O mundo celebra os 500 anos da Reforma Protestante

Marcio Monteiro, 28 de Dezembro, 2017

O mundo celebra os 500 anos da Reforma Protestante

No século XVI, o Papa Leão X, nascido Giovanni di Lorenzo de Medici, filho de um governante da República da Florença, e último não-sacerdote a ser eleito Papa, buscando arrecadar recursos para terminar as obras de construção do Catedral de Pedro, em Roma, permitiu que o frei João Tetzel viajasse pela Alemanha vendendo indulgência para o perdão dos pecadores. Martinho Lutero ficou tão indignado com tal pregação que imediatamente passou a denunciar como falso o ensinamento de Tetzel.

Em resposta a divergências teológicas e preocupações sobre má conduta de alguns funcionários da igreja, o monge agostiniano  Martinho Lutero, no dia 31 de outubro de 1517, afixou no portal de entrada da capela de Wittenberg, as noventa e cinco teses em que condenava doutrinas ensinadas pela Igreja Católica, dentre as quais destacavam-se:

Tese 27 – “Pregam doutrinas humanas os que dizem que assim que o dinheiro entra no cofre, a alma sai voando do purgatório”

Tese 56 – “Os verdadeiros tesouros da Igreja, de onde o Papa distribui indulgências, não são suficientemente discutidos ou conhecidos pelo povo de Cristo”.

Escreveu ainda mais duramente contra a Igreja de Roma quando se viu obrigado a passar um ano escondido, e ao retornar à cidadezinha de Wittenberg, rejeitou a idéia de que era preciso jurar castidade para se dedicar a Deus, casando-se com uma freira que havia deixado o convento. Depois disso, passou a atacar dogmas e sacramentos da Igreja Católica. Para o reformador alemão, nem a confissão ou o arrependimento sincero seriam capazes de salvar almas no Juízo Final.

Posteriomente, o Papa Leão X encarregou Karl von Miltitz, jovem nobre saxão com ordens menores em Roma, de ir à Alemanha para resolver a situação. Após ter uma conversa frutuosa com Lutero, tendo este até aberto concessões, dirigiu-se a Leipzig, convocou Tetzel, censurou-o por seus excessos, acusou-o de falsificação e apropriação indébita, despedindo-o. Tetzel retirou-se para seu mosteiro, falecendo logo depois.

Verdadeiramente o Papa Leão X não conseguiu compreender totalmente a importância do movimento, tanto que em fevereiro de 1518 dirigiu-se ao vigário-geral dos Agostinianos pedindo providências para que controlasse os seus monges.

Em 30 de Maio de 1518, Lutero enviou uma explicação de suas teses ao papa, sendo em 7 de agosto, intimado a comparecer em Roma. Um acordo, no entanto, foi celebrado e segundo o qual a petição foi cancelada. Lutero foi em seguida para Augsburgo em outubro do mesmo ano, para explicar-se ao legado papal, Cardeal Caetano, mas nem os argumentos do cardeal, nem a bula papal de 9 de Novembro, fez Lutero retrair-se. Seguiu-se um ano de negociações infrutíferas durante os quais a controvérsia espalhou-se por todos os Estados alemães.

A essa altura dos acontecimentos não havia nada que impedisse o início da chamada Reforma Protestante, não por tratar-se de um movimento apenas de cunho religioso, mas sobretudo pelos seus aspectos de caráter social e político, afetando diversos países, mudando a configuração do mundo ocidental.

Cresciam manifestações intelectuais de críticas ao comportamento da Igreja. Nomes como Erasmo de Roterdã ou Thomas Morus propunham uma reforma interna da Igreja, com um retorno à pureza original do cristianismo. Por trás dessas propostas havia, por certo, uma crítica ao excessivo apego da Igreja aos bens materiais e ao poder.

Lutero foi apoiado por vários religiosos e governantes europeus provocando uma revolução religiosa, iniciada na Alemanha, e estendendo-se pela Suíça, França, Países Baixos, Reino Unido, Escandinávia e algumas partes do Leste europeu, principalmente os Países Bálticos e a Hungria. A resposta da Igreja Católica Romana foi o movimento conhecido como Contra-Reforma ou Reforma Católica, iniciada no Concílio de Trento.

A Reforma Protestante trouxe inúmeras contribuições:

A liberdade de expressão
         Na Idade Média a Igreja Católica controlava não só o mundo religioso, mas também as ciências, as humanidades da educação, a política, tudo estava sob o governo da Igreja Católica. A Reforma Protestante trouxe a separação entre Igreja e Estado, logo os protestantes encontraram liberdade para pensar da maneira que eles achavam que deveriam pensar. Então, liberdade de expressão foi sem dúvida uma conquista da Reforma.
 
