INCOERÊNCIA NA IGREJA

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Peixoto, 20 de Janeiro, 2020 - Atualizado em 20 de Janeiro, 2020

INCOERÊNCIA NA IGREJA

 

A renúncia do Papa Bento XVI, em 2013, reacendeu uma faculdade papal esquecida há mais de seis séculos, a possibilidade de desistir do pastoreio. Entretanto, em seus primeiros gestos ficavam nítidas as intenções do então renunciante de permanecer como uma espécie de governo paralelo, pois não abdicou de residir no Vaticano, nem de se desfez do traje papal, nem do nome que adotou ao ser eleito para a Cátedra de Pedro.

Contrariando a mentalidade de Bento e de seu enorme número de seguidores e admiradores, Francisco, jesuíta literato e servidor do povo de Deus, tem mostrado o rosto misericordioso de Cristo, para se colocar na sociedade como alguém disposto a servir, sentir de perto os problemas sociais, as dores e as angústias do povo de Deus. Para Francisco, a pessoa é mais importante do que a doutrina, pois esta está a serviço da pessoa, e não o contrário.

As últimas tentativas de Francisco de tornar a igreja mais qualificada para prestar serviços na Amazônia causaram grandes rumores na ala conservadora da igreja, sobretudo nos seguidores de Bento. Para essa gente, bastante preparada intelectualmente, a doutrina está acima das pessoas. Celibato não e doutrina, mas uma disciplina que foi inserida na igreja muito posterior ao surgimento dela. Antes, durante dez séculos não havia essa exigência. Mas o celibato bem vivido tem seu valor, embora não passe de mera imposição disciplinar.

Como Francisco, assim também Paulo VI, demonstrou a intenção de discutir o assunto, sobretudo a partir dos inumeráveis escândalos relativos à pedofilia encobertos por boa parte dos defensores do celibato, os ultraconservadores saem, servindo-se do papel do papa paralelo, em ataque covarde a Francisco, na tentativa de mitigar a intenção do pontífice.

Trata-se de um ataque à comunhão eclesial, à comunhão com o Papa. Este é o nó da questão. Quando Bento oficial e legitimamente reinava, essa turma insistia em gritar aos quatro ventos da humanidade que sem a comunhão como o papa não há igreja. Agora, quando Francisco, servo do amor misericordioso e sensível aos pobres, autêntico seguidor de Cristo, está tentando empreender uma reforma necessária, para que a igreja se adeque à atualidade, sai o Cardeal Sarah, originário da Guiné, em declarado conflito com o papa atual, utilizando-se da condição de Bento. Triste e inconteste incoerência.

Como nem Sarah, nem os servidores imediatos de Bento assumiram a real autoria do livro lançado e escrito “ a quatro mãos”, dando aparentes sinais de má intenção, Francisco, o Papa da misericórdia, parece sair mais fortalecido desta situação vexatória que o Cardeal Sarah suscitou. Seus opositores, porém, ao que tudo indica, usaram de má-fé ao firmarem o nome de Bento na Obra sobre o celibato. Mister lembrar que o Cardeal Sarah é oriundo da Guiné, um país paupérrimo, ao qual deveria, de forma profética dedicar-se, para aliviar as dores de sua gente, por uma luta igual à de Francisco. Ao invés, prefere defender a doutrina reacionária, opondo-se ao papa. Péssimo exemplo!

A humildade de Francisco parece ser bem maior do que a empáfia de seus opositores. No fim, o bem sempre vence o mal. Francisco continuará seu ministério, iluminado pelo Espírito Santo, tentando preparar a Igreja para falar ao mundo de hoje, por meio de um cuidado especial ao povo de Deus e à natureza.

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