PENSAR O BRASIL DE NOVO

Por Manoel Moacir

Redação, 10 de Janeiro, 2020 - Atualizado em 10 de Janeiro, 2020

No novo ano, irradiam sonhos, profecias e desejos. Tempo estimulante para ir além dos festejos: Pensar o Brasil. A democracia acolhe as diferenças e respeito aos vitoriosos. A soberania popular, elege osmandatários e projetos de bem-viver num tempo certoe determinado. Aos vencedores “não fazer o mal, mas fazer o bem”. Democracia, liberdade e humanismo, são conquistas pétreas da civilização.

 Na perspectiva da pós-materialidade, “a humanidade está na espera, uma força irresistível que a impele para a frente; ela está como um jovem saído da adolescência, que entrevê novos horizontes”. Expressões de superação do atraso, desigualdade, violência, guerras, protecionismo e acirrada competitividade em sociedades globalizadas comganhos em escala e acumulação de capital. A “solidariedade social” garantidora da coesão humana, mostra sinais de anomia, a exemplo da polarização ideológica, ódio, insensatez, guerra, e intolerância.Retrocessos às garantias e direitos individuais, estão ameaçados. O cimento que concreta o tecido social e solidifica o viver humanitário, apresenta avarias ecisões. Para os cientistas sociais, isso significa, a“modernidade líquida”, de pairas sociais, consumismo, egoísmo, horror aos contatos humanos, autonomia de algoritmos, big data, e idolatria aos shopping centers.

 Estamos inseridos em cadeias globais poderosase independentes dos nossos quereres. O local está interligado ao global, um dependente do outro. Oinverso é o isolamento da civilização. Carecemos dos valores pregados numa sociedade forjada pelo sinal da cruz e da santa missa. Violência, fome, desemprego, pobreza e miséria, definem o sobreviver dos pobres e majoritários na arena global. Uma divisão abismal entre “ter e ser”, e os “que tem e não tem”. Um consentimento silencioso perante a enorme desigualdade entre “ditos irmãos”, paridos na mesma pátria. No sentir da metodologia da ciência, não existeuma teoria para o Brasil. Conteúdos fidedignos são esperados, na direção do progresso e da justiça, apartados de opiniões desprovidas de evidências,métodos e generalizações.

Um projeto para o Brasil, como Estado-nação e soberano, que acolha o rol dos brasileiros, é urgente edesejado, independente das paixões partidárias e interesses corporativos. Não é uma tarefa simples, mas necessária. Não é fácil, mas possível. Não é imediato, mas esperado. Não é inédito, mas conhecido. Não é utópico, mas real. O inverso, poderá ser a ruptura e a desagregação social. Indesejável para todos, principalmente para os aquinhoados e distinguidos. O Brasil como uma Nação, carece de um rumo organizado, consistente e duradouro, que ultrapasse a economia primária-exportadora, numa dependência consentida, ainda que tenha assento entre as dez maiores economias planetárias, mas persiste nos últimos lugares, na intolerável distribuição da riqueza, na educação, na saúde, segurança e expectativas de viver. A sociedade global, longe da especialização emcommodities minerais e agrícolas, está lastrada noconhecimento, na inovação, na informação, no “chip e não no chifre”.

 A última geração de brasileiros que pensou o Brasil com profundidade, faz mais de meio século. Ela foi parida no contexto da Segunda Guerra Mundial. Tempo de ruptura, “mudança de época”, quebra de velhos apetrechos, de novos arranjos, e renovados mapas mentais. Eles não escreveram utopias empapers, e nem formularam estruturas burocráticas para albergar os estratos urbanos e privilegiados da elite, muito menos teorizaram sonhos inalcançáveis. Eles formataram com competência e altruísmo, um conjunto de projetos transdisciplinares, com diagnósticos,objetos, métodos, teorias e resultados esperados. Especificaram as ações e ferramentas para acolher as múltiplas demandas dos brasileiros, principalmente os carentes e subalternos, dependentes dos serviços e incentivos do Estado em sua grandiosidade organizacional e promotor do desenvolvimento, que retarda a chegar. 

 Independente de colorações ideológicas e partidárias, livres de neutralidades, intelectuais patriotas, ativos e comprometidos com a complexa brasilidade, deixaram contribuições substantivas, que sobrevivem na atualidade. Elas ultrapassaram o tempo e o ambiente hermético da rede científica, para “ir onde o povo estar”. Destaque para Gilberto Freyre, o percursor da sociologia brasileira. Os seus construtosgravitavam “na família extensa da casa-grande, como um espaço integrador da enorme desigualdade”, incluindo a utópica democracia racial. Sérgio Buarque, atuou no contexto da “cidadania e modernidade” e nas raízes do Brasil. Caio Prado no entendimento da “economia dinâmica e acelerada modernização industrial”. Celso Furtado no subdesenvolvimento de “uma economia dinâmica e acelerada modernização industrial”, e as desigualdades regionais. Ignácio Rangel na “tese da dualidade e no planejamento econômico”. Darcy Ribeiro lutou até a morte pela“educação pública e defesa das populações mais fragilizadas”. Eles não testemunharam os testes das hipóteses, muito menos os resultados, ao contrário, muitos foram abandonados nos rastros do tempo, e apartados do status quo.

 Eles pensaram o Brasil, com fervor e patriotismo, a partir da inegociável democracia, liberdade de expressão, e demandas dos brasileiros. Esses notáveis, não estão entre nós sob “provas e expiações”, as suas obras e legados, sim. Algumas foram escritas em rochas e permanecem disponíveis, outras foram arquivadas e esquecidas nas prateleiras do tempo. Estão em outra dimensão, após cumprirem a iluminada missão terrena, com o álibi do dever cumprido, mas fazem falta. As dificuldades e sofreres dos brasileiros, não foram superadas, continuam agravadas em agudas carências e necessidades. Outros pensadores, surgiram, não sei onde, o que fazem, e se estão pensando sistematicamente o Brasil na mesma intensidade, energia e grandeza. O que sei, é que os brasileiros não podem esperar, por um projeto para o Brasil, num dia qualquer, “do novo ou do velhoano”.

Manoel Moacir Costa Macêdo

Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brigthon, Inglaterra

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