Os manuscritos de Zeca Cego. (por Antônio Samarone)

Redação, 19 de Janeiro, 2020 - Atualizado em 19 de Janeiro, 2020


Foram encontrados nos escombros da igreja velha, no povoado Cova da Onça, um velho caderno que se acredita ter pertencido ao mais antigo comunista de Itabaiana.

Transcrevo para os curiosos, alguns trechos soltos do manuscritos, sem pretensões de expressar um pensamento unitário, com começo meio e fim. São anotações avulsas.

Escreveu o velho Zeca Cego:

Todo revolucionário acaba como opressor ou herege.

O culto Jacobino da razão, racionalizou até a irracionalidade...

Prometeu foi o primeiro homem a rebelar-se contra os castigos divinos. Ele não aceitava a punição. Clamava o seu ódio aos deuses, voltou-se para os homens, incentivando-os a tomarem o céu de assalto.

A revolução francesa matou o Rei, a filosofia alemã matou Deus! Os jacobinos pregavam a virtude absoluta, mas foram obrigados a matar.

A filosofia de Hegel destruiu toda a transcendência. Deus estava morto, mas era preciso sepultar a moral dos princípios onde se encontrava a memória de Deus. Toda a moral se tornou provisória.
A moral e os princípios foram substituídos pelos fatos.

Darwin substituiu Linneu e Hegel substituiu toda a filosofia idealista. Era o fim da natureza humana definitiva. Através da dialética, o homem se transformou num processo em construção. O homem passou a ser uma aventura, da qual é em parte o criador.

Se não existe natureza humana, a maleabilidade é infinita. O homem pode ser tudo ou nada. Freud restabeleceu ID, o inconsciente.

O homem aspirou a divinização, nasceu o humanismo. Segundo Hegel, a luta passou a ser pelo reconhecimento do outro. A luta só irá cessar com o reconhecimento de todos por todos. É o fim da história.

Ocorre que nada é capaz de desencorajar o apetite pela divindade no coração humano.

A consciência que, para preservar a vida animal, renuncia a vida independente é a consciência do escravo. Quem nunca leu Hegel, não entenderá Marx.

Lenin subordinou a espontaneidade das massas a teoria, baniu a moral da revolução. Ele acreditava que o poder revolucionário não precisava respeitar os dez mandamentos.

Lenin só acreditava na virtude da eficácia, combatia todas as formas sentimentais da ação revolucionária. Ele não esquecia a derrota da Comuna de Paris.

Ocorre que a revolta humana é a recusa em ser tratado como coisa, de ser reduzido a simples história. A natureza humana escapa ao mundo do poder. É uma revolta metafísica!]

Zeca Cego terminou quase místico, não perdia nem as trezenas de Santo Antônio, nem as vias-sacras, onde ele brandia com fervor a sua matraca enferrujada.

Antônio Samarone.

O que você está buscando?