57º CONGRESSO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ECONOMMIA, SOCIOLOGIA E ADMINISTRAÇÃO RURAL. Por Manoel Moacir

ILHÉUS, BAHIA, 21 A 25 DE JULHO DE 2019

Redação, 26 de Julho, 2019

SESSÃO ORGANIZADA SOBRE A SEGUINTE PROBLEMÁTICA:

QUAIS AS CONTRIBUIÇÕES DO MARXISMO PARA INTERPRETAR O DESENVOLVIMENTO AGROPECUÁRIO BRASILEIRO?

JUSTIFICATIVA

​No Brasil, as Ciências Sociais (incluindo a Economia) que estudam os chamados “processos sociais rurais” sob uma orientação teórica e metodológica crítica à ordem social existente(marxista ou não), ostentam longa tradição de esforços de análise. O seu ponto de partida, apenas para indicar uma data e um nome referencial, pode ser identificado, talvez, com o livro “Evolução política do Brasil”, de Caio Prado Junior, publicado em 1933. Naquela obra, pela primeira vez, uma das categorias centrais do Marxismo – classe social – foi utilizadalogicamente pelo autor para oferecer uma interpretação sobre a formação e o desenvolvimento da sociedade brasileira.

Contudo, o Marxismo vem reivindicando para asua tradição teórica e política a exclusividade de ser o único (ou, pelo menos, o principal) “pensamento crítico”, sendo esse um dos pontos de discussão e controvérsia – somente as leituras marxistas da sociedade é que seriam, necessariamente, “críticas”?  Se as possibilidades analíticas do pensamento crítico forem ampliadas e também incluírem outras escolas do pensamento social, o ponto de partida, necessariamente, seria anterior ao livro acima referido. Pois diversos autores mais antigos já teriam sido observadores agudos (e críticos) da realidade social brasileira. “Os Sertões” (1902) seria um exemplo, entre tantos outros.

A Sessão organizada pretende debruçar-se sobre uma pequena parte dos quase infinitos temas de discussão que o título acima poderia estimular, se existisse tempo maior para as apresentações e os debates que certamente serão estimulados pelo tema geral. Se fosse um foco restrito ao Marxismo, por exemplo, somente uma divisão histórica típica desta tradição fomentaria intenso debate. Seria a polaridade entre uma perspectiva mais ortodoxadeterminada por categorias econômicas, hegemônica no pensamento social brasileiro, e um Marxismo mais humanista, centrado na dialética determinada por categorias filosóficas, típico da produção inicial do “jovem Marx” e orientadora, por exemplo, da obra do maior sociólogo brasileiro (José de Souza Martins). Apenas esta dicotomia tem longa trajetória de discussões.

Em face, portanto, da imensa riqueza das influências do Marxismo e suas leituras sobre “omundo rural” entre as Ciências Sociais brasileiras e, mais amplamente, do pensamento crítico, a Sessão pretende, tão somente, iniciar um debate que claramente se apresenta com alguma urgência e necessidade. Se a pergunta geral fosse mais específica e delimitadora, como “Quais as contribuições do Marxismo para interpretar o desenvolvimento agrário brasileiro?”, as possíveis respostas gerariam, sem dúvida alguma, uma discussão entre especialistas e demais interessados que seria extraordinariamente relevante para o avanço do conhecimento sobre o pensamento social nesta área. Por essas e outras razões, espera-se que essa SORG possa inaugurar, no âmbito da SOBER, uma nova tradição de debates sobre as leituras teóricas e metodológicas sobre “o rural brasileiro”, com aprofundamentos em congressos futuros.

 

COORDENADORA

 

Maria Thereza Macedo Pedroso, pesquisadora em Ciências Sociais da Embrapa Hortaliças

APRESENTADORES

1. Amilcar Baiardi: Doutor em Economia pela UNICAMP, professor titular aposentado da UFBA e da UFRB e atualmente professor da Universidade Católica de Salvador, UCSAL. Foi professor visitante da Universidade de Aarhus, Dinamarca, e da Universidade de Bolonha, Itália).