A prevalência da verdade científica
         Quando teve a controvérsia sobre Galileu e Copérnico na questão sobre se a Terra girava em torno do Sol, ou se o Sol girava em torno da Terra, a Igreja Católica foi contra a descoberta de ambos, de que o sistema dos planetas é heliocêntrico (a terra gira em torno do Sol).  A Igreja Católica , ao contrario, dizia que a Terra era o centro do universo.
       João Calvino ficou do lado de Galileu e de Copérnico, optando pelo lado científico e não religioso da questão, e contribuindo para a libertação das descobertas científicas dos dogmas da religião da época. Boyle, Lineu, Newton, dentre outros, fazem parte do numeroso e renomado grupo de cientistas protestantes que mudaram o rumo da ciência moderna.
 
A educação moderna
        A Reforma Protestante trouxe a ciência e a educação moderna e a de então surgiram grandes universidades fundadas por protestantes, como: Harvard, Oxford, Yale e Princeton. Princeton, por presbiterianos; Oxford e Yale, por congregassionais reformados.
 
        Calvino abriu em Genebra a primeira escola primária da Europa, o Convento de Santa Clara, na mesma cidade, foi transformado no primeiro hospital público da região.  Na Idade Média, a igreja era a única responsável pela organização e manutenção da educação escolar. A partir do século 16, surgiram as nações-estados, que se opuseram ao poderio universal do papa e formou-se a classe média.
          “A ignorância era um grande mal e a prosperidade da cidade estava diretamente ligada à educação. Ele diz [...] o progresso de uma cidade não depende apenas do acúmulo de grandes tesouros, da construção de muros de fortificação, de casas bonitas, de muitos canhões e da fabricação de muitas armaduras [...] o melhor e mais rico progresso para uma cidade é quando possuem muitos homens e muitas mulheres bem instruídos, muitos cidadãos ajuizados, homens bem instruídos, honestos e bem educados”.
 
         Martinho Lutero também estimula a criação de escolas para toda a população. Houve forte ênfase ao ensino para suprir as demandas da recém chegada sociedade moderna, com dimensões geográficas, políticas, econômicas, intelectuais e religiosas em transformação.
A contribuição da Reforma no contexto educacional é tamanha que, de acordo com o educador espanhol Lorenzo Luzuriaga, a educação pública teve origem nesta época. O movimento já estimulava a educação pública, universal e gratuita, para quem não pode custeá-la. “A educação pública, isto é, a educação criada, organizada e mantida pelas autoridades oficiais – municípios, províncias, estados – começa com o movimento da Reforma religiosa”, afirma Luzuriaga.
Em “Aos conselhos de todas as cidades da Alemanha, para que criem e mantenham escolas cristãs”, publicado em 1524, Martinho Lutero desafia a sociedade a promover uma educação integral.
         O monge Lutero sonhava em ver um dia todos os cidadãos bem preparados, para todas as tarefas na sociedade. Propôs uma escola cristã que visasse uma educação voltada para o dia-a-dia da vida, rompendo o ensino repressivo, introduzindo o lúdico na aprendizagem. Amarrou o estudo das disciplinas a um aprendizado prático.
       “Pela graça de Deus, está tudo preparado para que as crianças possam estudar línguas, outras disciplinas e história, com prazer e brincando. As escolas já não são mais o inferno e o purgatório de nosso tempo, quando éramos torturados com declinações e conjugações. Não aprendemos simplesmente nada por causa de tantas palmadas, medo, pavor e sofrimento, escreveu Martinho Lutero.
A aprendizagem construiria cidadãos capacitados, honestos e responsáveis. Era exatamente esta a necessidade do novo modelo de sociedade que surgia na época. A rápida divulgação de ideias e concepções por meio da imprensa descoberta por Gutemberg, também contribuiu para que as iniciativas de estímulo educacional crescessem.
Separação entre Igreja e Estado
         Em um contexto em que a educação era organizada e mantida somente pela igreja cristã, Lutero propõe alterações tanto no que se refere à organização de um sistema educacional, quanto aos princípios e fundamentos da educação, defendendo que esta seja para todos. Afirma ainda o reformador que o único meio mais eficaz de realizar a reforma do processo educativo é através da obrigatoriedade do ensino. Em seu discurso, ele afirma que só se atingirá uma sociedade bem instruída socialmente quando as autoridades obrigassem os pais a colocarem os seus filhos na escola.
         A proposta que Lutero defendia era para um sistema organizacional e o combate à desigualdade social, no qual todos tinham o direito de frequentar a escola pública. Insistia em chamar a atenção para a necessidade de criar escolas, ou seja, ele dá início a um sistema de escolas públicas na Alemanha, as quais se destacam na época, e também influenciam os demais países, afinal: “modernamente, a educação torna-se pública nos países atingidos pelo movimento da Reforma”
        João Calvino deixou também sua contribuição na educação, como convocou a igreja a retornar a tarefa de ensinar as crianças, fundou academia Genebra que ensinava crianças e adultos, escreveu muitos tratados, catecismos e trabalhos bíblicos.
        A influência da Reforma na educação é inegável, pois os reformadores não estavam preocupados somente com a formação religiosa, mas buscavam fornecer uma base cultural onde haveria uma maturidade espiritual e também educacional, pois estavam conscientes da necessidade da alfabetização dos leigos e, ao ensino popular, onde deu início às escolas de ensino gratuito.
A importância do indivíduo como agente responsável diante de Deus e do mundo
        Lutero preocupava-se com o ser humano de modo integral e não parcial, fragmentado, ou restrito a um só segmento da vida, Pelo contrário, esta preocupação com o ser abarca todos os segmentos da existência humana, pois, a mesma está para com a família, para com a contribuição na sociedade quer pela escola ou pelo trabalho e principalmente para com a formação religiosa do homem o que lhe possibilitaria grande influência na Reforma Protestante.
       Sendo assim, uma vez que se tem a compreensão de que a Bíblia deveria ser lida, estudada e interpretada por todos, faz-se mister que o povo receba tal educação e que por meio deste desfrute do conhecimento das Sagradas Escrituras que o próprio Lutero traduziu das línguas originais para o alemão. Eis aí a principal importância da educação para Lutero.
Neste contexto, os movimentos da Renascença e da Reforma são precursores de profundas mudanças na concepção de ensino. A educação começa a visar de modo claro e definido à formação integral do homem, o seu desenvolvimento intelectual, moral e físico.

