AS MENINAS DE MARIQUINHA

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Peixoto, 04 de Janeiro, 2020 - Atualizado em 04 de Janeiro, 2020

AS MENINAS DE MARIQUINHA

Mariquinha era uma senhora casada com Seu João Corisco, ambos remanescentes de escravos. Residiam no Pov. Corisco. Com a morte do casal, a estreita faixa de terra com o casebre ficou sob o poder de seus filhos e filhas.

Como a terra era pouca e ruim, e a pobreza era extrema, as meninas resolveram fazer doces para vender, já que residiam numa encruzilhada de duas estradas movimentadas, a de Candeias para Itabaiana e a de Igreja Velha para o Pé do Veado. Não havia assistência social, nem aposentadoria para os idosos; eram tempos de muita fome e miséria.

O doce das meninas de Mariquinha começou a pegar fama, atraiu mais compradores e, em pouco tempo, já era conhecido de todos os que passavam por ali, de carro, de carroça, a cavalo ou a pé. Todos tinham parada obrigatória, no terreiro das meninas, onde um pote de água fresca dava as boas-vindas aos visitantes. Bancos de madeira e uma ou duas mesas davam descanso aos transeuntes. Havia muita sombra e o local era agradável. Os desocupados passavam a s tardes jogando dominó.

As meninas de Mariquinha eram compostas das mulheres Edite, Cecília, Hermenegilda, Júlia, Agripina, Jocelina e Terta. Esta era paralítica, mas a principal doceira. Seus irmãos eram Tranquilino, Elpídio e José Luiz, que era casado e morava fora. Os homens negociavam legumes e farinha, em Aracaju e em Japaratuba. Passavam o fim de semana fora de casa. As mulheres se viravam e davam conta de se manter com o resultado dos doces. Elas ainda criaram uns quatro ou cinco sobrinhos. Algumas delas se casaram, mas ficaram viúvas novas ou se separaram.

Havia sempre duas ou três delas doentes, acamadas, e a casa era limpa, o terreiro era varrido, a água era abundante e quase gelada e os doces não faltavam. Além disso, a casa era repleta de pessoas que encomendavam doce de batata-doce para o Sudeste e o Sul do país. As meninas se viravam mesmo!

Terta era uma doceira de mão cheia. Para se locomover, sentava-se num tamborete e dava impulso ao mesmo, fazendo-o deslocar-se para onde ela desejasse. Mexia um tacho de doce de batata, de massa para os manauês de milho, como se fosse totalmente sadia. Era toda entrevada de dor. Depois de esfriar, embalava as encomendas com um jeito todo especial e delicado.

As latas de leite em pó vazias chegavam aos montes. Algumas amigas da cidade juntavam-nas e lhas mandavam, pois sabiam que as doceiras as usavam em grande quantidade, para enviar suas encomendas para a capital ou para os estados do Sul. Papel celofane (papel de manteiga), papel chumbo e cordão eram outros utensílios bem usados, a fim de dar acabamento ao doce de batata, que virava uma barra, semelhante ao sabão em pedra.

A casa era a mais animada da estrada. Ali havia sorrisos, estórias, pilhérias, conversa fiada, além das últimas que se sabiam na feira. O melhor, porém, eram os doces de coco, de batata-doce, de mamão e os manauês de puba, de macaxeira e de milho. Havia, de quebra, cocada puxa, bem morena, com aquele gostinho que ainda hoje dá água na boca. As meninas de Mariquinha foram criativas e fundaram a primeira doceria da região. As tardes de sábado e domingo tinham sabores especiais, na casa das meninas de Mariquinha.

Essas mulheres acolhiam todos os passantes, dentro de casa, e nunca lhes aconteceu mal algum. Eram tempos outros, em que as pessoas dormiam e acordavam, sem fechar a porta, pois não havia a bandidagem de agora.

A morte também as visitou. Edite viveu cem anos! Uma a uma, porém, foram-se despedindo, até que as remanescentes vieram residir na cidade. O local onde moravam ficou perigoso demais. Os ladrões não davam tréguas a quem tanto deu pouso e alegria, à beira da estrada.

O local de encontro com sabor e alegria quedou-se áspero, sisudo e triste. Não há mais doce de batata-doce, nem manauês, nem água fria; os bancos de madeira e suas mesas despareceram. A porteira se trancou e a casa das meninas de Mariquinha ficou na memória de um tempo doce e bom, cuja alegria era a marca principal.

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