SERGIPE ANTIGO - (CAPÍTULO VIII) - BISPO SARDINHA (parte um)

Sergipe Antigo. (Ciri-gy-pe – rio dos siris). (por Antônio Samarone)

Redação, 14 de Agosto, 2019

O Bispo Sardinha – Vigário Geral na Índia, chegou à Bahia em 22 de junho de 1552.

Segundo Câmara Cascudo, quando Tomé de Souza chegou a Bahia para fundar a cidade do Salvador, março de 1549, já encontrou mais de meio cento de portugueses, alguns casados com brancas, outros com mamelucas, a maioria dos machos mantendo o harém das fáceis cunhãs, submissas e curiosas. Diogo Alvares, o Caramuru, era sogro de cinco genros e muitas vezes avô.

Em 1549, junto com a comitiva de Tomé de Souza no Governo-Geral do Brasil, veio o médico Jorge Valadares, bacharel em medicina, nomeado para exercer o cargo de "Físico da Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos na Costa do Brasil”, permanecendo no cargo até 1553.

Jorge Valadares foi o primeiro médico diplomado a clinicar na Colônia. Em 13 de julho de 1553, na comitiva de Duarte da Costa, veio o segundo médico nomeado para o mesmo cargo, Jorge Fernandes, que era apenas licenciado em medicina, fez um curso de quatro anos e não defendeu as conclusões magnas (tese), portanto, não possuindo o título de bacharel. Em 1957, no Governo de Mem de Sá, o médico nomeado para exercer o mesmo cargo foi o bacharel-mestre Afonso Mendes.

Uma polêmica foi instalada, enquanto os dois médicos formados, bacharéis, Jorge Valadares e Afonso Mendes receberam respectivamente vinte e oito mil e oitocentos reis e vinte e quatro mil reis de vencimentos anuais da Coroa; Jorge Fernandes, apenas licenciado, recebera sessenta mil reis anuais de ordenado. Os três primeiros médicos que atuaram no Brasil eram cristãos-novos.

O Rei D. João III tinha um certo apadrinhamento com Jorge Fernandes concedendo-lhe um ordenado de marajá. Para efeito de comparação, um padre jesuíta, a menina-dos-olhos da Coroa portuguesa na Colônia, recebia anualmente um ordenado de vinte mil reis. O licenciado Jorge Fernandes, Físico do Salvador, quando deixou o cargo, permaneceu no Brasil até o seu falecimento em 1567, exercendo a medicina privadamente.

Duarte da Costa, armeiro mor do reino, chega a Bahia para substituir Tomé de Souza, em 13 de julho de 1553. Com a chegada do segundo Governador Geral, Duarte da Costa, acompanhado do seu devasso filho, Álvaro da Costa, os conflitos do Bispo acentuaram-se.

Duarte da Costa (1553 a 1558). Durante o seu governo, ocorreram vários distúrbios, motivados na sua maioria pelos conflitos envolvendo a escravização de indígenas. Os colonos tinham o apoio do Capitão-Mor, Álvaro da Costa, filho do governador.

Sua gestão conviveu ainda com a invasão francesa ao Rio de Janeiro, em 1555, onde foi fundada a França Antártica. Em seu Governo (1556) ocorreu a morte do Bispo e de sua comitiva, quando retornavam para Portugal (assunto dos próximos capítulos).

O primeiro bispado brasileiro foi criado pelo Papa Júlio III, com a bula "Super Specula Militantis Ecclesiae", em 25 de fevereiro de 1551, e para seu titular El-Rei d. João III indicou d. Pero Fernandes Sardinha.

Pelo interesse que o Bispo Sardinha tem para a história de Sergipe, foi nas costas sergipanas que ele foi deglutido pelos índios, vou detalhar quem foi o Bispo e como atuava. O cronista da Companhia de Jesus, padre Simão de Vasconcelos, assim descrevia o Bispo Pero Fernandes Sardinha:

"foi este prelado varão insigne em letras, e em virtudes, afamado pregador de seus tempos: estudara na Universidade de Paris, onde se graduou de doutor; foi mandado à Índia com o ofício de Vigário Geral, e pelo bem que nele se houve, mereceu ser eleito Bispo do Brasil, por El-Rei D. João o terceiro. Era dotado de grande zelo do serviço de Deus e das almas, e nele tinham posto os olhos e esperanças, os moradores de sua diocese.”

Por outro lado o sexagenário d. Pero era infernizado, briguento, e logo se indispôs com meia cidade, inclusive com os jesuítas, que não lhe perdoavam o pouco que ligava à vida escandalosa e nada exemplar que levavam os seus cônegos clérigos.

O primeiro bispo do Brasil, D. Pero Fernandes Sardinha atacaria muito os jesuítas por ouvirem confissões por meio de intérpretes, procedimento que ele julgava irregular.

Na visão de Almeida Prado, o Bispo Sardinha era virtuoso, mas afligido de temperamento exaltado, e do vezo de corrigir meio mundo, comum dos que procuram oportunidades para irritar e se irritarem.

Sardinha não tirava a palavra excomunhão dos lábios, e na Bahia era o avantesma do seu pecaminoso rebanho, que apavorava sem muito discernimento, perseguindo aos desafetos com terríveis ameaças a respeito da perdição futura, mais multas e penitências que sobre eles atirava, enquanto fechava os olhos sobre os deslizes dos que por cálculo ou fraqueza o lisonjeavam.

