O Ouro da Serra

Por Antônio Samarone

Redação, 27 de Novembro, 2019

Itabaiana é uma grande feitoria. A sua riqueza provém de um comércio forte e criativo, do transporte de cargas e da sua gente trabalhadora. Itabaiana é um nicho do capitalismo mercantil e da acumulação primitiva.

Tudo começou na década de 1950 com dois grandes acontecimentos: a chegada da BR-235 e a construção do Ginásio Murilo Braga. Vou falar sobre o Ginásio.

O ensino moderno chegou tarde à Itabaiana: “O Grupo Escolar Guilhermino Bezerra (1937), foi o primeiro sinal de civilidade”, segundo o historiador Zé Almeida.

Em 1949, surgiu um grande pilar de desenvolvimento: a criação do Colégio Murilo Braga. Um ginásio público chegou à Itabaiana. A Lei nº 212, de 29 de novembro de 1949, criou o ensino secundário em Itabaiana.

Em 27 de dezembro de 1953, formou-se a primeira quarta série do curso ginasial, constituída de apenas 20 alunos. Em 1954, começou o ensino do pedagógico e em 1969, o curso científico.

A escola pública mudou a feição da cidade, facilitou a inclusão social e criou uma esperança de ascensão às camadas subalternas. Pobres, ricos e remediados vestiram a mesma farda, frequentaram as mesmas salas de aulas e tiveram os mesmos professores.

O Murilo Braga foi um berçário de cidadania.

Ainda são fortes em minhas lembranças a alegria de ter passado no exame de admissão e o primeiro dia de aula, quando subi os degraus do Ginásio com a minha farda de brim caqui e sapatos plásticos. Claro, não era o Caqui Floriano, nem os sapatos eram o vulcabrás 247, mas eu fiquei vaidoso do mesmo jeito.

Os sapatos plástico eram uma novidade tecnológica. Bem mais baratos. O incomodo eram a quentura e o chulé em estado líquido. As meias pingavam.

Frequentar o Ginásio Murilo Braga me deu um status de pertencimento: eu não era nem pior nem melhor do que ninguém. Saí do Beco Novo e da Rua do Fato para o mundo. Tomei gosto pela leitura. Virei usuário da biblioteca do Padre. Peguei livros emprestados. Entendi que só a escola me salvava.

Foi no Ginásio que tive o meu primeiro tênis conga azul com biqueira, para as aulas de educação física do professor Labodí.

Todos vestíamos a mesma farda, e isso tinha uma grande simbologia. Aos sábados pela manhã, ao final das aulas, os meninos fardados podiam entrar na Associação Atlética, mesmo que os pais não fossem sócios. Mesmo assim, eu não ia...

Estamos comemorando 70 anos dessa realização. A geração que se fez gente pela escola pública, agradece aos que contribuíram.

Agradeço a todos os professores. Guardo na memória Terezinha, Lourdes, Gabriel, Guga, Clodoaldo, Zé Costa, Arnaldo Fominha, Manteiguinha, Marli, Ofenísia, Anito, Rivas, João de Deus e Edgar.

Agradeço aos funcionários: Nilo Base, Otaviano, Lula, Enéas, Bonito, Lourdes, Creusa e Isaltina, em especial a eterna secretária Dona Lilia.

Agradeço a exemplar diretora, Dona Maria Pereira. Sempre justa, disciplinadora, competente. Dona Maria Pereira tinha a cara da disciplina. Ela não precisava falar, bastava a presença, ou a possibilidade da presença. Devo muito a Maria Pereira, agradeço até mesmo os castigos, quando era expulso das aulas. Suspensão, só tomei uma de três dias. Justíssima!

Agradeço a minha mãe que me botou na escola e exigiu a minha frequência. Ela olhava o boletim. Quando meu pai falava em me levar à roça, ela saia em defesa: ele não vai! Amanhã tem aula. E papai calava-se!

Viva a escola pública! Viva o Colégio Estadual Murilo Braga!

Antônio Samarone.

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