Título: “Uma tentativa de fugir ao mainstreameconômico e de não ser mecanicista no uso do pensamento de Marx”.

2. Manoel Moacir Costa Macêdo: PhD em Sociologia pela Universidade de Sussex, Inglaterra. Foi Diretor Superintendente da Fundação de Seguridade Social - CERES, o fundo de pensão da Embrapa e DE outras empresas de desenvolvimento, ciência e tecnologia. Professor da Universidade Católica de Brasília e da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em Brasília, e dirigente de Unidades Centrais e Descentralizadas da Embrapa.

Título: “A geração da tecnologia agropecuária e o marxismo”.

3. Zander Navarro: Doutor em Sociologia pela Universidade de Sussex, Inglaterra. Professor aposentado da UFRGS e, atualmente, é pesquisador da Embrapa, Brasília, DF. Foi professor e pesquisador do Institute of Development Studies, na Inglaterra, entre 2003 e 2009.

Título: “Comentários sobre a trajetória do Marxismo no campo dos estudos rurais brasileiros”.

​MANOEL MOACIR COSTA MACÊDO

 

A GERAÇÃO DA TECNOLOGIA AGROPECUÁRIA E O MARXISMO

 

RESUMO EXPANDIDO

 

O sentido dessa sessão propõe apresentar na perspectiva da geração de tecnologia agropecuária, premissas sem à fidedignidade do método científico e no contexto temporal à seguinte pergunta:

 

“Quais as contribuições do Marxismo para interpretar o desenvolvimento agropecuário brasileiro?”

 

1. Nas organizações estatais de pesquisa agropecuária, a contribuição do marxismo no processo de geração da tecnologia agropecuáriatem sido marginal.

​O objeto formal do progresso tecnológico nas organizações públicas de pesquisa agropecuária foi centralizado na “geração de tecnologia para o aumento linear da produção e produtividade das lavouras e criações”. Uma estratégia do desenvolvimento do capitalismo no campo, a partir do fator de produção identificado como moderno: a “tecnologia”. O lastro teórico dessa ação estava ancorado na “Teoria da Inovação Induzida”, quepropunha maximizar a produtividade da terra e do trabalho com tecnologias intensivas em capital. Também representava uma apologia à “neutralidade da tecnologia”, expressa nos “pacotes tecnológicos”. A tecnologia tida como uma “coisa”, nunca como uma relação social de produção. O pressuposto eraque a realidade carecia de atitudes adequadas à atividade agrícola pelas elites intelectuais, econômicas e políticas. Essa estratégia deveria funcionar como um freio ideológico aos apelos pela “reforma agraria”, como um fator relevante no modo de produção. A proposta era neutralizar as tensões sobre a “terra”, uma categoria analítica à luz do marxismo, reproduzido nos latifúndios produtivos ou improdutivos. A terra não estava identificada como um fator social de produção, mas uma “reserva de valor”, transferida entre gerações, sob a proteção dasegurança jurídica dos estatutos tradicionais da herança de origem lusitana. Na lógica do capitalismoestatal da ditadura militar, realçou o pragmatismo estatizante e a oferta de alimentos baratos para umamassa de trabalhadores migrada do meio rural para a indústria urbana. Com isso, obtinha-se alimento e mão-de-obra barata. Se bem sucedida (como foi) seria a missão cumprida da tecnologia na inserção da modernização capitalista no campo e a instituição da receita de mais-valia e acumulação do modo de produção agropecuária. Ao mesmo tempo,enfraquecia a estratégia política e de mobilizaçõesdo Partido Comunista Brasileiro (PCB) e da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), além de grupos seletivos de acadêmicos em universidades identificados com asteses da Revolução Cubana, das Pastorais da Igreja Católica, da Teologia da Libertação, e dos nascentes movimentos sociais no campo. Todos sob a influência teórica do Marxismo. No ambiente do fomento, ou seja, da assistência técnica e extensão rural, dominava os planos de desenvolvimento ruralchamados de “integrados” sob os condicionantes do “behaviorismo” de “estímulo e resposta”, fundados nos influentes trabalhos de Everett Rogers. Em síntese, a teoria sugeria um imaginário “tipo ideal” traduzido “numa ponte (em verdade um muro) onde em uma margem estavam as organizaçõespredominantemente públicas da geração etransferência de tecnologia; e na outra, os elementos vivos, contraditórios e possíveis adotantes dos ideais pacotes tecnológicos - os passivos produtores rurais. Uma espécie da cadeia de sobrevivência animal, numa escala entre dominadores e dominados. Aqui o Marxismo ancorou-se como crítica e mobilização política, jamais, como uma categoria sociológica ou econômica na práxis da geração, difusão e adoção da tecnologia, na concretude do mundo real e da mudança social.

