SERGIPE ANTIGO (CAPÍTULO III)

Por Antônio Samarone

Redação, 31 de Julho, 2019

Sergipe foi descoberto por Américo Vespúcio, em 04 de outubro de 1501.

A comitiva de Pedro Alvares Cabral, composta de dez caravelas e três navios redondos, partiu de Lisboa em 09 de março de 1500, chegando a Porto Seguro em 22 de abril. Ficaram na terra descoberta por oito dias. Em primeiro de maio, zarparam para o seu destino inicial, de estabelecer uma feitoria em Calecut. Portugal tinha uma população em torno de 1,8 milhões de habitantes.

Na verdade, eles descobriram Porto Seguro, e seguiram viagem.

Havia um cientista na Esquadra de Cabral, Mestre João (João Faras), considerado o primeiro cientista a estudar o Brasil. Era astrônomo, astrólogo, cosmógrafo e o médico da equipe. Cristão novo.

A tarefa mais importante de Mestre João foi a de descobrir que terra era aquela, a que eles aportaram em abril de 1500. A medida da latitude foi tomada no dia 27 de abril de 1500, com um grande astrolábio de madeira. Obteve-se o valor de "aproximadamente 17º" que comparado com o valor aceito hoje de 16º, 21'22'', pode ser considerada bem precisa.

Na noite de 27 de abril Mestre João se deparou com uma constelação, que já era conhecida desde a antiguidade e servia de orientação para os navegadores ao ultrapassarem a linha do equador, mas que ainda não tinha nome. Ao ver o seu desenho no céu, Mestre João a comparou com uma cruz, batizando-a então de Cruzeiro do Sul. A carta escrita por mestre João em 1º de maio de 1500, dirigida a D. Manuel, ficou perdida até 1843.

A carta de Pero Vaz Caminha, tão bem escrita, relatando de forma entusiasmada as descobertas do Brasil não teve repercussão à época. A carta de Caminha ficou nas gavetas dos arquivos portugueses por muito tempo, só sendo descoberta por Ayres Cabral em 1817.

O comportamento dos portugueses ao chegarem ao Brasil era como se a nova terra fosse a eles destinada por Deus. Iniciaram dando nome às coisas, batizando e benzendo tudo que encontravam pela frente, serras, rios, lagoas, baias, numa atividade adâmica, como se para tomar posse bastasse nomeá-la.

Antes mesmo do regresso da Armada de Cabral da Índia, em 13 de maio de 1501, por ordem do Rei D. Manuel, partiu do Tejo a primeira expedição de reconhecimento do território recém descoberto, comandada por André Afonso Gonçalves, chegando às costas brasileiras em 07 de agosto de mesmo ano. Só chegaram a Portugal de volta em julho de 1502.

Foi uma expedição real com três caravelas. A descoberta do território de Sergipe ocorreu nessa viagem. O florentino Américo Vespúcio participou dessa expedição de 1501 como cosmógrafo e cronista. A glória da revelação do novo mundo descoberto coube a ele. No retorno à Europa, Américo Vespúcio publicou dois livros “Mundus Novus” e “Lettera” reproduzindo os relatos dessa viagem.

Américo Vespúcio, o florentino que dar o nome as Américas, entra para a história do Brasil ao divulgar uma carta enviada a Lourenço de Medicis, tornada pública em 1503, conhecida como “Mundus Novus”, escrita em latim. O sucesso da publicação alcançou o mundo letrado europeu.

Em 1505 editava-se em Florença uma nova carta de Vespúcio, destinada a Piero Soderini, a “Lettera”. Os relatos de Vespúcio encheram o mundo de novidades, sobres novas terras e nova gente, despertou os filósofos para a existência de um homem puro, fora da sociedade.

O Mundus Novus descrevia a expedição enviada por D. Manuel ao Brasil, em 1501. Vespúcio morreu em 1512, pobre, mas coberto de glória pelos seus relatos sobre o Brasil e a sua gente.

No desembarque dessa expedição de 1501, na Praia do Marco, no Rio Grande do Norte, os visitantes não foram bem recebidos pelos tapuias, ao contrário da recepção festiva dada pelos tupiniquins a Cabral um ano antes. O Rio Grande do Norte comemora o seu aniversário em 07 de agosto, data da chegada dos portugueses para tomarem posse do território.

A descoberta de Sergipe.