O Bispo Sardinha não se arreceava em fazer inimigos, e depois de feitos em enfrentá-los, mesquinhos ou poderosos, num exagero extravagante de catador de nugás e inconsciente semeador de discórdias" O Bispo não abria mão dos seus princípios.

Lycurgo Santos Filho, relata as desavenças do Bispo: historiadores e cronistas tornaram bem conhecida a acirrada contenda que, no Salvador, se travou entre o primeiro Bispo do Brasil, d. Pero Fernandes Sardinha e o segundo Governador Geral, d. Duarte da Costa.

As duas mais altas autoridades da Colônia dividiram a cidade, com suas quezílias, em duas facções poderosas, que poderosos eram os contendores. Cada um de seu lado, Bispo e Governador, injuriavam-se mutuamente, sem que pessoalmente a eles nada sucedesse.

Sofriam os partidários, que foram perseguidos, presos e espancados à ordem de um ou de outro, pois que ambos possuíam quase idênticos poderes. Como autoridade civil e militar, mandava e desmandava o Governador; como autoridade eclesiástica, o Bispo multava e confiscava e prendia quem bem quisesse, à menor suspeita ou denúncia de judaísmo e heresia.

Continua Lycurgo, D. Duarte da Costa, o Governador Geral, nobre palaciano, filho de um valido de D. Manuel, contribuiu por sua vez, com ações e palavras, para o desenrolar do conflito. Teve razão no início. Apoiado pelo padre Luiz da Gram e principais da cidade, procurou chamar o Bispo à razão, pedindo-lhe que fosse mais cordato, mais indulgente, não carregasse tanto nas multas e penitências.

D. Pero exasperou-se e num sermão, de modo velado, mas com endereço certo, pediu o castigo dos céus para os desregramentos sexuais de d. Álvaro (filho do Governador) e companheiros. O pai não gostou da pregação e, desde então, teve início a luta entre as duas principais autoridades da Colônia.

Quase todos os funcionários da Coroa e muitos dos "homens bons" da cidade, como Diogo Muniz Barreto, que foi Alcaide-mor da Bahia e provedor da Misericórdia, permaneceram fiéis ao Governador. O mesmo não sucedeu com o Senado da Câmara, onde grande parte dos camaristas tornou o partido do Bispo.

Trouxe Nosso Senhor o Bispo D. Pero Fernandes Sardinha, honrado e virtuoso, zeloso na reformulação dos costumes dos cristãos; mas quanto aos gentios e a sua salvação se dava pouco, porque não os tinha como o seu bispo, eles lhes pareciam incapazes de toda a doutrina, por sua bruteza e bestealidade, nem os tinha por ovelhas do seu curral. Nisso residia a principal divergência entre o primeiro Bispo e os Jesuítas.

D. Pero Fernandes Sardinha (1552 – 1556) – O Papa Júlio III, a 5 de fevereiro de 1551, pela bula Super specula militantes Ecclesiae, desmembra o Brasil de Funchal e cria uma diocese com Sé na Bahia de Todos os Santos.

D. Pero Sardinha antigo vigário geral na Índia, mestre em teologia, pessoa de boas letras e doutrina, chegou a Bahia em 22 de junho de 1552, vésperas de São João. O bem-vindo Bispo bateu logo de frente com os Jesuítas. Segundo Serafim leite:

O Prelado punha tacha em tudo quanto os jesuítas praticavam para a moralização da terra e catequização dos índios. Os jesuítas confessavam por intérpretes, reprovou tal uso; faziam disciplinas públicas, combateu-os; atacavam as mancebias, desculpou-as; ensinavam a doutrina no colégio, dispensou-o; aceitavam alguns costumes indígenas, decretou-o que eram ritos gentílicos. O Prelado fazia questão que os índios andassem vestidos.

A vida de D. Pero Fernandes Sardinha, no Brasil, é uma tessitura compacta de desavenças com o poder civil, com o seu Clero e com os Jesuítas.

A avaliação que Serafim Leite faz do primeiro Bispo do Brasil, D. Pero Vaz Caminha, não é positiva, considerava-o de caráter arrevesado, que liberava excomunhão como multas pecuniárias, e não possuía a indispensável incontinência da língua numa terra ainda em formação, onde a cizânia da intriga faria o resto.

O juízo que a história emite de D. Pero Fernandes Sardinha é severo.

Tendo, antes de chegar ao Brasil, dado boa conta de si, foi vítima do meio, inconsistente e em ebulição. Parece-nos que não chegou a compreender a terra. Tendo letras, não se serviu dela para o bem da catequese... Amigo do culto e de cerimonias litúrgicas solenes, não sentiu amor pelos índios.

Serafim Leite não poupou o Bispo Sardinha: uma virtude, porém, tinha o primeiro prelado do Brasil. Envolto num torvelinho de paixões, disputas e intrigas, ninguém invocou contra ele prevaricações em matéria de bons costumes. Mas isto não bastava...

Pero Fernandes Sardinha, filho de Gil Fernandes Sardinha e Lourença Fernandes, nasceu em 1495, natural de Évora, foi professor nas Universidades de Paris, Coimbra e Salamanca. Morreu aos 61 anos, em 1556.

No próximo capítulo tratarei da morte do Bispo, importante para a história de Sergipe.

Antônio Samarone.

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