O coração de ouro do meu amigo Zé Milton Machado

Por José Marcondes

Redação, 04 de Agosto, 2019

A primeira indicação que o colesterol poderia estar relacionado ao desenvolvimento de aterosclerose, ocorreu em 1908, quando o estudante da Faculdade de Medicina de São Petersburgo, ( onde estou nessa foto dapostagem), Alexander Ignatowski, observou que ao alimentar coelhos com gordura animal por algum tempo, produzia acúmulo de placas de gorduras nas superfícies artérias.
Essa foi a primeira vez que se demonstrou experimentalmente que, alimentos gordurosos obstruíam as artérias e causavam doenças.

No mesmo ano, outro jovem médico russo, Nicolau Anichkov também trabalhando na Universidade de São Peterburgo, repetiu os experimentos do seu colega Ignatowski e chegou a conclusão da arterosclerose era causada pela deposição de lipídios nas superfícies do vasos arteriais.
Dez anos depois, em 1919, os médicos norte-americanos James Herrick e depois Bennet , registraram alterações no eletrocardiograma que caracterizariam infarto do miocárdio, através da invenção do fisiologista holandês Willem Einthoven em1902.

Inicia-se assim a moderna cardiologia.
Mas os anos se passaram, muita gente continuou morrendo em consequência de infartos e derrames, até que em 1940, professor John Gofman da Universidade da California descreveu o que hoje conhecemos popularmente como, “colesterol bom - HDL” e “colesterol ruim – LDL”.

Foram necessários mais 43 anos para que, em 1983, os pesquisadores da Universidade do Texas, Michael Brown e Joseph Godstein, demonstrassem as bases mais intimas dos “receptores do colesterol mal – LDL” e sua relação clara com o adoecimento das artérias.
A descoberta da penicilina em 1942 e o desenvolvimento de antibióticos, resultou em importante redução na ocorrência infeções, mas como o homem está destinado a morrer por outras causas, as infecções dariam lugar as doenças do coração, das artérias e do cérebro, como limitantes da vida saudável.

Preocupados com o número adoecimentos e mortes relacionadas ao sistema cardiovascular, o Instituto do Coração, Pulmão, Sangue (National Heart, Lung, and Blood Institute (NHLBI) desde 1948, iniciou um amplo e duradouro trabalho de pesquisa com moradores da cidade de Framingham, no estado de Massachusetts e, desde de então, têm investigado doenças relacionadas aos processo de degeneração das artérias entre outras causalidades.
Já são 4 gerações de pessoas estudadas, um dos maiores experimentos observacionais da humanidade em todos os tempos, batizado com o nome “ “Framingham Heart Study”

A concepção de “fatores de risco”, abriu fronteiras para se determinar com boa aproximação, as possiblidades de desenvolvimento de várias doenças crônicas e intervenções preventivas capazes de modificarem seus efeitos.
O colesterol, o modo como é processado e pode causar doença, se constitui em um das mais importantes descobertas que a ciência médica realizou nos últimos 100 anos.

Mas gorduras no sangue, me fazem lembrar um saudoso amigo, que até hoje tenho um carinho enorme por sua memória; José Milton Machado, nosso muito querido e inesquecível “Zé-Milton-de-Zé-de-Faustino-e-Dona-Petrina da Matapuã”.
Certa ocasião ele me procurou, e com seu jeitão sempre brincalhão, me falou:
--- Filho de Eronildes, meu exame de colesterol deu alto, o que eu devo tomar?
Eu ainda muito novinho na carreira médica, recomendei repetir os exames, que efetivamente confirmaram que ele, muito precocemente, tinha o danado do colesterol muito alto e portanto, estava sob risco de ter problemas cardíacos no futuro.
Prescrevi então uma sinvastatina,”lovastatin”, um droga maravilhosa descoberta pelo genial bioquímico e cientista japonês, Akira Endo. A substância descoberta em laboratórios japoneses, à partir de colônia de fungos, era um potente redutor do colesterol, mas naquela ocasião era comercializado à um elevado custo.

Em visitas subsequentes e após realizações de exames de controle, observamos que as taxas de colesterol sanguíneos de Zé Milton tiveram uma melhora muito significativa, embora ele sempre se mostrasse indignado com “o preço da medicação”.
----Filho de Eronildes, esse remédio é muito bom, mas você quer me quebrar, vou ter que vender o “Miroró” para pagar a farmácia
Eu e ele sorríamos com a sua sovinice, mas eu mantinha a prescrição.
Passados vários meses usando a estatina cara do “Dr. Akira Endo”, Zé Milton me procurou e perguntou:
--- Marcondes, acho que nós poderíamos parar de usar esse remédio, meus exames já estão tão normais que, não vejo necessidade de ficar tomando esse remédio caro da bexiga.
Prometi que, em breve pensaria no caso.
Dias depois, conversando com nosso amigo comum Petrônio Barros, falei sobre a minha satisfação com os resultados dos exame de Zé Milton e do sucesso com o uso da estatina.

Sem perder a oportunidade, Petrônio, dono do laboratório clínico, onde Zé Milton realizava seus exames periodicamente, deu uma enorme gargalhada e me falou:
----- Zé Marcondes, descobri que o sacana do Zé Milton ficou amigo da moça que digita os resultados dos exames, e ele mesmo dita os resultados do colesterol, por isso estão tão normais.
Quando voltei a encontrar Zé Milton, demos boas risadas sobre suas traquinices bem humoradas, mas ele não perdeu a chance de me chamar a atenção:
---- Porra Marcondes, você com essas histórias de medicina dos Estados Unidos, só quer passar remédio caro! Eu não tenho condições não, homem.
Fato é que, meu amigo faleceria ainda muito jovem, em outubro de 1992, em decorrência de complicações imunológicas adquiridas possivelmente quando realizava o tratamento cirúrgico para “limpar” e refazer a circulação das artérias de seus coração, repletas das plaquinhas de gordura que um dia os jovens médicos russos, Alexander Ignatowski , Nicolau Anichkov, descreveram ainda no inicio do século passado na fria e chuvosa São Petersburgo.

Como está registrado na foto postagem, dia desses eu visitava a cinzenta Faculdade de Medicina de São Petersburgo na Rússia, onde os dois jovens médicos começaram a desvendar os “segredos da aterosclerose.
Por alguns instantes me lembrei do meu querido e inesquecível amigo, o doce Zé Milton e suas coronárias docemente gordurosas.

José Marcondes DeJesus é médico graduado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Sergipe.

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