As mulheres em Itabaiana. (por Antônio Samarone)

Redação, 17 de Agosto, 2019

Até a segunda metade do século XX, Itabaiana foi uma sociedade centralizada na mulher, uma sociedade matricêntrica. As mulheres camponesas lutavam pelo o mesmo status econômico e social dos homens. Em muitos casos, eram as líderes familiares.

Itabaiana era uma sociedade matrilinear, obedecia a um sistema de parentesco, de filiação, através do qual somente a ascendência (família) da mãe era tida em consideração para a transmissão do nome, dos benefícios ou do status de se fazer parte de um clã.

Numa tradição local, as pessoas eram nominadas com os nomes dos ascendentes. Por exemplo: João de Mané de Dona, Zé de João de Ana, Júlio de João de Sá Joaninha, e tantos outros. Nesses nomes compostos, que as vezes remontavam a várias gerações, a referência final sempre era feminina.

Mesmo com leis machistas: o Código Civil de 1916 considerava a mulher como um ser inferior, “relativamente incapaz”, necessitando de orientação e aprovação masculina. Um exemplo: o Art. 178 previa, que em dez dias, contados do casamento, o marido poderia anular o matrimonio contraído com a mulher já deflorada. O Art. 233, definia o marido como o chefe da sociedade conjugal.

Sei os limites dessa tese. Ao mesmo tempo que as mulheres exerciam papeis importantes na sociedade camponesa, a brutalidade e os privilégios dos homens imperavam. As mulheres lutavam e resistiam, bem antes da invenção do feminismo.

Entretanto, a divisão dominante da família onde o pai era o mantenedor, protetor, guerreiro que caçava e guardava a prole, e a mãe gerava, acolhia, aquecia e alimentava a ninhada, não era a famílias dominante em Itabaiana, até primeira metade do século XX.

Itabaiana era uma sociedade matricêntrica. As mulheres não estavam em desvantagens só por serem mulheres, o poder era disputado entre os gêneros, e as mães muitas vezes estavam no centro da cultura.

Segundo Malinowski, nas sociedades que usavam o sistema matrilinear de parentesco, as mulheres possuíam um papel importante na vida da comunidade, liderando-a em muitas áreas.

Historicamente, o patriarcado é mais jovem. A sociedade humana foi primeiro matriarcal – ou pelo menos “centrada nas mulheres” e adorava deusas – da era Paleolítica, 1.5 a 2 milhões de anos atrás, até por volta de 3000 a.C.

Friedrich Engels, em sua obra "Origem da família, da propriedade privada e do estado", de 1884, afirma que o controle da propriedade privada foi quem permitiu a substituição do matriarcado pelo patriarcado nas sociedades primitivas.

Trocamos o matrimônio pelo patrimônio.

Itabaiana aguarda os pesquisadores...

Antônio Samarone.

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