A expedição de 1501 chegou ao imponente rio Parapitinga (Opará para os nativos) em 04 de outubro de 1501, batizando-o com o nome de São Francisco, o santo do dia. É nessa data que se dá a descoberta de Sergipe, à margens direita do portentoso rio. Essa é a data histórica do aniversário de Sergipe, descoberto por Afonso Gonçalves e Américo Vespúcio, antes mesmo que a famosa Baía de Todos os Santos, onde posteriormente viria a ser a sede do Governo Geral do Brasil.

Por isso que o São Francisco é chamado de Velho Chico, foi descoberto antes do Brasil. Sergipe também foi.

Como o critério hagiológico era adotado pelos portugueses para denominar os topônimos encontrados, e o rio Parapitinga dos tupinambás foi batizado com o nome de São Francisco, em 04 de outubro (data do santo) de 1501.

A expedição só batizou a Baia de Todos Santos em 01 de novembro, se deduz que nessa faixa da costa entre o São Francisco e a Baia de Todos os Santos, onde se encontra boa parte do litoral sergipano, eles levaram 26 dias, sendo bastante provável que tenham feito várias incursões costa adentro, entre elas os cinco dias ancorados na enseada do Vaza Barris.

Em seguida, a expedição é arrastada pelas correntes marítimas para uma perigosa enseada.

Relata Américo Vespúcio:

“Chegados à costa, enfrentam os navios uma inopinada corrente que arrasta as águas para a praia, pondo em risco as embarcações. Naqueles dias longínquos de 1501, as caravelas tiveram que lutar com as forças da água e certamente tonéis de bordo se entrechocaram afrouxando juntas e barris vazaram os líquidos que haviam... A costa turbulenta, cuja curvatura dava lugar a uma espécie de enseada, foi apelidada pelos marujos de armada de Vaza barris, passando assim a cartografia (vaza barril).”

Aqui cabe um explicação: a enseada do Vaza Barris citada por Vespúcio ficava entre a foz do São Francisco e o Rio Japaratuba, em Pirambu. Na cartografia portuguesa apareceu outra enseada com o nome de Vaza Barris (Irapiranga, para os tupinambás), como o nome de rio Cassia ou rio Canafístulas (atual Vaza Barris). O rio de Pereira (atual Cotinguíba) aparece nos mapas onde atualmente é a foz do Rio Sergipe. O registro da escala da comitiva de Américo Vespúcio na enseada do Vaza Barris está explicita em sua carta.

A denominação seguinte dada pela expedição de 1501 é ao Rio Perera (Rio do Pereira), nome do capitão da caravela que o viu e nele penetrou. É o nosso Rio Cirigi (dos tupinambás), que se junta ao Rio Cotindiba (Cotinguíba) em sua foz. O Rio Cirigi é que vem dar nome ao Estado de Sergipe.

A expedição também batizou uma serra, avistada a uma distância de 8 a 10 léguas, de Serra de Sta. Maria de Gracia (Serra de Santa Maria da Graça), que posteriormente foi denominada Serra de Itabaiana.

Por último a expedição batizou o Rio Real, com duas versões para o nome. Uma como homenagem a data de nascimento de D. Manuel (25 de outubro), e a outra pela impressão que a largura da foz deixava, levando-se a impressão de tratar-se de um rio volumoso e de longo curso.

A Esquadra de Cabral passou 08 dias em Porto Seguro; a Expedição de Américo Vespúcio passou 21 dias em Sergipe.

Sergipe estava descoberto.

A expedição zarpou de Sergipe carregada de canafístula (uma fava medicinal usada na Europa), reforçando-se a versão que eles ficaram ancorados na enseda do Vaza Barris por cinco dias. A outra evidência é o longo tempo de percurso da expedição (26 dias) entre o Rio São Francisco e a Baia de Todos Santos. Só chegaram à Baia em 01 de novembro de 1501, que pelo significado religioso da data, a batizaram de Baia de Todos os Santos.

Valendo-se do abandono, os franceses estabeleceram um comercio regular de pau-brasil com os índios de Sergipe. Neste período, a Terra de Santa Cruz foi um paraíso de degredados e piratas. Em Sergipe, além das relações comerciais, franceses e tupinambás firmaram relações de parceria e amizade.

Os franceses estão em costas de Sergipe desde 1504, vinham em busca do pau de tinta, das favas medicinais da canafístula, de pimentas e algodão. Nas imediações do Rio Seregipe, encontravam-se vários mamelucos entre os tupinambás, aloirados, sardentos, tipos comum no meio do povo. Esses mamelucos eram os filhos de franceses com as tupinambás.

Antônio Samarone.

 

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