Tradução da Bíblia para outros idiomas

A tradução para o alemão e o francês, empreendida por Lutero e seus seguidores, permitiu que mais pessoas passassem a ter acesso à leitura da Bíblia, antes somente escrita em latim, que era uma língua de conhecimento restrito aos clérigos.

 

Cidadania

Os fundamentos da igualdade e liberdade são evolução da tese luterana de que não existe diferença entre leigo e clérigo, de que todos são iguais perante Deus. Todos os Pais da Reforma insistiram no conceito dos diretos e responsabilidades do indivíduo em interpretar as Escrituras segundo sua consciência e orações. As mudanças se seguiram para o estado de direito e o capitalismo e, bem ou mal, foram um fundamento para a economia moderna.

         A elevação do status da mulher, a dignidade do ser humano e a libertação dos escravos foram algumas das ações diretas da evolução dos princípios que a Reforma Protestante trouxe ao mundo.
        Reformadores e missionários pós-Reforma realizaram grandes feitos, como a concretização da abolição de escravos; o fim do tráfico humano e da banalização da prostituição;  fazendo com que cessassem a queima de hereges, genocídios de deficientes físicos e sacrifícios de crianças.

Diminuição da interferência da Igreja sobre os monarcas

Mais do que apenas um movimento religioso, as reformas protestantes inseriram-se no contexto mais amplo que marcou a Europa a partir da Baixa Idade Média, expressando a superação da estrutura feudal tanto em termos da fé como também em seus aspectos sociais e políticos.

As reformas religiosas como um processo que se iniciou no século 16 representaram o transbordamento de uma crise que já vinha se manifestando na Europa desde o início da Baixa Idade Média, fruto da inadequação da Igreja à nova realidade, marcada pelo declínio do mundo feudal, pelo crescimento do comércio e da vida urbana, pela centralização do poder político nas mãos dos reis e pelo advento de uma nova camada social, a burguesia.

Fortalecimento dos princípios sociais e econômicos da burguesia

Passam a ser sustentados pela aprovação do lucro (doutrina calvinista).  O desenvolvimento das novas formas econômicas de produção e comércio passou a depender da superação das profundas e persistentes crises que marcaram o desaparecimento do sistema feudal. Um novo regime político, que permitisse a solução daqueles problemas sociais, se fazia necessário, sob o risco da dissolução das novas conquistas econômicas.

O surgimento de movimentos sociais tinha como pano de fundo o propósito a implantação de um sistema social e econômico mais justo. Entre estes, podemos citar a Guerra dos Camponeses que estourou na Alemanha no ano de 1525. Este movimento, severamente reprimido, pretendia abolir as obrigações dos servos e a propriedade privada, criando um sistema agrário igualitário.