 

 

2. Nas universidades públicas e organizações não governamentais, a contribuição do marxismo para interpretar o desenvolvimento agropecuário brasileiro foi relevante, mas, semforça de intervenção no modo de produzir.

 

Na maioria das universidades brasileiras, com recortes agrícolas tradicionais, não estava na agenda de prioridades a geração de conhecimento“per se” para a agropecuária, fundada na concretude das categorias marxistas e na totalidade do mundo real, mas na ocupação de espaços teóricos e de mobilizações para discussões, críticas e alternativas aos enfoques clássicos e neoclássicos. Tradicionalmente predominam nessas instituições as atividades de ensino, onde a pesquisa e a extensão, em sua maioria, são mais episódicas do que efetivas. Realçaram as análises de conteúdos críticos, sob a inspiração teórica do Marxismo e das ideias intervencionistas “keynesianas” do Estado. Os debates concentraram-se em torno do“subdesenvolvimento periférico”, lastreado na transferência do conhecimento científico e tecnológico dos “países centrais” para a “periferia”, sob uma perpétua dependência e subordinação, na perspectiva marxista. A persistente pobreza, miséria e desigualdade condenavam à estagnação os Países do Terceiro Mundo. Portanto, focos acolhedores de movimentos revolucionários e de rupturas pelos “intelectuais orgânicos” e jovens idealistas e utópicos, a exemplo da aventura da “Guerrilha do Araguaia”. Grupos acadêmicos acolheram a perspectiva marxista nas suas cátedras, além dos cânones da ciência e da práxis científica, e abrigaram a militância política na expressão de “Revolução ou Morte”.  O Marxismo não conseguiu construir uma teoria social das relações sociais contemporâneas, no processo de geração de tecnologia agropecuária, não obstante algumas construções teóricas inovadoras. Destaque para os estudos estruturantes da “Teoria da Dependência”, da “Crítica à Razão Dualista” (setor rural atrasado versus o industrial moderno), dos“burocratas tecnológicos”, que seria uma “nova classe social”, possuidora da “energia do pensamento” como geradora de “mais-valia”; do “Cativeiro da Terra”, das “classes sociais no campo e as suas alianças”, do “emprego e do desempregorural”, e da concentração de renda, entre outras especificidades libertárias e utópicas. No caso específico da agropecuária, os enfoques recaiam sobre as críticas à “modernização”, como uma fatalidade a transferência de conhecimento das nações ricas para as pobres, na perspectiva “rostoviana”, mormente da iluminada Europa para osdegredados periféricos. Não estava em pauta a globalização, que emergiu nos anos noventa, como um processo de difusão da antiga “modernização”. As críticas estavam concentradas na “modernização dolorosa” do campo. Estudos foram efetuados sobremigração em massa, êxodo rural, ou ainda a expulsão das pessoas do campo para as cidades. A substituição da desqualificada mão-de-obra por máquinas e equipamentos agrícolas. Um público sem qualificação para o mercado emergente no setor industrial. O anunciado colapso dos serviços urbanos, gêneses das crises habitacionais, dacarência dos serviços de saúde, da violência, do desemprego, e da persistente e histórica desigualdade. As teorias oriundas de influências marxistas foram relevantes para entender as contradições do capitalismo, e as consequências da neutralidade tecnológica no meio ambiente, no emprego, e na desejada igualdade – uma dasutopias marxista. Mas não conseguiram interferir com significância no processo de geração de tecnologia, e nem construir uma teoria social das relações sociais contemporâneas.

