HOLOCAUSTO BRASILEIRO (VIII)

Por Manoel Moacir Costa Macêdo

Redação, 03 de Agosto, 2019

A fome persiste no Brasil. Inconcebível para um País que produz e exporta alimentos para o mundo. Nove milhões de brasileiros passam fome e outros não comem o suficiente para suprir as suas necessidades nutricionais, segundo a Organização Mundial de Saúde - OMS. Um terço da população brasileira é mal nutrida com deficiência de iodo, zinco, ferro, ácido fólico e vitaminas. 15 milhões de brasileiros estão na extrema pobreza. A cada cinco minutos morre uma criança no Brasil, a maioria por doenças causadas pela fome. Um “holocausto a brasileira”.

 

Não existem argumentos que justifiquem a fome no Brasil. Um país continental com uma diversidade de ecossistemas, terras agricultáveis, água e energia em abundância. Tecnologias adaptáveis aos variados sistemas de produção e um relevante mercado consumidor. Escassos desastres ambientais como geadas, furacões, desertos e outros intempéries da natureza. A cada novo ano, safras recordes são anunciadas como um “orgulhonacional”, creditados mais à ciência e menos à incorporação de novas áreas. Uma produção agropecuária lastreada em ciência, tecnologia, inovação e preservação dos recursos naturais.

 

Por que temos fome? Qual a razão de existir brasileiros com fome, paridos e viventes nesse generoso território com nome de árvore e forma decoração? O desenvolvimento científico e tecnológico em pequeno lapso temporal, incorporou áreas inapropriadas ao cultivo como os Cerrados, que produzem, quase metade da produção nacional de grãos. O Brasil, produz mais com menos áreas, em virtude dos ganhos de produtividade das lavouras e criações. A legislação brasileira mantém o equilíbrio entre a produção e o meio ambiente.

 

A fome brasileira, não é por carência daprodução de alimentos, mas pela vergonhosa e crueldesigualdade, uma das maiores do planeta. Limitações de renda dos brasileiros, impedem a aquisição de comida. A solução para eliminar a fome, não está na produção agropecuária. Aprevisão é de mais uma safra recorde de 240milhões de toneladas de grãos, suficiente para alimentar a população brasileira. As restrições estão na superestrutura do estado, isto é, na ausência depolíticas púbicas de distribuição da riqueza, emprego e renda para os brasileiros, principalmente os pobres, situados no estamento inferior da rígida e concentrada estrutura social brasileira. 

 

Políticas setoriais, a exemplo dos planos de safras para a produção de cultivos alimentares,educação e seguro rural e emprego da mão de obra, cada vez mais escassa no meio rural são paliativas, mas bem-vindas. O modelo exportador agrário especializado em commodities agropecuárias com baixo valor agregado, fragiliza a inserção do Brasil no mercado global, competitivo e protecionista. Uma balança comercial desvantajosa entre commodities ebens de tecnologia de ponta, aprofundando a dependência científica e tecnológica entre os centrais e os periféricos. Numa sociedade em que 80% da sua população sobrevive com até dois salários mínimos, as políticas setoriais não alcançam o bem-estar dos mais pobres.

 

“Não se combate à fome, negando a sua existência”. A solução requer decisões políticas estruturantes, com rupturas e quebras de privilégios dos estamentos superiores impregnados nasociedade brasileira, concentradores de riqueza e poder. Politicas ocasionais e de curto prazo não resolvem o problema da fome, apenas adia na forma de um conflito hibernado com potencial de explosão, temido pela amorfa classe média, possuidora dos instrumentos de controle social. Como pregou o sociólogo Betinho: ”quem tem fome, tem pressa”.Quando os brasileiros alcançarem os meios de autosustentação pelo trabalho digno e remuneração justapara comprar comida, a fome estará eliminada. Não se tolera a fome no Brasil, produtor e exportador de alimentos na arena global, que deve alimentarprimeiro os seus filhos e a seguir os cavaloseuropeus.

 

Manoel Moacir Costa Macêdo

Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra 

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