APELO AO ALÉM

Manoel Moacir Costa Macêdo

Redação, 24 de Janeiro, 2020

No ano que se inicia, não sei mais a quem recorrer. Fiz orações, cultos, juras, penitências,promessas e pedidos. Escrevi a Papai Noel, não respondeu. Não foi uma surpresa, ele nunca visitou Rio Real, nem atendeu os pedidos de crianças pobres. Apresentei propostas, com teorias, hipóteses e métodos, não recebi retornos, nem dos intelectuais. Escrevi artigos em jornais, falei em rádios, ministrei palestras, não obtive respostas, nem de letrados, nem de populares. Conversei em cafés, almoços, templos, e jantares, com influentes e formadores de opinião, nada aconteceu. Participei de assembleias, conferências, e seminários em organizações governamentais, não-governamentais e do terceiro setor, nenhuma decisão foi acolhida. Nada posso fazer, exceto apelar ao além - possuo apenas a vulnerável mão-de-obra.

 
Nesse “País tropical e bonito por natureza”, domina o imobilismo. Uma letargia pactuada. Ações transformadoras são abortadas. Movimentam asdemandas corporativas, fortificantes do status quovigente. Está fora da agenda inclusiva, a educação, o conhecimento, a produtividade, e a mobilidade social.Os apelos, nunca chegam aos programas de rádio e televisão nas manhãs do verão nordestino, não tocamos corações e mentes dos governantes, e nem estãonas pautas das tribunas populares. Nada acontece. Nenhuma mobilização, nem mesmo as manifestaçõespatrocinadas pelas estruturas contestatórias de ofício. Vence o sistema de controle, interesse, e submissãonuma parceria infeliz entre desigualdade e obscurantismo.

 

Cheguei a propor, o carnaval, como o modo de bem-viver, similar as iniciativas da cidade maravilhosa, da primeira capital brasileira, e do galo da madrugada. Não tive respostas. Talvez, esteja fora do eixo, tal qualas persistente carências, distantes do iluminismo, como o analfabetismo, o corporativismo seletivo e os privilégios estatais. Outras como a corrupção, vêm de longe: “no século II a.C., o império romano não conseguia processar as acusações de corrupção”.

 

O que fazer? Abandonar tudo. Debruçar na janela “pra ver a banda passar”. Abortar a indignação. Fechar os olhos. Cruzar os braços. Deixar o movimento dahistória na sua temporal sabedoria. Explodir de indignação, a exemplo dos vizinhos latinos e do Oriente distante. A revolução encolheu como estratégia de mudança social, mas, as manifestações e surgimento de novas lideranças estão hibernadas. “Quando as ruas falam, a história ouve”. Um último apelo comportado, dessa vez, não será aos viventes terrenos, mas “aos doalém”, no universo sideral. Neles, deposito o último testemunho de confiança e credibilidade. Eles são invisíveis, desconhecidos, sem nomes, e sem medo da transformação em sua radicalidade - “doa a quem doer”. Não temem os tribunais que julgam, as baionetas que matam, nem os que é “dando que se recebe”. A contabilidade é invisível e imaterial - noutro plano existencial. As recompensas, na dimensão da pós-materialidade. A dúvida, é a quem dirigir o apelo. Em face da urgência, será enviado um WhathsApp, aoagregador divino da liberdade, da igualdade e da fraternidade: o Grande Arquiteto do Universo - GADU.

 

“Venerabilíssimo GADU, após reiterados pedidos aos terrenos, ‘em pé e a ordem’, encaminho pela última vez esse apelo. No País onde ‘Deus é brasileiro’, não haverá futuro com a vergonhosa desigualdade, educação sofrível, doenças de pobres, desemprego, violência, corrupção, meio ambiente em chamas e uma elite sem projeto de nação. Fome, miséria, sofreres, e agonia persistem entre os desiguais, apesar de guiados pelo ‘livro da lei’. Tempo de desorientação e descuido com as pessoas. Suplico avaliar com Alá, Buda, Cristo, Jeová, Krishna, Maomé, Caboclos, Índios, e Pretos Velhos, o que fazer com esse País. A esperançapor aqui morreu. A coesão social está deteriorada. A paciência em chamas. O levante das massas é provável. A ruptura uma possibilidade. Aguardo o retorno urgente, com conselhos, projetos, métodos, recursos, equipes, e resultadosesperados. Um tríplice e fraternal abraço - TFA”.

Manoel Moacir Costa Macêdo

Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra 

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