 

O clima de tensão começou a ser revertido quando, em 1530, Martinho Lutero e Filipe Melanchthon estabeleceram os princípios da religião luterana. Nesta carta, reafirmaram o princípio da salvação pela fé e afirmavam que a Bíblia era a única fonte de consulta para o estabelecimento de dogmas. A nova Igreja seria composta por líderes sem distinção hierárquica e os mesmos não teriam que cumprir voto de castidade.

Depois de fundar os princípios eclesiásticos do luteranismo, a questão dos conflitos sociais veio a ser resolvida anos mais tarde. No ano de 1555, os nobres convertidos ao luteranismo sagraram a assinatura da Paz de Augsburg. No documento ficou decretado que cada um dos principies alemães tinha liberdade para seguir qualquer opção religiosa. Por fim, os conflitos diminuíram e uma nova crença se arraigou na Europa.

 

Protestantismo e maçonaria

         A Constituição de Anderson de 1723 é, provavelmente, o documento que mais bem espelha os princípios da Maçonaria. Foi elaborada na transição entre a Maçonaria Operativa e a Especulativa, quando a organização outrora agrupando artesãos construtores se transformava na sua forma atual de organização fraternal indutora de aperfeiçoamento pessoal, moral e espiritual dos seus membros, segundo um método próprio, fundado em princípios herdados de tempos imemoriais, transmitidos e preservados de geração em geração.
          A denominação da Constituição de Anderson reúne os princípios básicos da Maçonaria Especulativa, que foi compilada e redigida pelo reverendo James Anderson, que era ministro da Igreja presbiteriana de Swallow Street, e Venerável Mestre da Grande Loja de Londres.
          Portanto, a Maçonaria Moderna foi organizada sob forte influência Evangélica até pelo fim a que se destinava, que era de aprimorar o homem na sua essência moral e ética. Devido a isto, a maçonaria desenvolveu-se em países onde a influência protestante era crescente (Inglaterra, Alemanha e América do Norte), espalhando-se depois pelo resto do mundo.

        A Reforma Protestante não trouxe objetivamente males, mas ao dizer que cada crente era livre para estudar a Bíblia e por si só tirar suas conclusões, introduziu a liberdade de interpretação e, por conseguinte, o confronto com o Papa, que até então era o único a dar a interpretação correta do Livro Sagrado. Calvino, Buccer, Lutero e Zuinglio também divergiam entre eles ao manifestarem-se sobre a interpretação de textos da Bíblia.

Surgiram divergências entre os evangélicos

         A primeira divisão da reforma deu-se em razão da interpretação da “ceia”, embora congreguem de princípios da doutrina que demarcam os limites do cristianismo evangélico. As transformações que se seguiam na Idade Moderna trouxeram à tona a criação de instituições religiosas com uma diferente base doutrinária cristã.

Entre essas novas instituições podemos destacar o Luteranismo, o Calvinismo e o Anglicanismo como exemplos das novas religiões protestantes surgidas no século XVI. Assim, os assembleianos, presbiterianos e batistas divergem em alguns pontos, mas compartilham dos dogmas essenciais dos evangélicos.

Surgiram muitas seitas religiosas

A liberdade religiosa abriu espaço para o surgimento de seitas, assim consideradas por suas práticas consideradas hereges, ou seja, instituição ou grupo religioso que não seguiam os mesmos princípios do cristianismo ou não tomavam por base os ensinamentos dos evangelhos.

          A Reforma foi sem de dúvida um dos mais importantes movimentos revolucionários da história. Equiparado em grandeza, apenas dois séculos depois pelo Iluminismo e pelo Racionalismo. Nenhum aspecto da vida humana ficou intacto, pois o movimento abrangeu transformações políticas, econômicas, religiosas, morais, filosóficas, literárias e nas instituições.
         Hoje, ao estudar a Reforma passamos a compreender sobre a necessidade do trabalho cristão para o desenvolvimento espiritual do ser humano. Isso é especialmente observado na maneira como os reformadores empregaram a “força leiga” na pregação do evangelho. Eles não confinaram essa atividade apenas ao clero, mas cada cristão se tornou um missionário das boas novas do reino de Deus.
       A Reforma foi mais do que um mero evento histórico, ela possui uma mensagem relevante para os dias atuais. Ensina que a vitalidade da fé cristã está intimamente conectada com a redescoberta da riqueza do evangelho. Os reformadores foram tomados pela alegria da mensagem do evangelho e sua aplicação à vida diária, pois o evangelho deve afetar toda a vida do cristão e não apenas a devoção religiosa.
Márcio Antônio Monteiro

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