Loucos de todos os gêneros... (por Antonio Samarone)

Redação, 05 de Março, 2020

Para evitar polêmicas bizantinas: não sou psiquiatra. Fiz recentemente um curso de 740 horas em psiquiatria, que não me confere o título de especialista. Nem eu quero! Legalmente, qualquer médico pode prescrever as drogas usadas na psiquiatria e muitos assim o fazem.

Como a minha tese de doutorado em sociologia (UFS) será sobre o suicídio, tenho refletido muito sobre a realidade dos transtornos mentais no século XXI. Falam numa epidemia de ansiosos e deprimidos.

O manual americano, DSM, descreve mais de trezentos transtornos mentais. Tem para todo mundo. Se examinar direito, ninguém escapa.

O pesquisador inglês Nikolas Rose, em seu livro “Nosso Futuro Psiquiátrico”, defende: “a psiquiatria está tratando as angústias comuns ao ser humano com drogas. Os efeitos são exagerados; os riscos desconhecidos – resultando numa geração de dependentes.”

Uma tese que precisa ser aprofundada.

Segundo o cientista inglês, a psiquiatria sempre se envolveu com questões políticas e sociais. Os primeiros eliminados nos campos de concentração nazista foram os loucos. Argumentos psiquiátricos embasaram a eugenia. Os grandes manicômios segregam todos os indesejados. Os dissidentes políticos nos regimes totalitários, são tratados como doentes mentais.

Além de assistir aos que padecem de transtorno mental, a psiquiatra cria uma narrativa sobre os desajustados. Elabora um discurso etiopatogênico sobre as causas. Estabelece as fronteiras entre o normal e o patológico no comportamento das pessoas.

“De perto ninguém é normal!”

No século XXI, a indústria farmacêutica já disponibiliza drogas poderosas para alterar o funcionamento mental. A curto prazo, o “barato legal” e o bem-estar psíquico podem ser alcançado quimicamente. A questão é a dependência. O “doping” psíquico virou a saída? Nesse aspecto, drogas legais e ilegais se equivalem.

A psiquiatria dispondo de recursos farmacêuticos, demanda crescente, discurso “científico” e legitimidade social, não se acanha em medicalizar todo e qualquer sofrimento mental.

Por outro lado, diante do vazio, da perda de sentido da vida, do isolamento social, do “mal estar da civilização”, dito pelo velho Freud, as pessoas procuram uma saída química.

Claro que isso é uma síntese, a realidade é bem mais complexa.

A discussão atual não é sobre a antipsiquiatria de Franco Basaglia, na Itália da década de 1970, onde se negava a existência das doenças mentais. A doença era uma invenção política e os hospitais deveriam ser fechados. Só existem sofrimentos mentais, era a tese. A doença pode gerar um estigma, diziam os mais puros.

Essas premissas embasaram a reforma psiquiátrica brasileira.

Houve uma inversão. A tese da antipsiquiatria de que, nenhum sofrimento mental é doença, se transformou na tese da psiquiatria de mercado em que “todo sofrimento mental é doença". Qualquer mal-estar mental, deve ser tratado como doença. Atenção, mudaram o nome de doença mental para transtorno ou distúrbio mental, para evitar maiores polêmica. No tempo de Freud já existiam as neuroses e as psicoses.

A psiquiatria de mercado afirma: “já entendemos a natureza dos distúrbios mentais e já temos meios eficazes de tratá-los e tais meios devem estar disponíveis a todas as pessoas do mundo. O pesquisador inglês acha que ambas as afirmações estão erradas. Nós não entendemos o transtorno mental, nem temos meios eficazes de tratá-lo.”

Aberta a polêmica...

Antonio Samarone.

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