, louvemos a nossa Universidade Federal de Sergipe (UFS), que pontifica pela primeira vez no ranking como a sétima melhor instituição de ensino superior do Brasil. Conquistas como essa são injeção de ânimo na luta pela evolução educacional em nosso estado e em nosso país, projetando centelhas de um horizonte benfazejo para as gerações futuras.

Não há alternativas: a redenção do Brasil se dará pelos livros. A educação é luz que afasta a cegueira; é veículo que conduz a destinos antes inalcançáveis. A educação proporciona a chance de saciar mentes humanas com um alimento permanente: o conhecimento, que transforma e liberta, e que, portanto, a todos deve ser fidedignamente oportunizado.

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