Médicos e Padres nas Pandemias. (por Antonio Samarone)

Redação, 23 de Maio, 2020

O Jornal Nacional de ontem (22/05) informou que a Pandemia já matou 103 médicos no Brasil. A imensa maioria, por mortes evitáveis, se o trabalho estivesse sendo realizado dentro das normas de segurança.

Chama a atenção a naturalização dessas mortes. A indiferença social. O fato é encarado como soldados morrendo numa guerra. As mortes dos médicos são evitáveis.

As duas maiores entidades médicas (CFM e AMB), não tocam nesse assunto.

O Sindicato dos Médicos de São Paulo criou um memorial, para não deixar essas vidas no esquecimento.

O Doutor Juvenal Urbino, perdeu o pai, também médico, na Peste Asiática (Cólera) de 1856. A Peste virou uma obsessão.

O Doutor Urbino convivia com a Peste:

“Cada um é dono de sua própria morte, e a única coisa que podemos fazer, chegada a hora, é ajudá-lo a morrer sem dor e sem medo.” “O meu medo é de não encontrar Deus na escuridão da morte.”

“É mais fácil suportar as dores alheias que as próprias.”

“Por pura experiência, sem fundamentos científicos, o doutor Juvenal Urbino sabia que a maioria das doenças mortais tinha um cheiro próprio, e nenhum tão específico quanto o da velhice.”

Para quem esqueceu o Doutro Juvenal Urbino, ele é o personagem principal do clássico “El amor en los tiempos del cólera”, de Gabriel Garcia Marques.

Por falar em guerra.

A Guerra da Cloroquina, que dividiu os médicos, teve o lado positivo. Tornou claro como os protocolos são elaborados. O que está por trás das justificativas científicas, o jogo de interesses, quem ganha e quem perde. Uma certeza, o paciente é um detalhe nesse processo.

O Dr. Antonio Carlos Lopes, o maior nome da clínica médica no Brasil, defende:

“Não quero saber de estudos multicêntricos porque isto tem viés importantes. A importância é a da experiencia adquirida a beira do leito por anos, isso é imbatível”.

Parece claro. Se o objeto da medicina é o doente, é necessário se observar a diversidade humana. E por que prevalece a rotina dos protocolos? Quando a medicina é desumanizada e o objeto passa a ser a doença, a relação é reificada.

A medicina de mercado, que transformou o cuidado em procedimento, atendendo as exigência do mundo das mercadorias, não pode conviver com a subjetividade da arte médica. Essa medicina é guiada pelos protocolos.

O messianismo no Nordeste.

As Pestes sempre impulsionaram grandes mudanças. A Peste Asiática (cólera) de 1855, ensejou o movimento messiânico no Nordeste.

O catolicismo popular no século XIX foi liderado por três beatos: o Padre Ibiapina, Padre Cícero e Antonio Conselheiro.

Ibiapina (1806), Antônio Conselheiro (1830) e Pe. Cícero (1844) formam um trio antológico no cenário do Nordeste do século passado. Embora nascidos em anos mais ou menos distantes, foram contemporâneos. Inclusive chegaram a se cruzar pelos caminhos de suas missões.

Em 1855, surgiu a notícia de uma epidemia do cólera-morbo que já havia atingido várias regiões, ameaçando Pernambuco. Pe. Ibiapina passou a sentir-se como que omisso frente a essa situação pela qual passava o povo.

A padre Ibiapina deixou tudo e foi cuidar das vítimas da Peste.

Os cemitérios foram as primeiras obras na missão de Ibiapina, cuja peregrinação iniciara-se pelo interior da Paraíba. Foi na atual cidade de Soledade que Ibiapina se deparou com cadáveres das vítimas da epidemia do cólera espalhados pelo chão; então, tomou a iniciativa de construir cemitérios.

Padre Cícero e Conselheiro, cada um a seu modo, seguiram o Padre Ibiapina.

Em Sergipe tivemos a experiencia do “Céu das Carnaíbas”, em Riachão dos Dantas, onde as pessoas tinham nomes de santos, e viviam num comunismo primitivo, tudo era de todos. A comunidade foi destroçada a bala, pelos fazendeiros e seus jagunços.

Para encerar a conversa.

O que me chamou a atenção na tal reunião ministerial do dia 22, não foi o nível da conversa, eu já suspeitava, mas a visão do Governo Federal sobre a Pandemia. Logo na abertura do vídeo: “O foco aqui não é a solução do problema, mas quem são os culpados.”

Enquanto isso:

A Pandemia continua dizimando em Sergipe (22/05): 82 óbitos, 170 pacientes internados, 4.922 casos confirmados e 2.482 pessoas isoladas em seus domicílios, monitoradas pela própria consciência.

Antonio Samarone.

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