 

 

3. No tempo de globalização no mundo real, a agricultura brasileira, caracteriza-se por um processo produtivo capitalista lastreado em inovações tecnológicas intensivas em capital.

 

O agronegócio brasileiro, na atualidade, detém terra, energia, tecnologia, mercado, água e empreendedorismo dos produtores rurais. Uma revolução tecnológica que iniciou na década de setenta com a oferta de inovações tecnológicas, aexemplo de cultivares produtivas e tambémadaptáveis à diversidade territorial de um país continental e preservacionista, ofertadas pelas organizações estatais de ciência, tecnologia e inovação agropecuária, no âmbito do chamado Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária, liderado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa. Em curso, e em incorporação, a revolução digital, a agricultura de precisão, inteligência artificial e big data. Existe opotencial de dobrar a produção agropecuária, na busca do lucro máximo, mantendo a preservação de dois terços do território nacional. Uma estrutura de produção diversificada e globalizada, que acirra a disputa por capitais e a maior produtividade total. Aintensificação produtiva, onde desaparece o passado agrário, a exemplo das pressões por reforma agrária e da terra como uma reserva de valor. A terra não é mais um fator estratégico de produção, e as formas de produção não capitalistas, como os parceiros e arrendatários pobres tendem a desaparecer na estrutura produtiva. O campo para essa categoria social está qualificado como um local de moradia e acolhedor de políticas sociais compensadoras. A antiga dicotomia rural-urbana deixou de ter significado prático. Multiplicam-se os agentes econômicos, a maior parte com ação urbana e muitos deles sediados fora do país. Essas transformações exigem novos papéis do Estado em sua dimensão federal, e em níveis subnacionais, restringindo a sua intervenção direta no processo produtivo, a exemplo da oferta de crédito rural, assistência técnica, e inovações tecnológicas. Há igualmente a tendência à consolidação das relações entre o ‘ambiente’ e a ‘produção’. Um novo modo de produção do conhecimento, em curso, numa perspectiva da “totalidade” e da “produção ao consumo”. A razão dualista, a reforma agrária e as externalidades ambientais foram rejeitadas pelaprodução da agropecuária baseada na ciência e em vultosos custos financeiros. Produção, renda, emprego, e preservação ambiental caracterizam o modo de produção capitalista e financeirizado da agricultura. Emerge uma fase plena do capitalismo agrário no país. Uma revolução com novas inovações tecnológicas de informação e de comunicação, num contexto de globalização, neoliberalismo e protecionismo. O capitalismo não existe, sem o grande capital. Aceita-se o Marxismo, apenas como uma fonte qualificada da crítica às contradições do capitalismo e a sua voraz acumulação.

REFERÊNCIAS

 

BUAINAIN, A. M.; ALVES, E.; SILVEIRA, J. M. da; NAVARRO, Z. O mundo rural no Brasil no século 21:A formação de um novo padrão agrário e agrícola. Brasília, DF: Embrapa, 2014.

 

FAUSTO, R. A Esquerda Difícil. São Paulo: Perspectiva, 2007.

 

GERMANI, G. Sociologia da Modernização. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1974.

 

GIBBONS, M. et alii. The new production of knowledege. London: Sage Publications, 1995.

 

OLIVEIRA, F. de. A Economia Brasileira: Crítica à Razão Dualista. Petrópolis: Editora Vozes, 1981.

 

MILIBAND, R. The State in Capitalist Society. London: Quatet Books, 1973.

 

MIRANDA, E. Tons de Verde: A Sustentabilidade da Agricultura no Brasil. São Paulo: Metalivros, 2018.

 

PIKETTY, T. O Capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

 

SILVA, J. G. da. Progresso Técnico e Relações de Trabalho na Agricultura. São Paulo: Editora Hucitec, 1981.

 

SOUZA, J. A Elite do Atraso. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

 

 

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