VIOLÊNCIA DOMÉSTICA (por Jerônimo Peixoto)

Jerônimo Peixoto, 23 de Maio, 2020 - Atualizado em 23 de Maio, 2020

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

 

Notícias têm apontado um vertiginoso crescimento da violência doméstica, sobretudo nos tempos em que se vive o isolamento social, por causa da COVID-19. As ruas se esvaziam um pouco mais, mas barracos, casebres, palafitas e luxuosas mansões se enchem e as pessoas tendem a passar maior tempo em convivência doméstica. A paciência se esgota, o tédio surpreende, a ociosidade cresce e as consequências são danosas e deixam marcas indeléveis no corpo e na alma. Impera a brutalidade!

Ao se falar em violência doméstica, salta aos olhos aquela dirigida à mulher, esposa ou companheira, mãe ou irmã. Infelizmente, a violência doméstica ultrapassa as barreiras das agressões físicas, psicológicas, morais, patrimoniais que atingem às mulheres. Ela atinge crianças, adolescentes, pessoas incapazes e idosos. A violência atinge em cheio todos esses integrantes da família, sobretudo se recebem algum benefício de prestação continuada, aposentadoria por invalidez ou aposentadoria por idade.

As crianças são objeto de exploração sexual, de exploração laboral, no que atinte ao trabalho infantil, além de serem usadas para mendigar, enquanto seus pais ficam escondidos, à espreita de se beneficiarem com a ação mendicante. Muitas crianças estão, na atualidade, sendo forçadas a gravar vídeos engraçados, contra a própria vontade, para beneficiarem seus pais. É também uma exploração escravizantes!

Adolescentes são explorados em termos de prostituição e de recrutamento ao tráfico de drogas. Há uma boa dose desse tipo de exploração familiar, pois é um modo de manutenção da família, sem grandes esforços aos pais ou a quem lhes fazem as vezes.

Pessoas incapazes são expostas ao ridículo para benefícios financeiros dos pais. Basta uma deficiência mais grave, e têm imagens expostas, como se fosse uma tormenta, ou, de outra parte, um mote, para pedir ajudas intermináveis. A pessoa incapaz passa, nessa condição, a ser arrimo de família. Outra forma de violência contra essas pessoas é a má utilização de seu benefício, que muitas vezes, passa a satisfazer às necessidades de toda a família, não cumprindo o verdadeiro e precípuo objetivo, que é o de favorecer o bem-estar do incapaz.

Os idosos, não raras vezes, vivendo no último cômodo da casa, sem qualquer atenção da família, é usado para empréstimos consignados, financiamentos de aparelhos celulares de última geração para netos e filhos, ficando sem remédios, e se submetendo a espancamentos, quando não aceitam essa sujeição. Não têm afeto, não têm chances de dialogar e de receber visitas. Acabam por se tornar um “mal necessário”, por conta da aposentadoria.

As mulheres são ainda as que mais aparecem nos noticiários; quando não mortas, espancadas, espoliadas. Nestes tempos em que a permanência em casa é maior, homens se aproveitam para ingerir bebida alcoólica em maior intensidade e acabam por cometer estupros, explorar domesticamente o trabalho da mulher, além das torturas psicológicas, que as diminuem e as fazem sentir-se menos do que gente digna.

Assomem-se a isso as ofensas morais, com palavrões e qualificações desmerecedoras, bem como as agressões ao patrimônio econômico. Por não terem como se sustentar, muitas mulheres se submetem a situações vexatórias, o que é de todo um grande mal.

Há, também, a violência institucionalizada, que ocorre quando a assistência dos órgãos públicos falha, deixando as pessoas vulneráveis à mercê: filas intermináveis no INSS, falta de remédio, de atendimento em postos de saúde, hospitais; desrespeito aos idosos em estacionamentos e locais preferenciais. Tudo isso acontece e a sociedade passa a se acostumar, dando legitimidade a agressões desmedidas.

A violência doméstica deita raízes nas cavernas, quando a força era única forma de se disputarem espaços e comida. Faz parte de uma cultura violenta e machista, atualmente muito difundida como solução para os principais problemas do país. Mas, violência doméstica é covardia. É a maior expressão de inferioridade da pessoa que se diz “macho, homem de verdade”. Aliás, em qualquer circunstância, quando se apela para as armas, para a força bruta, revela-se a total incapacidade de argumentos, de ideias claras e precisas, aptas à solução dos mais variados problemas humanos.

Digamos NÃO à violência doméstica. Denunciemo-la com toda a força do bem que está em cada ser humano. Façamos da família o ninho sacrossanto da paz, do respeito e da convivência fraterna.

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