Hospícios de Sergipe.

Por Antônio Samarone

Marcos Nunes, 13 de Julho, 2019

Quarenta anos da Clínica de Repouso São Marcelo (1979 – 2019)

José Hamilton Maciel, alagoano do Pão de Açúcar, se mudou para Aracaju em 1972. Veio a convite do Dr. Jorge Cabral, psiquiatra, Secretário Estadual de Saúde, para dirigir o Hospital Adauto Botelho, um nosocômio público especializado em doidos. José Hamilton foi convidado por indicação do doutor Josué Duarte, influente e destacado sanitarista alagoano.

O Adauto Botelho vivia apinhado de (indi)gentes, sujo, desorganizado, quase nada tinha a oferecer aos seus pacientes. O eletrochoque era a panaceia. A psiquiatria não dispunha do arsenal de psicotrópicos de hoje. José Hamilton veio para pôr ordem na casa.

No final da década de 1970, Sergipe possuía três hospitais de alienados: o Adauto Botelho (1954); a Clínica Santa Maria (1962), do psiquiatra Hercílio Cruz; e o Hospital Garcia Moreno (1976), no município de Socorro.

A psiquiatria tinha poucos adeptos em Sergipe na década de 1970: além de Jorge Cabral e Hercílio Cruz, citados acima, atuavam por aqui, João Peres Garcia Moreno, Renato Mazze Lucas, Eduardo Vital Santos Mello, Antônio Santana e os alagoanos Rosauro Luna e Roberto Carvalho. Menos de uma dezena. Esqueci algum nome?

Logo, logo, José Hamilton se enturmou em Sergipe, fez amizades, tornou-se sergipano. Assumiu a cátedra de medicina legal da Faculdade de Medicina da UFS. José Hamilton veio a Sergipe sonhando em organizar uma clínica para doentes mentais. Surgiu uma oportunidade: a previdência social foi reformada em 1974. Criou-se o INAMPS, órgão especializado em assistência médica.

O INAMPS nasceu com duas orientações: aumentar a oferta de serviços médicos e comprá-los à terceiros. A construção de serviços próprios não era prioridade. Mas comprar serviços a quem, se a rede privada de assistência médica era quase inexistente? Em Sergipe não passava de meia dúzia. O Governo Federal criou o Fundo de Apoio Social (FAS), para emprestar dinheiro a juros baixíssimos a quem quisesse construir clínicas e hospitais. O Dr. José Hamilton entrou nessa oportunidade.

José Hamilton reuniu a família. A esposa Maria da Gloria; Natanael, cunhado; Maria Helena, prima; Hamiltinho e Zaira, filhos (todos psiquiatras); Fátima; Noemia, assistente social; Maria Vieira, nutricionista; Cibele Ramalho, psicóloga; Maria de Fátima, enfermeira. Ou seja, montou uma empresa familiar. Um sonho de juventude criava asas: construir um serviço de assistência à saúde mental, humanizado e de boa qualidade.

Em 14 de julho de 1979, foi inaugurada festivamente a Clínica de Repouso São Marcelo. A data de 14 de julho não foi coincidência, reflete a alma política de José Hamilton Maciel.

A São Marcelo completa 40 anos. Os outros hospitais psiquiátricos de Sergipe acabaram. O Adauto Botelho e o Garcia Moreno, foram transformados em quartel e cadeia pública. O Santa Maria fechou suas portas. A prioridade da política de saúde mental era a desospitalização e a criação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs).

Hoje, depois que os ventos da antipsiquiatria de Franco Basaglia abrandaram, os tratamentos psiquiátricos ganharam tons mais civilizados e o cuidado hospitalar deixou de ser sinônimo de holocausto, a Clínica de Repouso São Marcelo sobrou como o único refúgio para os pacientes que necessitam de cuidados hospitalares, em psiquiatria. Vive sempre lotada.

A luta pelo fim dos manicômios, não significa que a atenção hospitalar aos pacientes psiquiátricos seja desnecessária. Essa confusão precisa ser desfeita. A ênfase continua na assistência não hospitalar, por equipes multiprofissionais e integrados à comunidade. Mas se o transtorno requer uma assistência hospitalar intensiva, ela deve ser oferecida a todos.

Parabéns a família da Clínica São Marcelo, pelos 40 anos. Aos que lá trabalham, a direção, aos pacientes, e aos que acreditam numa medicina humanizada.

Antônio Samarone.

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