Isolamento Social ou Cloroquina? (por Antonio Samarone)

Redação, 20 de Maio , 2020 - Atualizado em 20 de Maio, 2020


O Brasil está dividido em duas estratégias conflitantes, quanto a forma de enfrentamento a Pandemia. O Vírus tira proveito e corre solto.

A primeira, comandada por Estados e Municípios, onde, na ausência de vacina e tratamento seguem a orientação da OMS, decretando o isolamento social e, nos casos mais graves, o lockdown.

A segunda, comandada pelo Governo Federal, condena o isolamento social por afetar a economia. Entende que a doença não tem a gravidade apregoada pela imprensa e que existe um tratamento eficaz.

A cloroquina faz parte do protocolo do Ministério da Saúde, por decisão do Presidente da República. O laboratório do Exército está produzindo o medicamento em larga escala. É uma política do Governo.

Os dois grupos travam uma guerra encarniçada nas redes sociais, onde vale tudo. Não existem sinais de entendimento.

O isolamento social encontra a resistência natural das pessoas afetadas economicamente. Em outros países, o Governo toma medidas de ajuda econômica, para a redução desses agravos.

No Brasil, essas medidas são de competência do Governo Federal, que é contra o isolamento.

O isolamento social encontra resistência das pessoas, que por sua condição social, não podem cumpri-lo em condições dignas. Uma coisa é o isolamento em um condomínio fechado na praia, outra é o isolamento numa vila de quarto, em habitações desumanas.

Segundo Guilherme Benchimol, Presidente da corretora XP: o pico da doença já passou para a classe média e alta. O desafio é que o Brasil é um país com muita comunidade, muita favela, o que acaba dificultando o processo todo.” A doença agora é só dos pobres.

A onda negacionista é essa percepção de se estar fora de perigo.

O isolamento social encontra resistência ideológica dos que acreditam que a cloroquina seja eficaz no tratamento da doença e, vão além, que o medicamento possui uma ação preventiva.

Não é uma crença de gente desinformada. Muitos médicos além de prescreverem, se necessário, usam preventivamente. Trump não está só. A cloroquina já é distribuída para pessoas com sintomas leves, que são acompanhadas em suas casas.

Eu não discuto mais sobre a cloroquina.

Mesmo que ela não possua nenhum efeito químico sobre a covid - 19, possui o efeito placebo. É cientificamente comprovado que existindo uma crença forte num medicamento, ele funciona pelo efeito placebo. Acreditando, as pessoas se sentem melhor.

A história natural da covid – 19 aponta que 95% dos casos são leves e assintomáticos, vão evoluir para a cura, com ou sem remédios. Dos 5% de casos graves, uma parcela menor vai lotar as UTI, e desses, uma parcela morre. Claro, tem os que morrem sem acesso aos respiradores das UTI.

A tragédia é que essa minoria que morre é muita gente. Por isso luto pelo isolamento social, por acreditar que essas mortes podem ser reduzidas e o isolamento ajuda.

A vida sempre valeu pouco no Brasil.

A Pandemia exacerbou a escolha entra a vida e a economia. Os estragos econômicos são apontados pelo Governo Federal e pelo empresariado. Eles estão acontecendo no mundo.

Os que são contra o isolamento social apostam que depois, quando a tempestade sanitária passar, quando os mortos estiverem sepultados, quando a situação econômica piorar, o desemprego assolar, a miséria bater em muitas portas, haverá um desespero. Ninguém vai morrer de fome com os braços cruzados.

A luta política pela responsabilização da tragédia está em seu início.

Por outro lado, a opção de deixar a Pandemia cumprir o seu ciclo, sem isolamento social, que a população se imunize pelo contato, se mostrou uma desgraça maior para quem tentou.

O lockdown em Sergipe é impraticável. o Estado, felizmente, não tem a capacidade repressora necessária, nem detém a legitimidade para exigir sacrifícios de ninguém. Eles não conseguem por decreto, nem um isolamento social aceitável.

O desentendimento social em Sergipe chegou a extremos.

O povo desconfia até dos políticos testados positivos, mesmo eles apresentando o resultado dos exames. Acham que são todos saudáveis ou com sintomas leves. Ficam simpáticos, podem desaparecer por 15 dias e o vírus deles é manso.

Os ricos não querem o lockdown porque não precisam, não se sentem mais ameaçados com a Pandemia, acham que o pior já passou.

Os pobres têm medo da Peste, mas desconfiam do Estado. Acham que eles receberam muito dinheiro do Governo Federal para a Pandemia e estão tirando proveito.

O povo tem razões para a desconfiança:

"Nós sempre morremos à míngua, os serviços de saúde sempre nos foram negados, sempre enfrentamos filas intermináveis por um exame, por uma ficha para um médico. E agora o estado que defender a nossa saúde"?

A vida vale pouco no Brasil.

A ausência de uma estratégia unificada e de líderes acreditados, apontando os caminhos, agrava a Pandemia no Brasil.

O resultado é um Estado errático e inconsistente, incapaz de proteger grande parte da população da doença e dos efeitos econômicos da pandemia.

Antonio Samarone.

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